Alexandre Samuka, primogénito de oito anos, estava a ser enterrado naquele justo momento enquanto que Martinho Mingo, seu irmão mais velho, tinha sido o primeiro a conhecer o mesmo infortúnio. A morte de Martinho Mingo tinha precipitado o internamento imediato de outras oito pessoas, todas da mesma família. Todos eles tinham sido vítimas de um estranho envenenamento por ingestão de carne porco, alegadamente infectada por doença nociva a saúde humana.
“Ela já está a apresentar algumas melhorias mas ainda está com muita diarreia e enterite ”, garantia a doutora, Ana Maria, médica em serviço naquele momento.
Esquelética e completamente pá lida, Esperança Cassinda tinha sido internada no domingo, 3 de Junho, e partilhava o leito com o seu bebé, de apenas sete meses, também ele a padecer dos mesmos sintomas. Ambos tinham os braços ligados a dois sacos de soro fisiológico.
Socorrendo-se das poucas forças que ainda lhe restavam, Cassinda revelou-nos que “o bebé não tinha comido nada”, sustentando as cogitações que admitem que possa ter sido infectado por via da amamentação.
O caso está entregue às autoridades ligadas à Saúde Pública, que de verão determinar se a carne ingerida esteve infestada por algum vírus. Mas, ainda assim, persiste alguma contradição nas declarações prestadas a este jornal pela Polícia Nacional, autoridade tradicional local e pelos familiares. O dono do animal teria garantido que ninguém da sua família se havia queixado de algum mal estar depois do consumo da carne em causa. Daí que se supõe que a carne consumida pelas vítimas possa ter sido infestada por má conservação. Mas Serafim Cristo, marido de Esperança Cassinda, declarou que a carne tinha sido consumida no mesmo dia do abate.
Segundo revelou, Martinho Mingo, o seu cunhado era tarefeiro e havia sido convidado por um cidadão a abater um porco, supostamente, para consumo familiar. Feito o serviço e, depois de remunerado, o malogrado teria pedido ao proprietário se podia levar consigo as vísceras do animal, o que foi aceite. Terá sido desta carne que a vítima partilhou com mais oito elementos da sua família, na noite de domingo (3).
No Bairro Kapango, arredores da cidade do Huambo, não se falava de outra coisa, entre vizinhos e familiares. O ambiente era de choque e a consternação era real.
Serafim Cristo informou que todos os restantes membros da família se encontravam hospitalizados e o estado de saúde deles “inspirava cuidados”. Fontes do Hospital Central do Huambo garantiram, entretanto,a O PAÍS que Esperança Cassinda e o bebé eram os únicos pacientes do caso ainda sob os cuidados médicos naquela altura, admitindo que os restantes tinham já recebido alta hospitalar. Numa última visita que efectuámos à Esperança Cassinda, na terça-feira,a doutora Ana Maria já admitia a possibilidade de a paciente “abandonar”o hospital nos dias subsequentes.