Já viste muita gente a entrar e a sair da Rádio Ecclésia, mas estás na emissora desde 1997, apesar dos abalos que já sofreu. O que é que está por detrás desta decisão? Na Ecclésia, faço o que eu gosto, não sofro nenhum tipo de discriminação por ser mulher e estar numa área dominada por homens.
Você se formou em jornalismo, no IMEL. Nunca vimos a Vanda de Carvalho como jornalista, mas sim a técnica de som há mais de uma década. Foi a melhor opção?
Quando entrei para o jornalismo foi no sentido de ser câmara man, nesse caso woman, porque sempre gostei de filmar festas de família, mas não consegui. Entrei para a Ecclésia na fase de aprendizagem em 1996, fiz locução, realização e programação, reportagem e técnica.
A área em que me destaquei foi a técnica, o que não quer dizer que não sei fazer uma reportagem ou edição, porque os editores editam os textos, os técnicos editam os sons e muita das vezes é o técnico que se apercebe do “sumo” do RM (registo magnético). Agora, por exemplo, sou realizadora do “Matria”, um programa com especial atenção às mulheres, estou a fazer uma formação a distância de realização. É para completar o que aprendi quando fiz IMEL e as noções que recebi na fase de formação da Écclesia. Melhor opção na altura diria que não foi, mas hoje posso dizer que foi a melhor escolha.
Como é que nasceu a paixão pela parte técnica, sobretudo num país como o nosso, onde até aqueles que nunca estudaram jornalismo e nem entendem do ‘metier’ apresentamse como jornalistas?
Numa altura em que o professor de locução diz “tens uma voz horrível”, o de programa “a tua animação adormece qualquer um que esteja em sintonia”, tinha que me refugiar em alguma área para permanecer nesse mundo do jornalismo. E foi a área técnica, a paixão não foi repentina mas foi crescendo ao ponto
de muitas vezes ficar horas e horas para completar a montagem de um spot. Respeito o trabalho de cada um sendo ou não jornalista, cada um tem que ter consciência e responsabilidade na área em que funciona.
Não optaste pela parte técnica para fugires da ribalta ou dos constrangimentos que os jornalistas têm de enfrentar todos os dias?
Nada disso. O técnico também enfrenta constrangimentos e em muitos casos piores que o do jornalista. Eu gosto de desafios e esse foi mais um que eu optei e estou a me sair bem.Não acham?
O que mais lhe atraiu no estúdio? Porquê?
A mesa misturadora, porque uma coisa dessa com mais de 10 pistas, mais de 100 botões, não acham que fascina qualquer um? E o mais divertido saber manusear.
Ser técnica exige conhecimento e adaptação com os equipamentos.
Tiveste uma formação específica ou os materiais não exigiam tanta perícia? Toda profissão exige formação. Eu tive várias formações em softwares de som (programas para se trabalhar o som). Nesse momento lido com mais de 10, e todos merecem uma certa perícia, principalmente os de montagem e emissão.
Como é que é a vida de uma técnica de som que tem de estar todos os dias às 5 horas numa cabine de som? Não tem havido muitas queixas em casa?
Já foi mais difícil, quando mudei para Viana. Mas acostumei-me com a distância e os engarrafamentos, tenho folga aos Domingos e então dedico esse dia aos meus. Eles já se acostumaram com o meu correcorre.
Esse percurso terá tido algumas gaffes, como em outras profissões. Lembra-se de algumas que não lhe saem da memória?
Tudo que é feito em directo tem sempre uma ou outra gaffe, e a maior parte do meu trabalho é feito em directo. O que me marca na rádio é a saída dos colegas, uma convivência de 2, 3 e mais anos transformadas em amizades e de repente ele vai embora. Isso me marca muito.
Como é que encara o peso da Rádio Ecclésia no mercado da comunicação?
É o tal! Um órgão de comunicação que chegou e mesmo com os vários embates está a sobreviver. Só aqueles a quem nos servimos que são os ouvintes é que podem dizer o peso que a Ecclésia tem, mas é muito bom receber elogios de toda a parte do mundo que estamos a fazer um bom trabalho.
Ainda vamos a tempo de ter a Vanda de Carvalho jornalista ou enterramos a hipótese para sempre?
Serei sempre jornalista porque é a minha formação, agora, por exemplo, ver a Vanda como repórter ou apresentadora, isso é que não.
O meu mundo é a técnica e ai me entrego de corpo e alma.