Laurinda Lourenço nasceu em 1977 no município de Calandula, um dos mais conhecidos da terra da Palanca Negra, por causa das famosas quedas de água que fazem o postal da localidade.
Durante os primeiros dez anos de vida, ela podia enxergar tudo o que estivesse à sua frente. Mas quando atingiu os 12 anos de idade, Laurinda, cuja imagem aparenta ser a de uma senhora com idade mais avançada, começou a perder a visão.
As causas do problema que vive há cerca de 20 anos ainda são desconhecidas, apesar das consultas que realizou nos últimos meses no Hospital Provincial de Malange, onde foi acompanhada pelos médicos oftalmologistas aí em serviço.
Aos cinco anos teve os primeiros sinais de que poderia estar a sofrer de algum problema oftalmológico, mas a falta de recursos para procurar especialistas deste sectore, sobretudo num município então afectado pela guerra civil que assolava o país, fez com que a doença se agravasse, até que sete anos depois não conseguisse divisar nada que estivesse a poucos metros de si.
“Com 12 anos ainda conseguia ver algumas coisas. Naquela altura, a doença dava algumas comichões nas vistas”, recorda Laurinda, vinte e dois anos depois.
A senhora lembra que o médico lhe disse que o seu caso e o do filho apresentam sintomas semelhantes.
Esclareceu que alguns medicamentos que lhe foram dados pelos médicos, há meses, acalmaram as comichões que sente outra vez nos dois olhos, embora não consiga ver nada.
Como se não bastasse a situação em que ela própria está envolvida, um dos seus dois filhos, no caso José Lourenço, também perdeu a visão. A mais velha, que hoje está afastada do lar e da comuna onde vivem a mãe e o irmão mais novo, leva uma vida normal numa outra localidade do município.
José Lourenço tem sete anos de idade e também é cego como a mãe.
Só lhe foi ‘permitido’ ver a progenitora, a única irmã e outros parentes até ao seu primeiro aniversário. Nada sabe sobre o paradeiro do pai.
Nos primeiros anos de vida já não conseguia ver com clareza os meninos que consigo brincavam e as coisas que tinha ao redor. Hoje, seis anos depois de ter perdido a visão, José Lourenço ainda mantém alguns amigos fiéis. Entre estes, como o próprio contou a equipa de O PAÍS, defronte à casa onde vive com a mãe, constam os meninos Conceição e Bernardo.
“Eles são os meus dois amigos, assim como os filhos dos trabalhadores que estão a fazer a nossa nova casa. É com eles que brinco todos os dias”, contou o menino. Algumas crianças ainda tentaram contrapor os seus argumentos, mas mesmo não vendo quem eram os contestatários, o miúdo reforçou o seu ponto de vista sobre os dois amigos acima mencionados.
Verdade ou mentira, as brincadeiras do filho de Dona Laurinda com os seus amigos predilectos andam condicionadas e o velho sonho de os acompanhar à escola parece estar cada vez mais distante.
Em Abril último, ele e a mãe foram transportados numa ambulância para o remodelado Hospital Regional de Malange, uma unidade sanitária que atende também as populações das vizinhas províncias das lundas Norte e Sul e Moxico.
José ainda se recorda do dia em que esteve com o médico no principal hospital da província. Disseramlhe, segundo o próprio conta, que tinha uma visão turva. O repórter perguntou-lhe se conseguia ver a esferográfica ou o gravador que estava à sua frente e o pequeno respondeu: “não vejo nada mesmo”.
O resultado da consulta de Abril último deitou por terra o sonho de ele poder estudar, algo que a mãe, apesar de cega, desejava todos os dias em que acordava. E a inexistência de uma escola de ensino especial em Kalandula ou nos arredores da capital da própria província de Malanje impossibilita a sua concretização.
Dona Maria, irmã de Laurinda pela parte materna, também foi afectada pelos mesmos problemas. Com mais de 30 anos de idade, como frisou, viu a visão esgueirar-se-lhe igualmente antes de atingir a adolescência.
À semelhança da Maria, três dos seus cinco filhos, nomeadamente Chiquito, Ademiro e Vidal também perderam a visão alguns anos depois de terem nascido. Os três, segundo a irmã da mãe, perderam a visão assim que cada um deles atingiu os dois anos de idade.
Apenas dois dos irmãos não foram afectados pela doença, cujos contornos apontam para uma causa que poderá ser hereditária. E o mais velho refugiou-se hoje num dos bairros da comuna do Lombe, município de Cacuso, nas proximidades da estrada nacional 230.
“Neste momento Maria não está.
Ela saiu e anda pelas lojas existentes nas aldeias e comunas para ver se lhe dão alguma coisa para comer ou água para beber. Mas desde que elas estão doentes não tem havido nada para comer”, contou o administrador adjunto de Kalandula ….
Quis o destino que Maria, a irmã de Laurinda, a única que O PAÍS encontrou em casa nesta esta reportagem, também arranjasse um marido com os mesmos problemas que ela. Por coincidência, o senhor Alberto também é cego, mas não tem qualquer parentesco com a sua esposa Maria.
Laurinda não acredita na ideia de que o dilema que vive hoje tenha como origem os seus progenitores. “Eu não posso saber se partiu deles ou não”, garantiu a senhora.
Mas a mãe de ambas também tinha problemas oftalmológicos e as irmãs desta não. Mesmo assim, na região de Kalandula, muitos acham que o problema que afecta as duas irmãs partiu da mãe. Elas, que cresceram com alguns padres que passaram pela vila antes do fim do conflito armado, não acreditam nesta tese de que a origem esteja nos seus ancenstrais.
Impossibilitados de praticar a agricultura, a principal actividade desenvolvida no município de Kalandula e noutros da província de Malanje, Laurinda, Maria e seus filhos vivem graças à caridade de alguns populares que da região.
A Administração Municipal, através do sector local do Ministério da Reinserção Social, e uma senhora que se tornou madrinha do pequeno José Lourenço provêem comida e outros bens para as duas famílias de cegos.
“Estamos a sofrer muito. Comida quem nos dá é o chefe que veio mesmo aqui com vocês”, contou a senhora, referindo-se ao representante da Administração Municipal de Kalandula. “Eles nos dão alguma comida, mas estes dias são de sofrimento mesmo. Ontem, por exemplo, as crianças não comeram nada. Dormiram assim mesmo”, acrescentou.
São os filhos da madrinha de José quem tem a incumbência de acarretar a água consumida pelos integrantes desta sofredora família.
Mas dias há em que é a própria Laurinda que se desloca a outros pontos da pequena vila de Kalandula e nas demais aldeias próximas à procura de alimentos para o seu pequeno filho e para ela mesma.
Diz que conhece cada canto das casas que compõem a pequena povoação do Gueiro, situada a quase trezentos metros do secular complexo da Missão da Igreja Católica, que durante alguns anos frequentou. Mas não se arrisca a percorrer as zonas mais longínquas do bairro, onde só a sua irmã Maria parece conhecer melhor os cantos e caminhos, uma vez que durante a permanência da equipa de O PAÍS naquela vila de Malange ela não foi vista.
“Ela conhece melhor isso e anda muito mesmo. Assim deve estar mesmo distante, à procura de pessoas que lhes arranjem qualquer coisa para comer nos próximos dias”, contou o administrador-adjunto que fez de cicerone da nossa equipa de reportagem.
Laurinda contou que se desloca com frequência às residências dos administradores principal e do adjunto para buscar mantimentos.
Entre os familiares que ainda restam, está uma irmã mais velha que reside no centro da cidade de Malange, segundo ela. Mas considera que está as abandonou porque Laurinda e Maria perderem a visão e não quer carregar este fardo consigo. O antigo padre da localidade, identificado apenas como Rocha, ainda fez com que as irmãs se encontrassem em 2007, isto é há seis anos, mas nos últimos anos a relação parece ter esfriado.
“Fomos a casa dela buscar um pouco de sabão, mas ela ofendeu o padre Rocha. Por esta razão nunca mais pensei lhe procurar ou pedir às pessoas que nos levam lá”, explicou a senhora. As irmãs ainda acreditam numa possível recuperação se forem tratadas por médicos especializados.
Mas há dias em que uma e outra dizem preferir a morte do que o facto de não poderem ver os filhos que geraram ou trabalhar nas lavras para sustentá-los.
O facto de serem cegas faz também com que alguns populares na região trocem dos integrantes desta família. Laurinda consegue identificar alguns deles apenas pela voz e nada mais.
São pessoas como estas que frequentemente invadem a casa de adobe onde vivem para roubarem os bens fornecidos regularmente pela secção da Reinserção Social da Administração Municipal de Kalandula e outras pessoas de boa-fé na área.
Arrombam a porta na calada da noite e retiram todos os haveres, deixando outra vez a família entregue à sua sorte.