Efectivos da empresa de segurança Teleservice são acusados de terem assassinado o garimpeiro Pedrito Abreu Muatelembe no dia 11 deste mês na região do Dambi, arredores do município do Cuango, na Lunda-Norte.
O suposto assassinato a tiro terá ocorrido quando os guardas que protegem o projecto diamantífero Sociedade Mineira do Cuango envolveram-se em cenas de pancadarias com um grupo de garimpeiros que actuavam num espaço que constitui reserva da instituição acima mencionada, cedidas no ano 2009 pela Empresa Nacional de Diamantes (Endiama).
Fonte deste jornal contactada a partir do Cuango contou a O PAÍS que os guardas terão efectuado alguns disparos, um dos quais atingiu, supostamente, um dos cidadãos, facto que acirrou os ânimos dos presentes que se atiraram contra os elementos da Teleservice.
A população, constituída maioritariamente por garimpeiros, conseguiu desarmar alguns dos guardas, agrediram-nos e provocaram ferimentos graves, enquanto outros se afastaram do local das escaramuças para esperarem os reforços que viriam da sede do referido projecto diamantífero. Consta que após o confronto entre populares e os seguranças privados, estes colocaram os primeiros numa situação em que o único caminho para a fuga era o rio Cuango, que desagua no rio Zaire, no norte do país.
Segundo a fonte deste jornal, foi na sequência do cerco imposto pelos efectivos da Teleservice que terão morrido afogados, depois de mergulharem, os cidadãos Artur João Baptista, Tximuanga Tximbeleca “Rambo”, Adolfo Marcos, Tchicomba Alberto Mutangue e Texivumba Real.
Fontes próximas à Sociedade Mineira do Cuango e da empresa de segurança Teleservice contrariam o número de mortos divulgados inicialmente (ver caixa), mas o cidadão Sapalo Muautale, que contou alguns pormenores do incidente a partir daquela localidade da Lunda-Norte, disse o contrário.
“Fizeram uma emboscada. As patrulhas surgiram nos dois lados do rio e os garimpeiros ficaram num terreno a meio, não tinham como sair para a terra, porque os agentes da empresa de segurança cortaram uma das bóias que eles utilizavam para fazer a travessia. Alguns tentaram nadar e acabaram por morrer.
Os mortos que temos controlados são seis”, contou Sapalo Muautale.
O nosso interlocutor contestou também a existência de 14 mortos, que alguns sectores locais terão anunciado está semana. O último corpo de um dos afogados no rio Cuango, onde nas suas margens procuravam as pedras preciosas, emergiu na quarta-feira, 15, de acordo com alguns populares.
Os responsáveis da Teleservice, Administração Municipal do Cuango e os efectivos do departamento local de Investigação Criminal da Polícia Nacional não tiveram acesso ao corpo do indivíduo morto supostamente pelas balas disparadas por um dos guardas.
Um popular contou a O PAÍS que os enviados da empresa de segurança, Polícia Nacional e da administração local só chegaram ao local onde estava o corpo de Pedrito Abreu Muatelembe depois de ter sido enterrado. Alegam que procederam desta forma porque o cadáver não estava em bom estado de conservação.
“Enterraram o jovem no dia 14, mas os homens da Direcção Provincial de Investigação Criminal não acreditaram. A Teleservice também não acreditou e queria defender-se.
E os que morreram no rio a culpa também foi da empresa de segurança, mas infelizmente o senhor comandante da Polícia aponta a culpa aos garimpeiros”, contou a fonte deste jornal.
Nos últimos dois dias a situação no palco dos incidentes é descrita como calma, apesar da tristeza que grassa no seio da população.
“Mas a situação nunca passou disso mesmo. Se agora surgiu isso é porque não há empregos e as pessoas normalmente vivem do emprego”, contou Sapalo Muautale. Ele conta que os casos isolados nunca faltaram. Há pessoas que morrem nas matas, realçando que não há quem controla os incidentes, porque recentemente encontrou na via Cuango-Cafunfo efectivos da Teleservice a baterem os garimpeiros com paus como se estes fossem cobras.
“Gostaria de entender a razão que faz com que os seguranças usem balas reais quando surpreendem os garimpeiros”, questionou a fonte deste jornal.
Os incidentes aconteceram dias depois de responsáveis do Ministério da Geologia, Minas e Indústria, o Presidente do Conselho de Administração da Endiama, Carlos Sumbula, e o governador da Lunda-Norte, Ernesto Muangala, visitarem a área e entregarem cerca de 10 cédulas de exploração artesanal a garimpeiros que actuam naquela região do país, mas estes desconhecem as áreas onde podem desempenhar a referida actividade antes tida como ilícita.
Sobre as cédulas, Sapalo Muautale diz mesmo que foram quatro ou cinco, mais o importante é que seja definida as áreas onde a população possa praticar a sua actividade, até porque posteriormente os diamantes serão vendidos à Sodiam ou a Ascorp.
Um responsável da Endiama negou qualquer responsabilidade da sua instituição no processo de distribuição de cédulas e na concessão de espaços onde os garimpeiros doravante vão trabalhar. Segundo a fonte, a diamantífera estatal forneceu apenas assessoria técnica ao processo, tendo a certificação ficado sob alçada de um departamento do Ministério da Geologia, Minas e Indústria.
Horas antes do fecho desta edição, este jornal tentou ouvir Dias Francisco, assessor de imprensa do Ministério da Geologia, Minas e Indústria, que também estava indisponível, porque encontrava-se reunido, segundo o próprio.