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Jogo de inocência para com os irmãos Gorita

A família desalojada no Maculusso, que vive actualmente numa cabana de pano, chapa e lona com cerca de metro e meio, na rua Ché Guevara, então município de Luanda, na província com o mesmo nome, desde Novembro de 2011, receberam, Sábado, 3, mais uma visita anónima que lhes prometeu o regresso à casa de procedência, ao lado da qual estão alojados.

Trata-se da quarta presença, em menos de três meses, já que a família desalojada foi visitada por uma delegação em Janeiro e por outras duas em Fevereiro do ano em curso, das quais não resultou qualquer solução a seu favor, senão o prolongado silêncio, que vai originando outras presenças do género. Embora alimentem alguma fé no efeito positivo desta última vistoria, os irmãos Gorita não esconderam a sua desconfiança, fruto da maneira como terminaram as buscas anteriores.

“Não é a primeira vez que alguém vem em nome do administrador, governador ou do Presidente da República e se dispõe a resolver a nossa situação, mas todos eles já não dizem mais nada, depois de saberem da história e das pessoas que nos submeteram ao despejo instaurado por um tribunal que consideramos injusto”, lamentou Heliodoro da Silva, o mais velho dos desalojados, recordando que as três visitas anteriores invocaram-se os nomes de José Tavares e de Bento Bento, administrador municipal e governador de Luanda, respectivamente.

Da conversa que o mais velho dos Gorita teve com o agente do Estado, saltaram à vista a inocência da situação por que passam o entrevistado deste jornal, seus irmãos e alguns sobrinhos por parte dos governantes e a vontade destes de repor a legalidade que ditou o despejo da referida família do Maculusso. “Quando lhe perguntei como se tinha apercebido da real situação por que passamos há mais de três meses, o oficial respondeu dizendo que estava na comitiva presidencial, que passara por ali com destino às imediações da Liga Africana de Amizade de Solidariedade para com os Povos (LAASP), para as exéquias fúnebres do nacionalista e militante do MPLA, Diógenes Boavida, e os mais altos mandatários do país viram a cabana, tendo-os orientado, logo a seguir, para se inteirarem da situação, a fim de a resolverem”, explicou Heliodoro, acrescentando que na base das preocupações dos líderes do Executivo estava a aproximação do período das chuvas, o que, segundo este ouviu do seu interlocutor, poderá tornar a crise dos Gorita numa inquietação da Nação.

Por causa disso, o visitante propôs a Heliodoro da Silva, que revelou na ocasião a sua ocupação de investigador dentro do quadro do pessoal efectivo da Direcção Provincial de Investigação de Luanda (DPIC), para voltarem a encontrar-se 72 horas depois, portanto na Quarta-feira, 7, dia em que o mais velho dos desalojados diz ter recebido, com bastante agrado, do homem do Governo alguns sinais de que o mesmo e aqueles que o mandataram estavam interessados em chamar a justiça a favor dos Gorita.

“Ele disse-me que seus chefes pediram para nos transmitir calma e acima de tudo muita paciência, porque, se no caminho do processo não constasse um despejo do tribunal, naquele mesmo dia a família desalojada voltaria imediatamente à casa que os viu nascer”, referiu, adiantando que, em tais condições, todo procedimento terá de seguir os trâmites legais e jurídicos até que se encontrem os erros e, consequentemente, os indivíduos envolvidos que fizeram o caso chegar aos contornos actuais.

Com a paciência, que considera de ferro, posta à prova, a julgar pelo tempo de vivência na cabana, Heliodoro ficou a saber, por intermédio do seu interlocutor, que o problema foi encaminhado para o governador da província de Luanda, Bento Bento e para Bento Soito, responsável pela requalificação dos municípios do Cazenga e Sambizanga. Entretanto, soube ainda que o representante do Governo para o caso da sua família deverá aguardar pela ordem de seus superiores hierárquicos, para junto com a sua equipa de trabalho começar a solucionar o caso, que os vizinhos dos sinistrados classificam como sendo mais um que se perde aos olhos de todo mundo.

Zango para trás

A nova intervenção parece ter trazido novamente a asperança ao seio dos irmãos Gorita, que já se descontraem de algumas situações menos agradáveis com sorrisos e determinação, algumas vezes advindos de recordações da vida feita na residência condigna, outras das peripécias por que passaram, para que o processo pudesse chamar à atenção de gente importante.

Nomes como os de José Tavares, Rosa Micolo, directora provincial da habitação e Joanes André, secretário de Estado para a Construção foram, vezes sem conta, trazidos à tona, até mesmo para lembrar a imposição do então administrador de Luanda de seguir para a zona habitacional do zango, município de Viana.

Vale lembrar que, na altura, José Tavares apresentou a referida proposta com o pretexto de melhor acomodar os Gorita, enquanto decorresse o processo, segundo tinham contado a O PAÍS as vítimas do despejo, que, habituados a histórias do género que acabam em permanência num local temporário, garantiram terem jogado no seguro, ao recusarem a proposta do dirigente.

A solução tinha cobrado aos irmãos Gorita uma presença na sede da administração de Luanda, onde, de tempos a tempos, se foram apercebendo do envolvimento de entidades notáveis, como foi o caso do secretário de Estado para a Construção, que teve de minimizar o clima de tensão motivado pela proposta do número um do município mais influente da capital e a recusa dos despejados com a recomendação do caso à Rosa Micolo, directora provincial da habitação em Luanda, para quem os documentos apresentados provavam a legalidade da família Gorita, embora não o tenha declarado na altura da reunião, precisando que se necessitava de tempo para identificar as pessoas que estavam a jogar contra a verdade, recordou Heliodoro Silva.

“Acredito que, depois de tudo isso, deixamos o Zango para trás”, atirou, suspirando de alívio.

Alberto Bambi
13 - 3 -2012
 
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