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despejados do Maculusso

Despejados do Maculusso perdem mais um irmão

De acordo com José Celson da Silva Gorita, a transferência forçada pelo Governo da Província de Luanda (GPL), na noite e madrugada de 30 de Abril para 1 de Maio, do Maculusso para as casas da Sapu II, no distrito do Kilamba Kiaxi, contribuiu muito para a recaída anímica do irmão mais velho, nos seus primeiros e últimos 29 dias no novo habitat. Queixouse de uma dor de estômago antes de sucumbir, ao chegar ao Hospital Geral de Luan da (HGL), no último domingo.

“Ultimamente, o mano estava muito em baixo, porque dizia que o Governo nos tinha atirado para aqui na sapu, longe da nossa casa, a fim de favorecer os interessados na vivenda e isso lhe consumia de um dia para outro, recordando até a forma agressiva que usaram para destruir a nossa cabana e nos tirar daí mas, na Sexta-feira e Sábado, ele se queixou de fortes dores no estômago”, explicou Zé, como é carinhosamente tratado entre familiares, amigos e conheci dos, o qual adiantou que ainda tiveram tempo de o levar para um posto médico do bairro.

O resultado do diagnóstico transmitido pelo enfermeiro de serviço, segundo contou, indicava que Heliodoro da Silva queixava-se de mui tas dores nos intestinos, ao ponto de sentir que estes lhe estavam a sair do organismo. Referiu terem sido estes os sinto mas de que também se queixou Elsa Gorita, horas antes de perder a vida no hospital Américo Boavida, a 30 de Abril de 2012, uma razão que levou Zé e outros irmãos a concluir que todos eles, a qualquer momento, podem ser acometidos por tais insuficiências digestivas e ao nível do sistema respiratórios. Daí que, depois de concluírem as exéquias fúnebres, os enlutados irão procurar os serviços médicos, com objectivo de conhecerem o seu verdadeiro estado de saúde e solicitar algumas consultas de rotina.

 “A vida a que nos sujeitamos na cabana, depois de termos sido despejados injustamente em Novembro de 2011, sem nenhuma voz de direito se levantar em nosso favor, fez de nós vítimas das circunstâncias”, considerou José Gorita, apelando àqueles que classifica como “desumanos” para não interpretarem as suas alega ções como um arrependimento mas nelas reconhecerem as consequências da injustiça a que os submete ram. Voltando aos esforços que envida ram para ver o irmão mais velho em vida, Zé Gorita disse que no domingo de manhã alugaram um carro e levaramno para o hospital geral, onde deram entrada de Heliodoro. “Mas pouco tempo depois, o mé dico voltou para nos informar que o paciente já tinha entrado no HGL sem vida, o que provocou choros e súpli cas nesse instante, até que consegui mos uma vaga na morgue da mesma unidade hospitalar”, relatou sentido.


Haveres retidos pelo GPL dificultam óbito


Uma vez morto, a responsabilidade dos que acompanharam Heliodoro até aos últimos segundos de vida pas sava por regressar a casa, anunciar ao resto da família e conhecidos sobre a ocorrência, bem como organizar o óbito, uma tarefa que, no entender de José, quase lhes cobrava também o último suspiro. “É que desde que o GPL destruiua nossa cubata e levou as nossas coisas, nunca mais nos devolveu”, reclamou, anunciando que não foram poucas as vezes que a sua família tentou solicitar os seus haveres.

Um dirigente afecto à presidência da comissão administrativa do município de Luanda, contactado para esclarecer a situação, alegou desconhecer os factos, tendo prometido que questionaria a área social para o realojamento, cuja função é cuidar desses assuntos e forneceria informações precisas ao nosso jornal. Todavia, até ao fecho desta edição tal não aconteceu. Vale lembrar que, quando na madrugada do dia 1 de Maio, as basculantes do Governo partiram com os pertences dos desalojados do Maculusso, foi dito, segundo estes, que o destino seria a zona habitacional do Zango, em Viana, onde estava reservada uma residência para os Gorita e suas coisas.

Apesar de descontentes com a alternativa, alguns elementos da família, incluindo o entretanto falecido, seguiram a comitiva do GPL, por via do carro de um primo, para conhecerem o sítio em que depositariam os seus bens, tendo confirmado a colocação destes dentro de uma residência, algures no Zango IV, apesar de parte das coisas terem sido colocadas no quintal. Para espanto dos desalojados, após o funeral da irmã, foi-lhes anunciado que já não ficariam no Zango, mas, sim, na Sapu, Kilamba Kiaxi, conforme contam, uma mudança que os obrigou a cobrar imediatamente as suas pertenças, diligência que não teve sucesso.

Em consequência disto, desde o dia 11 de Maio, altura em que metade da família se mudou para a Sapu, que José Celson da Silva Gorita e outros quatro irmãos, mais os dois sobrinhos, se sujeitam a andar com as mesmas roupas e a dormir ou sentar se no chão, para além de estarem privados de confeccionar as suas refeições num fogão a gás. Aliás, quando, na terça-feira, 12, levava a cabo a entrevista com a família enlutada, a equipa desta reportagem esteve dentro de casa da Sapu, onde pôde notar um vazio, ao ponto de nem sequer as pessoas presentes terem tido a possibilidade de se sentar numa cadeira. “Como vêem, não temos cadeiras para as pessoas, o fogão eléctrico tivemos que pedir e estamos a comprar água para o óbito, quando as nossas coisas estão lá encarceradas, há mais de um mês”, desabafou, revelando que já começaram a roubar as que os homens do Governo deixaram fora de casa.


DNIC descarta responsabilidade

Valendo-se do facto de o falecido ter sido efectivo da Polícia Nacional e sentindo-se totalmente desapoiados, os Gorita recorreram, na terça-feira, 12, à Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC), para lhes conceder um apoio que lhes permitisse realizar o óbito sem muitas preocupações, como aconteceu aquando da morte da irmã, em que o velório teve de transferir se para o bairro Mulenvos, em Viana. Para agravar a sua dor, os irmãos de Heliodoro da Silva, foram aconselhados a ir ao Centro do NZoji, em Viana, alegadamente o lugar onde funcionava o mais velho dos Goritas.

“Quando chegámos aí, falámos com o senhor António, mas este disse que a instituição não tinha o dever de ajudar, porque já fazia mais de um ano que tinham dado baixa ao funcionário”, contou Marisa, tendo informado que o seu irmão ainda tentou questionar se era possível abandonar assim um trabalhador que contava com mais de 20 anos de serviço.

Heliodoro João Silas da Silva foi a enterrar por volta das 12 horas de quarta-feira, 13, no cemitério do Camama, distrito do Kilamba Kiaxi. O falecido deixa uma viúva e dois filhos.






Alberto Bambi
16:53
 
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Comentários

  1. cossa
    2012-07-02 13:58:59
    No nivel em que está Angola hoje não merece tratar munincipes deste modo,lamento e peço as estruturas competentes para meterem mão no assunto e tentar socorrer esta familia porque encontra desulidida e sem onde buscar o lenço paralimpar lágrimas,será preciso intervenção da ONU para esta família se livrar?Contentemos o nosso eleitorado porque foi este que nos colocou onde estamos e ...boa tarde
  2. Dragão
    2012-06-26 15:31:10
    E o Kangamaba onde
  3. Tomás
    2012-06-24 17:25:03
    Realmente se nós Angolanos continuarmos com esta insensibilidade não sei onde vamos parar. Seja quais forem as razões disso tudo, isto indica que estamos de mal para o pior. Será que o Angolano Solidário já não existe ? É so mal em cima de mal ?
  4. Domingos Monteiro
    2012-06-20 09:00:40
    entao se um cidaddao antes de falecer ,trabalhou como efectivo durante 20 anos pela corporacao da policia nacional ,depois do seu desaparecimento fisicos; sera que basta uma remoneracao de apenas um ano seja suficiente para o sustento da sua familia (filhos e esposa)? so acho uma engratidao por parte da pilicia nacional se for do seu conhecimento
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