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Alerta de fome no Bié, Cunene, Moxico e Kuando-Kubango

Técnicos do Gabinete de Segurança Alimentar do Ministério da Agricultura e de outros organismos do Estado diagnosticaram, numa avaliação rápida de segurança alimentar e nutricional, que algumas regiões das províncias do Bié, Cunene, Kuando Kubango e Moxico serão assoladas pela fome nos primeiros meses de 2010.

Os principais resultados da Monitoria da Situação Actual de Segurança Alimentar e Nutricional indicam que em quase toda a extensão da província do Cunene, na faixa sul do KuandoKubango, no município das Bundas e na comuna do Lumbala Kaquengue, no Alto Zambeze, no Moxico, e em Calussinga, no Bié, a situação alimentar pode tornar-se crítica até o presente mês.

De acordo com o documento, com 76 páginas, os habitantes das localidades referidas já começaram a enfrentar algumas dificuldades para fazer face às necessidades alimentares básicas.

Os relatores acreditam que é pouco provável que as pessoas venham a ter “acesso adequado aos alimentos antes da próxima colheita, sendo eventualmente necessária assistência alimentar a alguns, especialmente aos grupos de risco”.

Durante as campanhas agrícolas 2006-2007 e 2007-2008 no Cunene, Bié, Moxico e Kuando-Kubango registou-se uma redução da produção de cereais na ordem dos cinco por cento, enquanto a produção de raízes e tubérculos apresentava um ligeiro aumento de um por cento.

As próprias famílias alertaram durante a elaboração do relatório que haveria reduções substanciais nas colheitas, tanto de cereais como do feijão. Previa-se mesmo o agravamento da fome no decurso do mês passado e no ainda em curso.

As culturas nas regiões do Cunene ficaram comprometidas porque as precipitações nos últimos anos atingiram níveis jamais registados, tendo totalizado 968,3 milímetros contra 500 milímetros em 2008/2009.

Estima-se que terão sido destruídos 120 mil hectares de culturas.

“Dos municípios atingidos, a zona norte do Cuvelai foi a que menos sofreu.

É também a zona mais produtiva da província, em termos agrícolas. As culturas mais praticadas incluem o massango e massambala e regista-se o aumento na diversificação de culturas com a introdução e cultivo de raízes e tubérculos (mandioca, batata-doce e inhame) e de hortícolas”, informa o relatório.

Os vestígios das culturas de massango e massambala no município de Namacunde, um dos mais afectados, acabaram por desaparecer. Os danos foram de tal dimensão que estes produtos não estiveram disponíveis no mercado local.

Já no Kuando-Kubango, as consecutivas incidências de calamidades naturais, chuvas excessivas e estiagem prolongada estão a resultar no decréscimo da produtividade das culturas.

As perdas de produção dos principais produtos acentuaram-se porque os elefantes, hipopótamos, macacos e crocodilos invadiram os campos agrícolas.

A ocorrência de irregularidades climáticas, como o cacimbo prolongado, excesso de chuvas, ataques de pragas e doenças têm dificultado o aumento da produção no Bié, agravado pela aplicação de técnicas de cultivo ainda rudimentares.

Em quase todo o território biéno assistiu-se a decréscimo de produção de cereais e leguminosas. A época mais crítica terá começado a partir de Agosto passado, com excepção dos municípios do Chitembo e Camacupa, onde os produtos em causa seriam substituídos, em princípio, pela mandioca.

Sobre o Moxico, os investigadores do Ministério da Agricultura narraram no relatório que esta província apresenta actividades bem diferenciadas entre as duas épocas do ano. A agricultura, pesca, caça e extracção de mel são as actividades de sustento mais desenvolvidas pelos agregados familiares.

O peso de cada uma das actividades varia consoante a região. Nas zonas das chanas e rios, a pesca é a principal actividade ao longo do ano junto com outras actividades rurais. A pesca, por exemplo, é o sustento de cerca de 22 por cento da população e extracção de mel de 30 por cento.

 Acesso restrito aos alimentos Os pesquisadores apuraram ainda que em consequência da baixa da produção, o respectivo consumo alimentar tem sido muito pobre.

No Cunene, por exemplo, o relatório adianta que a maioria dos seus habitantes faz uma refeição por dia composta de pirão, de massango ou de milho, com água e sal.

As pessoas não conseguem muitos produtos como a massambala e massango nos mercados de Ondjiva e Namacunde, razão pela qual têm de recorrer ao mercado abastecedor namibiano, mesmo enfrentando enormes problemas com os serviços alfandegários e efectivos da Polícia Nacional.

O inquérito nacional de nutrição do Ministério da Saúde de 2007 mostra que a prevalência do marasmo no Cunene é das mais altas do país (12, 3%) e a do nanismo na mediana 29, 9 por cento. De acordo com o relatório, as informações recolhidas das estruturas sanitárias de Kuvelai, Kwanhama e Ombandja dizem terem sido identificados casos de malnutrição em crianças, o que pode indicar uma degradação da situação nutricional da população.

Face às dificuldades de acesso aos alimentos, a população do KuandoKubango está a fazer reajustamentos à dieta nomeadamente na redução do número de refeições e mudanças na qualidade.

Os técnicos do Gabinete de Segurança Alimentar concluíram que “cerca de 60 % das famílias faz apenas uma refeição por dia baseada no pirão de massango e folhas, por vezes consomem feijão e peixe mas raramente carne. Utilizam gordura vegetal”.

No Bié, uma das áreas onde também existem regiões supostamente afectadas pela fome, existe uma certa contrariedade em relação aos preços dos produtos alimentares, incluindo os provenientes do campo. Os preços são mais altos nas localidades com bons acessos, ao passo que naquelas onde é difícil entrar, os produtos do campo têm os preços mais baixos. Essa contrariedade acontece em relação a Camacupa e Nharea, respectivamente.

A alimentação dos biénos tem um padrão diversificado. Consta que os agregados consomem farinha de milho, folhas diversas, sal e gorduras de origem animal e vegetal. Verificase também o consumo de gorduras, feijão e carne, embora de forma irregular.

Os preços dos alimentos no Moxico também são muito altos, mesmo para os produzidos localmente. No Alto Zambeze e nos Bundas, por exemplo, apesar de haver pouca disponibilidade de bombó para venda pelos produtores, o preço da fuba de bombó torna-a pouco acessível às famílias pobres.

Sobre o Moxico, os técnicos do Gabinete de Segurança Alimentar salientaram que as aldeias avaliadas apresentam um consumo alimentar diversificado.

“A fuba de bombó, de milho e de massango, constituem a alimentação”, indicam os realizadores do estudo, acrescentando que “a ingestão destes alimentos não é regular em todos os agregados. Informações dos grupos focais dizem que são poucos os que consomem carne pelo menos uma vez na semana.

O consumo de feijão é ainda mais reduzido, devido às perdas da produção própria e aos elevados preços no mercado.

A maior fonte de gordura é natural, como as sementes de abóbora e de gergelim. O óleo alimentar ,devido ao elevado custo no mercado, é raramente utilizado”, acrescentam os especialistas do Ministério da Agricultura.


Reservas alimentares comprometidas

As informações que constam do relatório do Gabinete de Segurança Alimentar demonstram que as reservas alimentares nas províncias estudadas, nomeadamente Cunene, Bié, Moxico e Kuando-Kubango estarão comprometidas.

O documento refere que a quebra no stock das populações ficou a dever-se às condições climáticas adversas que afectaram significativamente os níveis de produção.

A perda das culturas e do gado reduziram, de forma bem visível, a produção local de alimentos no Cunene e as famílias não constituíram reservas alimentares, tanto na forma de grão como na posse de animais como elemento de troca.

Previa-se, por exemplo, que no município do Cuvelai, onde as perdas foram menores em relação às demais localidades da província do Cunene, as reservas esgotar-se-iam antes de Setembro do ano passado.

Na vizinha província do KuandoKubango as reservas também são insuficientes para as necessidades e a maioria dos seus habitantes terá de aguardar pela próxima colheita.

Um número considerável de pessoas recorre à Namíbia para adquirirem massango.

Estimava-se igualmente que as colheitas de milho e massango seriam muito baixas em muitas regiões do Moxico, porque uma parte considerável destes produtos estragou-se devido ao excesso de chuvas.      As dificuldades em adquirir os alimentos começaram mesmo antes do “período de fome” que, em geral, ocorre entre Dezembro e Fevereiro.

Antevia-se isso nas localidades de Lucula, Luzole e Calungo, na comuna do Lumbala Nguimbo, onde as reservas de mandioca poderiam baixar antes de Dezembro de 2009.

“No município dos Luchazes, apesar do fraco desenvolvimento das culturas, a maioria dos agregados possui mandioca e milho suficientes até ao início das próximas colheitas.

Por outro lado, a venda de mel neste período permite-lhes adquirir alimentos no mercado”, assegura a equipa do ministério.

As condições climatéricas também afectaram a produção no Bié onde, no Chivaulo, a esta situação somase a pouca disponibilidade de terras e à necessidade de usar os mesmos solos durante anos consecutivos sem adição de correctivos.

No Chitembo, outro município do Bié, a maioria dos agregados possui milho e mandioca suficientes até à colheita das nacas.

Para sobreviverem, muitas pessoas intensificaram o biscate agrícola e não agrícola,  em que, nesta época, o pagamento é feito em alimentos, ou aumentam a venda de animais ou promovem ainda a troca directa com alimentos e a venda de bebidas alcoólicas.

Alguns recorrem ao fabrico de carvão. No Moxico e no KuandoKubango há casos de pessoas que migraram para outras aldeias ou para países vizinhos como a Zâmbia e a Namíbia. Esse trajecto foi efectuado principalmente por jovens. 

Soluções urgentes


As soluções preconizadas pelos técnicos do Gabinete de Segurança Alimentar, do Ministério da Agricultura são do foro agrícola, e visam o restabelecimento ou reforço das bases de sustento, melhoramento no aprovisionamento e sementes, instrumentos agrícolas e fertilizantes, melhoramento e ampliação dos sistemas de rega, das técnicas de produção e de maneio do gado.

Os técnicos recomendam a ampliação da rede de mercados rurais, o estabelecimento de sistemas de conservação de produtos perecíveis e um sistema de preços dos produtos locais mais justos.

A equipa defende o estabelecimento urgente de fornecimento de água própria para consumo da população e o estabelecimento de pontos de água para gado.

“O uso de produtos florestais é a base de várias actividades de sustento e que podem ter impacto negativo sobre o ambiente e recursos naturais. É por isso necessário o estabelecimento de sistemas de gestão destes recursos que permitam a sua exploração sustentada, como é caso do fabrico de carvão, da caça e pesca. Outro elemento do foro ambiental a ser monitorado é o movimento de elefantes e dos hipopótamos”,


Dani Costa
12 - 2 -2010
 
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Comentários

  1. Ambientalista João Huvi
    2011-03-31 06:19:44
    Perante a situação concreta sujiro o seguinte: - Que o Governo implemente políticas de investigação do fenómeno, dando prioridade as instituições Académicas Universitárias e não só, visto que é alí no centro do saber científico quanto as causas e possíveis soluções. Para isso há necessidade de disponibilizar financeamento aceitáveis na área de investigação científica. - O Estado angolano deve estabeler uma relação directa com as áreas de Insvestigação Científica (traçando linhas de investigação, acompanhar sintetisar, valorizar e implementar) por formas a não se perderem resultados valiosos de investigação e consequente perca económica de valores investidos. J
  2. Biologo Edmundo weyulu
    2011-03-02 11:39:32
    No meu ponto de vista a fome dsd os anos remotos tem contribuido muito para as subidas constantes d taxa d mortalidade em do nundo ,e em particular em angola eu acho que o ministério da agricultura e desenvolvimento rural tem que investir muito sobre tudo nas areas rural q é mas alarmante
  3. abel
    2010-04-16 22:58:09
    São noticias que deixam-me surpreendido e sem palavras ao observar imagens da nossa Angola sofredora, assim como estes dizers que tocam o coração de qualquer cidadão dentro ou fora do Pais
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