Através de uma ronda efectuada Terça-feira, 5, nos complexos habitacionais Caju, no Talatona, Hipicus Residencial Park, no Benfica, Cajueiro, Condomínio Privado e Nova Vida, respectivamente localizados no Morro Bento e Golfe 2, O PAÍS apurou das crianças que aí vivem a vontade de quererem brincar como os garotos que vivem nos arredores. Carlinhos, de 11 anos de idade, frequenta a 6ª Classe no colégio Elisângela Filomena e todos os dias úteis tem de sair do Benfica em Belas para o 1º de Maio, no distrito da Maianga, município de Luanda. É sobre esta trajectória que o pequeno morador do Hipicus Residencial Park começa a descrever a sensação de apreciar, durante o per curso, outras crianças a brincar livremente.
“É uma sensação bonita ver outras crianças a brincar com areia, jogar à bola até se sujar como querem”, descreveu o cenário que garantiu observar quase sempre no bairro do Morro Bento e nas imediações da ponte inferior do Rocha Pinto. Visivelmente satisfeito com o protagonismo dos miúdos que, segundo Carlinhos, só pode ver pela janela de um carro escolar, o garoto não escondeu o desejo de poder experimentar a proeza, pelo menos por uma vez, como fez questão de referir. “
Eu gostaria de um dia brincar as sim como eles e, no fim da brincadeira, chegar a casa com aquela areia toda colada ao corpo e pensar no banho, sem nenhuma preocupação dos meus pais”, desabafou o pequeno. Carlinhos olhou então para a mãe e avó, que acompanhavam atenta mente a conversa, sem poder evitar uma daquelas gargalhadas comuns às crianças na hora de revelar algumas ambições teoricamente proibidas pelos pais. A emoção do ilho foi correspondida pelos encarregados também com um sorriso, mas, logo de seguida, desaprovaram a intenção do pequeno com um aceno de cabeça.
No condomínio, as crianças brincam mais às escondidas, ao stop, queiton e ao Salvaova, de acordo com Carlinhos, que se prontificou até a explicar como se processa cada uma das recriações por si citadas. “Às escondidas é assim, todo mundo vai esconder-se e um fica a contar. Quando notar o silêncio dos outros, ele parte para descobrir os escondidos, sem deixar que os encontrados se antecipem a dar um pontapé na lata, bidon ou algo utilizado para fazer a contagem”, explicou, adiantando que só deste jeito o procurador evita a salvação daqueles que já apanhou. O último a ser encontrado é quem fica com a carga da contagem para se retomar o divertimento. Segundo ele, o salvaova não seria muito diferente de às escondidas, não fosse a obrigação de passar sob as pernas dos prisioneiros, apoiadas a uma parede, para os salvar Quanto ao stop, referiu que a brin cadeira consiste em escrever nomes de pessoas, terras, marcas de carro, objectos ou coisas, conforme o acor dado por todos, obedecendo, no entanto, em cada vez, a ordem alfabética. O registo, que é normalmente feito em folhas de papel individuais, tem ordem de paragem vindo de qualquer um dos participantes, quando alguém sentir que já preencheu todos os requisitos. “O resto é verificar quem preencheu ou não em cada coluna e des contar pontos, quando se repetem os mesmos nomes”, adiantou, resumindo o queiton como uma brincadeira que se baseia no toque de um a outro por meio de corridas, fintas e outras acrobacias.
O futebol-salão e o voleibol são as modalidades mais praticadas pelas crianças do Hipicus Residencial Park, por causa da natureza do campo que foi construído nesse condomínio. Carlinhos manifestou ainda o desejo que nutre de conhecer rapazes do bairro para deles ouvir histórias diferentes das que tem conseguido colher na escola e nos encontros familiares. Preocupado em fazer novas amizades está também Hugo de oito anos de idade, que acabou de se mudar para o condomínio Caju, no Talatona, no final de semana que antecedeu o dia da nossa reportagem. “Aqui é difícil ver outras crianças, porque isto é muito fechado”, reclamou, tendo revelado que antes vivia na zona do Morro Bento, onde era mais fácil conquistar qualquer menino da sua faixa etária, para com ele brincar de qualquer jeito. Para surpresa de sua mãe, que estava atenta à entrevista, o miúdo, que anda na 2ª Classe, manifestou o grande desejo de um dia visitar uma lavra grande, para ver como é que se plantam e crescem algumas frutas, hortaliças, legumes e tubérculos, fazendo questão de referir a banana, manga, o tomate e a cebola, para além da mandioca e a batata-rena.
A ideia que deixou a mãe com um compromisso de realizar o sonho do pequeno surgiu na escola, quando ao pequeno Hugo e aos seus colegas foi recomendado ler o texto «A lavra do meu pai», um relato que ficou como preferência do garoto. Para não variar, antes de ser abordado por O PAÍS, Hugo estava a ajudar o empregado de casa a regar as plantas, uma actividade que, para ele e a sua irmã mais nova, compensava a falta de amigos, conforme deixou patente o trabalhador de casa.
Se em condições normais é difícil ver uma criança a jogar à bola sozinha, no condomínio esta situação repete se vezes sem conta, conforme confessou Pindi Pedro, a quem a nossa reportagem encontrou a dar uns toques. “Aqui difícil é ter alguém com quem jogar, porque a maioria das crianças anda fechada em casa a divertir-se com seus brinquedos e então, como eu gosto de futebol contento-me em dar passadas e domínio sozinho”, declarou, não conseguindo conter um ar de tristeza.
Questionado sobre se não há ocasiões em que pratica a modalidade na companhia de colegas e amigos, respondeu dizendo que aproveita os intervalos na escola para uma peladinha com outras crianças. “No nosso condomínio tem um campo de futebol onde se realizam jogos, mas dificilmente as competições são entre crianças do complexo e de bairros vizinhos”, acrescentou, dizendo que, se assim não fosse, ele e outros rapazes amantes da modalidade teriam mais oportunidade para se inteirar com outra rapaziada.
Pedrito, como é carinhosamente tratado por familiares e amigos o rapaz de 15 anos de idade que frequenta a 9ª Classe no Colégio DOGACAE, de morou um pouco para admitir que, às vezes, dá uma fugida para experimentar outros atractivos. “Há dias que dá mesmo vontade de brincar para se sujar um pouco e a gente dá uma fugida”, confessou, re conhecendo que os rapazes de outras paragens acabam por ser mais criativos nas brincadeiras em relação aos da sua classe, devido ao rigor que os pais lhes impõem.
Com o desejo de ser um engenheiro de construção civil, o rapaz leva um propósito. ”Vou contribuir para se evitar esse tipo de construções, onde 50 ou mais casas, mesmo tendo cada uma quintal, estão vedados por um outro maior”, reagiu. Enquanto os rapazes mostram uma paixão pelo futebol jogado preferencialmente em terra batida, as meninas falam da garrafinha como sendo o maior atractivo que, mesmo dentro de um condomínio normalmente sem espaço algum com areia, gostariam de experimentar. “Eu gosto de brincar garrafinha na escola, mas as minhas colegas não me escolhem, porque falam que eu não sei fintar” reclamou Weza de Almeida, argumentando ser por isso que, de quando em quando, no complexo, ensaia as acrobacias que o referido jogo exige.
Por sua vez, Tcheza de 11 anos, estudante da 6ª Classe no colégio Baptista da Paz, justifica a sua afeição pela garrafinha por ser uma brincadeira muito colectiva e por facilitar a aquisição de certas habilidades que, segundo a menina, são essenciais na prática do andebol, sua modalidade desportiva preferida.
”Aqui é difícil ver outras crianças, porque isto é muito fechado”, reclamou, tendo revelado que antes vivia no Morro bento”.
“Só perdi uma corrida para dois amigos, mas gostaria de correr ao lado de mais crianças, a ver se consigo passar por muita gente”.
”Eu gosto de brincar garrafinha na escola, mas as minhas colegas não me escolhem muito, porque falam que eu não sei fintar”.
”Gosto da garrafinha, porque permite fazer amizade e ter jeito para jogar o andebol que eu gosto muito”.