Babás estrangeiras
Contratar babás estrangeiras é sinal de snobismo ou de novo-riquismo
Já é consabido que existem funcionárias asiáticas a trabalhar com as crianças angolanas. Isso não pode interferir com o crescimento das crianças e a absorção dos valores próprios da cultura angolana? É claro que interfere. Não é possível que alguém que tenha caído aqui de repente, vindo de um outro país, possa substituir devidamente os pais dos nossos petizes, em termos culturais.
A socialização das crianças que são acompanhadas por tais asiáticas não pode, de maneira alguma, estar de acordo com aquilo que são os padrões culturais reconhecidos pela cultura angolana. E se tivermos em conta que esse mal afecta sobretudo crianças das classes altas, então podemos concluir que, também do ponto de vista dos valores, o futuro de Angola começa a estar comprometido.
Um dos argumentos avançados por pessoas que procuraram estes serviços é o facto de as funcionárias angolanas apresentarem sempre uma série de reclamações e serem menos atenciosas que as filipinas e tailandesas. Gostávamos de ter um comentário a propósito. Dizer que todas as angolanas são isto ou todas as tailandesas são aquilo são generalizações que servem apenas para justificar o snobismo de quantos optam por babás dessas nacionalidades. Então as angolanas deixaram de repente de ser atenciosas e responsáveis, ao ponto de justificarem a “importação” de estrangeiras para exercerem tal função?
Tem de começar a haver um pouco mais de respeito pelas pessoas, pois humildade não tem necessariamente de implicar subserviência. Não será que a história está propositadamente mal contada? Não será que as empregadas estrangeiras são quase que levadas ao colo, enquanto as angolanas são maltratadas e exploradas, sendo por isso que se rebelam?
Quanto se paga a uma empregada angolana? E a uma estrangeira? E não nos esqueçamos que, sobretudo no caso dos novos-ricos, para além do snobismo, existe a tendência para maltratar quem está abaixo na hierarquia social. Lamentavelmente, temos visto muitos casos destes.
Há quem fale em preguiça, pequenos roubos e insubordinações da parte das babás angolanas. Haverá alguma verdade nestas acusações ou a nossa sociedade sempre foi prenhe em situações do género? Não é nada disso. Claro que há quem roube, ou porque opta por aquilo que considera mais fácil, ou porque sabe que o patrão também rouba no local de trabalho e segue o seu exemplo, ou apenas porque se pretende vigar dos maus-tratos. Agora, não será porque alguém rouba que vamos dizer que todas as empregadas angolanas roubam ou são insubordinadas. Há muito que existem empregadas domésticas angolanas que são verdadeiros exemplos de honestidade, de decência e de pudor. Olhe que muitos dos novosricos foram educados por empregadas angolanas, que eram verdadeiras “mães” – ou já se esqueceram disso?
Sociologicamente, como é que se pode analisar o comportamento destas pessoas que preterem dos préstimos dos cidadãos nacionais e recorrem a dois mercados longínquos, como o tailandês e o filipino, à procura de uma babá? Como já disse, são normalmente pessoas que estão mais preocupadas em demonstrar status do que em educar devidamente os filhos. É snobe, é bem visto pela alta sociedade ter uma babá branca (ou quase branca), então não nos importamos de pagar bastante mais para demonstrar que estamos em patamar social mais elevado que a maioria dos demais.
É isso, são os carros de milhões de dólares e são quilogramas de ouro que se exibem nos braços, nos dedos e ao pescoço, mas isso é normalmente a fachada, o véu que esconde podridão de algum tipo. Porque quem tem educação sólida preocupa-se com os demais, preocupa-se com os seus e não tem de mostrar ao mundo que dispõe de recursos para pagar a uma empregada estrangeira. A educação sólida funciona como os alicerces de uma casa. O que faz a educação sólida é, por exemplo, pagar bem a uma angolana com ensino médio ou superior, que acompanha a educação dos filhos de acordo com os valores que nos são próprios. É assim que age quem enriqueceu pelo seu suor ou quem herdou riqueza e foi educado com riqueza de princípios.
Outro argumento avançado por estas pessoas prende-se com o suposto ensino da língua inglesa às crianças. Que opinião tem sobre isso, tendo em conta que estes países nem sequer têm o inglês como língua oficial? Este é outro argumento que só provoca indignação. Então agora vou importar um jardineiro da Conchinchina para as plantas se habituarem ao inglês? Esse argumento é, no mínimo, estranho. Quem quer ensinar inglês aos filhos e dispõe de recursos, paga a angolanos devidamente qualificados para ensinar as primeiras noções dessa língua aos filhos e paga-lhes depois viagens e estadias em Inglaterra, África do Sul e Londres para aperfeiçoar a língua de Shakespeare.
Mas atenção, que mesmo no seio dos novos-ricos, há quem seja patriota e não tenha normalmente o tipo de actuação que refere. Tudo depende dos tais alicerces…
Num momento em que se apregoa a angolanização de sectores chave como os dos petróleos, telecomunicações, banca e outros, como perceber este fenómeno de angariamento de funcionárias tailandesas e filipinas para uma actividade que no passado até foi desempenhada pelas avós e outros parentes próximos? A primeira coisa que deve ser dita é que se se fala agora em angolanização de sectores vitais como os que enumerou, é porque terá antes havido a sua “estrangeirização”, o que abona claramente em desfavor das autoridades. Não vinga a ideia de que não há quadros angolanos para esses sectores, até porque se não os houvesse seria porque não teria havido aposta em formação de qualidade, o que não é bem verdade, pois temos em Angola profissionais competentes, sim. Agora, quanto à importação de estrangeiros para funções consideradas “menores”, também não é novidade. Olhe que há operários não qualificados estrangeiros a ganharem mais do que muitos engenheiros angolanos, o que é no mínimo uma aberração. Portanto, a “importação” de empregadas domésticas não surge por acaso, mas é consequência de alguns erros que foram sendo cometidos no sector do emprego e que agora se está a procurar resolver. Antes de mais, é preciso que haja legislação que proteja o emprego e o salário dos angolanos no seu país. E tem de haver critérios para emprego de força de trabalho, que promovam duas coisas: em primeiro lugar, que promovam o emprego segundo o mérito e não segundo a nacionalidade; e em segundo lugar que obriguem ao pagamento segundo o mérito e não segundo a cor do passaporte. E a prioridade deve ser sempre para os angolanos, até porque convém à economia angolana que boa parte dos nossos recursos financeiros circule mesmo entre nós.
Dani Costa