Apenas dois anos antes, o principal responsável das Nações Unidas em Belgrado, a quem eu fizera uma primeira visita de cortesia, ofereceu-me em retribuição amável e baseado no conhecimento que alguém lhe comunicara do meu interesse pela música, um bilhete para a ópera.
Como vim a descobrir, a ópera era um dos mais populares espectáculos na Sérvia, frequentada não tanto por apreciadores da elite social, envergando os seus formais trajes de grande cerimónia, como eu vira há muito tempo na ópera de Viena e mais recentemente em Zagreb, mas por toda a espécie de gente mais modesta, muitos estudantes e até crianças na companhia dos pais.
Quase que se não via uma gravata.
Eu ainda não me desfizera da minha, depois da visita ao escritório das Nações Unidas e fui dos primeiros a chegar e a instalar-me numa das coxias da primeira fila do primeiro balcão, feliz pela oferta de um lugar tão bem situado, e certamente bem caro (o Teatro Nacional tem a plateia e outros dois balcões a preços mais acessíveis). Como aguardava ansiosamente o início do Otelo, aproveitei para ir lendo o meu livro sobre os países que até há bem pouco haviam constituído a Jugoslávia.
Pouco a pouco a audiência foi-se completando tendo-se sentado à minha esquerda um par de jovens namorados que logo presumi fossem estudantes, ele um desses rapazes com uma antiquada melena romântica caída sobre a testa e ela um anjo celestial quase perfeito porque tinha tudo para o ser menos as asas. Ela sussurrou qualquer coisa ao ouvido do outro enquanto eu de soslaio notei o olhar do rapaz a fixar-me.
Foi então que ela se voltou para mim com os seus olhos inesquecíveis Onofre dos Santos poisados no meu livro. Falou-me sem me olhar, sempre com os olhos no livro, sorrindo, perguntando-me em inglês suficientemente compreensível, se o podia ver. Eu dar-lhe ia imediatamente tudo quanto ela me pedisse, mas foi tudo tão inesperado que nem articulei uma palavra ao passar-lhe o livro para as mãos.
A sua naturalidade, a comunhão dela com o meu livro, tornou-me parte de um inesperado e improvável convívio de amigos. Eu estava, é claro, suspenso de cada gesto dela, revirando as páginas, com um sorriso que me pareceu triste e sem arriscar olhar para mim como se adivinhasse algum perigo desse encontro ocular.
A campainha anunciando o início da história do mouro de Veneza abreviou aquele interlúdio. As luzes foram-se esbatendo na sala e ela restituiu-me o livro olhando-me pela primeira vez num agradecimento fugaz que eu procurei interceptar e conservar na minha própria retina como um pedaço de açúcar que se ia dissolvendo na melodia e nas vozes que jorravam do palco.
Á saída, no final do espetáculo, já Desdémona era morta e Otelo vítima cruel do seu ciúme e desvario, despedimo-nos com um simples aceno. Fiquei parado a olhar para os dois, afastando-se rapidamente e de braço dado, desaparecendo na movimentada Praça da República.
Da janela do meu quarto no Hotel Jugoslávia via o rio, o Danúbio na sua confluência com o Sava e pela primeira vez, depois de muito tempo senti-me irremediavelmente só e invejando o jovem de melena sobre a testa, a sua juventude e a sua encantadora companhia. Era natural que me sentisse assim mas não era plausível. Desde logo porque tinha uma missão e era nela que me devia concentrar, em Vukovar, também na margem do mesmo Danúbio, mas já em território croata.
Na manhã seguinte voltei, pois, a Vukovar, onde a missão de paz das Nações Unidas tinha o seu quartel,
sob a chefia do General Jacques Klein, o mesmo que alguns anos depois destronou John Taylor na Libéria. Vukovar ficava situada no extremo leste da Croácia e foi ali que obviamente se concentraram os sérvios que haviam sido escorraçados de outras partes do país em consequência de uma guerra generalizada de limpeza étnica. Como nestas guerras ninguém é inocente, os sérvios que chegavam fizeram o mesmo aos croatas que ali encontraram e que apenas tiveram tempo de fazer as malas e se pôr a caminho de Osijek, a capital política da região e onde a sua segurança podia ser garantida.
Quase instantaneamente, Vukovar, tradicionalmente uma cidade de maioria croata converteu-se numa pequena região de esmagadora maioria sérvia. Os sérvios que vinham desde o desmantelamento da República da Krajina, no norte da Croácia, a ajustar às realidades decrescentes o seu sonho de uma grande Sérvia, alimentavam por essa altura a intenção de alcançar por via eleitoral, o estabelecimento de um pequeno condado com a possível autonomia política do poder central de Zagreb. Essa era uma ideia que jamais entraria na cabeça do Presidente Franjo Tudjman que não perdia uma ocasião para recordar o título pelo qual também era conhecida a cidade de Vukovar: a cidade heroica.
Vukovar devia, aliás, o seu nome ao outro rio (o Vuka) que se abraçava ali ao Danúbio, tal como o Sava se enlaçava com ele em Belgrado. Vuk que lhe está na raiz é lobo em eslavo.
Terra de lobos que vindos da floresta poderiam bem ter conquistado a cidade esperando pelo inverno congelar o rio para o atravessar como um exército sobre as águas convertidas numa estrada de gelo.
Slobo Milosevic, outro lobo na história da cidade, atacou-a durante 87 dias fustigando-a também a partir da mesma margem do Danúbio, com mais de cem veículos e tanques dissimulados entre o arvoredo cinzento que tantas vezes contemplei ao fim da tarde do alto de uma das poucas moradias sobreviventes, convertida em pizzaria, um dos poisos favoritos do General Klein e do seu séquito.
A cidade em poder dos novos lobos ficou toda ela com as marcas dos bombardeamentos, reproduzindo uma imagem que só nos lembrávamos de ver em velhas fotografias da segunda guerra mundial. O balanço humano também foi trágico: mais de 2,000 mortos entre os defensores da cidade, 800 desaparecidos e 22,000 croatas forçados ao exílio.
Foi para superar esta situação que os acordos de paz previram a realização de eleições na região ao fim de um período de governação transitória das Nações Unidas.
O acordo foi assinado por sérvios e croatas, isto é, por Milosevich e Tudjman, mas não ficou dito nem claro que tipo de eleições seriam realizadas, quem seriam os eleitores e quais seriam as autoridades a eleger. Era evidente que se tratava de eleições locais, mas faltava determinar se seriam eleições exclusivamente para os actuais residentes da região sob administração do General Klein, se incluiria os croatas expulsos e que aguardavam o regresso da administração central à região e a volta às suas casas e, mais crucial ainda, se os sérvios que não eram residentes tradicionais de Vukovar deveriam ser inscritos nas listas de eleitores, o que punha em causa a maioria nos resultados eleitorais. Se os sérvios que vieram da Kraijina e de outras partes da Croácia fossem admitidos a votar nem era preciso fazer eleições para saber quem as ganhava. Tudjman e o seu Governo pretendiam com a sua lógica patriótica que os sérvios da Krajyna votassem nas eleições locais mas para eleger as autoridades daquela região croata da mesma forma que os croatas expulsos de Vukovar votariam pelas autoridades a eleger aí.
Essa era a minha missão, conciliar os sérvios e os croatas sobre todos e cada um desses pontos. As reuniões entre as duas delegações que eu tinha de organizar todas as semanas, ora na zona controlada pelas Nações Unidas (sérvios) ora em Osijek ou Zagreb (croatas), com tradução simultânea e na presença de empenhados observadores internacionais era uma actividade frenética e avassaladora.
Missão impossível? Claro que era uma missão quase impossível e por isso me escolheram para a executar, isto é, alguém perfeitamente dispensável na Organização. O General Klein ali estava para apanhar os cacos de toda aquela operação e os transformar numa coroa de louros, de qualquer modo. Se em todo o caso, eu conseguisse ter sucesso o triunfo do TA (Transitional Administrator) estaria garantido e a coroa de louros iria direitinha para a sua cabeça, não para a minha. Um dos observadores internacionais, oficial da marinha de guerra americana, seu amigo pessoal, já lhe tinha gabado a forma como eu conduzia as reuniões entre as duas delegações, levando-as a fazer pequenas concessões em cada sessão, de modo a transformar um desastre em perspectiva num sucesso potencial de efeitos inacreditáveis. Isto deixava o General na dúvida sobre se devia intervir imediatamente no processo ou deixar correr e apropriar-se no momento mais apropriado dos resultados dos meus esforços.
Querem saber o que é que eu achava de tudo isso? Que me estava nas tintas para o merecido reconhecimento que me seria ou não devido desde que pudesse voltar à ópera em Belgrado e a voltasse a encontrar.
Voltei de facto a Belgrado em fins de semanas sucessivas. O trajecto já me era tão familiar que o media no tempo e no espaço não pelos quilómetros e pelo relógio mas pelos falcões solitários que sabia estarem empoleirados numa árvore ou num cabo de eletricidade esperando pacientemente pelo seu almoço aparecer. Também me sentia como um desses predadores mas eu voava como um míssil em direcção à minha presuntiva vítima já afastados os escrúpulos da diferença de idades, da minha falta de merecimento de tanta beleza, sendo-me igualmente indiferente que ela já tivesse o coração ocupado pelo tal rapaz de melena na testa que na minha opinião tinha todo o tempo de vida que eu infelizmente não dispunha.
Para minha profunda decepção nunca a encontrei, apesar de perscrutar cada um dos ocupantes dos 279 lugares da plateia debruçado no mesmo primeiro balcão, olhando à volta e nada... .
Até que um domingo, já preparado para o regresso à base, atravessei a Ponte Brancova, vindo do Hotel Jugoslávia e parando a minha viatura na grande Avenida Rainha Alexandra (Bulevar Kralja Aleksandra) avistei o rapaz da melena na testa, cachecol vermelho a flutuar, caminhando de mãos nos bolsos com o passo de poeta distraído mesmo à minha frente.
Precipitei-me para ele, segurei-lhe o braço, eu devia parecer zangado, porque é que não têm ido à ópera, eu tenho vindo todos os sábados, em vão, absolutamente para nada...
O jovem sorriu, reconheceu-me logo, não percebia muito bem o que eu dizia em inglês, mas enfim lá compreendeu o que eu queria.
Ah, ele já não andava com a Sonya, ela era muito esquisita, sabe? Ele agora andava com a Paula que era ainda mais bonita e sexy, não a quer conhecer?
Aquilo irritou-me deveras. É claro que eu não queria conhecer a Paula nem nenhuma das amigas dele que começava a calcular deviam ser muitas. Apenas queria que ele trouxesse a Sonya ao Teatro Nacional no próximo sábado, seria levada à cena a imperdível Flauta Mágica, usando a mesma expressão do General Klein referindo-se a esta ópera, na nossa última conversa na Pizzaria.
No sábado seguinte cheguei tarde ao Hotel Jugoslávia, efectuei o meu registo e saí logo com destino ao centro de Belgrado vendo a cidade antiga do outro lado do rio, as suas pontes, entrando pela Brancova que me deixaria nas imediações do velho Hotel Moscovo, estacionando por ali e seguindo a pé para a Praça da República onde se encontrava o Teatro Nacional. Fiquei, todavia, desesperado porque o trânsito estava todo condicionado, não se andava, muita gente na rua e foi então que me apercebi da marcha gigantesca de protesto contra Milosevich que estava a decorrer animada pelos chefes de fila como Vuk Drascovich e outros.
Comecei a imaginar que ia mais uma vez perder o meu encontro por causa da maldita política. Afinal que diferença fazia Milosevich conservar-se no poder mais uns anos enquanto eu teria apenas alguns fins de semana até às minhas eleições locais em Vukovar? Parei o carro no primeiro lugar livre que encontrei e iniciei a minha corrida para o Teatro, ultrapassando os manifestantes que apitavam de forma ininterrupta e fazendo uma barulheira verdadeiramente infernal.
O apito tornara-se naquela altura o símbolo dos protestos, toda a gente tinha um ao pescoço ou escondido no bolso pronto a todo o momento para se pôr a silvar.
Cheguei ao Teatro Nacional transtornado pois já passava muito da hora para o começo da Flauta Mágica... não queria acreditar na minha pouca sorte, mas constatei com alguma surpresa que o Teatro estava a despejar de gente que se acumulava no Hall de Entrada. O espetáculo não se realizaria, os artistas tinham vindo ao palco e explicado que naquele dia era seu dever solidarizarem-se com os protestos que se aproximavam da Praça da República onde um palanque estava já montado, com holofotes e altifalantes... a Flauta Mágica substituída pelo apito da revolta sérvia. Eu ia proferir uma palavra que exprimisse o meu sentimento perante esta radical mudança de cenário, de script e de intérpretes, quando a vi, mesmo à minha frente, os seus olhos azuis, o seu sorriso tímido, as suas mãos incapazes de se largarem, de se retorcerem, de me acenarem... mas era evidente que ela estava ali por minha causa e à minha espera.
Por ela estava decidido a não voltar a Vukovar, os sérvios e os croatas eu estava cheio deles, que ficassem todos para o General Klein, eu tinha toda a margem do rio Danúbio e do Sava para percorrer com ela de mãos dadas, entrar no Museu de Arte Contemporânea mesmo ao lado do Hotel Jugoslávia, ver com ela algumas das 35 mil obras ali expostas, incluindo obras de Andy Warhol, Joan Miró, Ivan Mestrovic que eu já tinha visitado sozinho, desolado, pensando como seria diferente ver toda essa beleza com ela ao meu lado...
Fizemos isso tudo, ela quase não dizia nada, o seu inglês, ela me explicou, era o que aprendia a ver filmes a que assistia sempre que podia. Fomos ver o Paciente Inglês...
era o ano da estreia, não percebi logo que filme era esse que ela queria ver... uma paixão inglesa (English Passion)... era o que dava a falta de treino recíproco no uso da única língua em que nos podíamos entender.
Paixão pareceu-me ser um bom título mas o filme, embora maravilhoso revelou-se triste e melodramático e a custo consegui sair antes do fim já conhecido porque o filme havia começado exactamente por aí...
Fomos para o Parque de Kalemegdan, entramos num antigo templo ortodoxo repleto de ícones, a minha fé exaltada pelo brilho dos lampadários, o cheiro a incenso, levei os lábios ao ícone que estava depositado sobre um pequeno púlpito ao fim do corredor e depois transferi a minha devoção para a Sonya e beijei-a a ela com o mais profundo sentimento de adoração. Ela riu sonoramente, não repreendeu a minha profanação, não sei ainda hoje, se naquele exacto momento ela gostou de mim.
Jantámos no Keops, um restaurante sobre o rio. Eu desenvolvi um gosto imenso pela música sérvia, os seus sons metálicos, arrebatados, como Emir Kusturitza nos dá uma ideia bastante aproximada, que levantava os homens da mesa depois de bem bebidos e fazia as mulheres dançar em cima da mesa. Ali no entanto a música era uma conhecida música moderna numa interpretação de Tina Turner, por sinal uma das hóspedes mais famosas do Hotel Jugoslávia. Ela devia ter almoçado ou jantado ali naquela mesa ou numa qualquer virada para o rio.
Eu gosto muito desta música, gosto muito de Tina Turner... esta chama-se “open arms”, eu também estou de braços abertos, hoje...
Arrastei-a para o pouco espaço entre as mesas e o corrimão do pequeno convés – que fazia aquele restaurante parecer um barco que se afastava navegando em sonhos, abracei-a, dei duas voltas como se nos procurássemos equilibrar em cima de uma onda, enquanto Sonya se libertava de mim e de braços abertos repetia o refrão “ask me no questions, I will tell you no lies...” Foi o meu último fim de semana em Belgrado. O processo eleitoral em Vukovar onde voltei a ficar mergulhado estava caótico e eu fui impedido por ordens superiores de voltar à ópera. Ainda por cima dizia-se baixinho mas para todos ouvirem que eu dificilmente poderia ser considerado como um oficial isento e de confiança com uma atracção tão acentuada pela capital inimiga. O Presidente Tudjman chegou a insinuar que eu era um espião sérvio.
Afinal tudo se ia resolver a contento de ambas as partes. Não duvidem de que o consegui. Escusado será dizer quem ficou com os louros todos. A verdade é que nada disso me importava. Agora que seguia numa viatura das Nações Unidas a caminho de Zagreb para apanhar o meu avião de regresso a casa. As árvores cinzentas sucediam-se uma ás outras com a velocidade do carro conduzido por um dos nossos motoristas militares que respeitava o meu silêncio. Abri a minha pasta para procurar os meus óculos escuros. Queria escurecer e esquecer.
Veio-me à mão o meu livro sobre a antiga Jugoslávia em que nunca mais voltara a pegar desde aquela primeira noite na ópera. Abri-o e folheei-o ao acaso. Dei então com um bilhete escrito à mão numa letra feminina e com um inglês esforçado: Caro Senhor, vim aqui para o conhecer. Deixo o meu telefone e endereço. Moro num Lar de Estudantes onde partilho um pequeno quarto com uma amiga também refugiada da Bósnia como eu. Foi ela que comprou o seu bilhete para esta noite e comprou dois lugares ao seu lado para mim e para o Radovan. O que eu recebo de mesada do meu pai não daria para tanto. Ela disse-me que o conheceu no escritório das Nações Unidas e que o senhor seria a pessoa ideal para me ajudar a voltar para Serajevo.
Sua, Sonya Luboyevich.