
Tudo começa quando o rapaz sente o desejo de se casar e dá a conhecer aos seus pais; esta fase, geralmente, pode (ou pelo menos podia) acontecer de duas formas: se ele ainda não tiver companheira, cabe aos pais arranjar-lhe uma que, normalmente é de uma família conhecida e que tenha boa reputação; se ele já tiver uma mulher pretendida, como actualmente acontece, ele apresenta-a aos seus pais, e estes por sua vez vão avaliando o comportamento da rapariga pretendida afim de aprová-lo ou não.
(Actualmente esta é a opção mais comum, sobretudo nas zonas urbanas, pois aqui os jovens já gozam da liberdade de escolherem os seus próprios cônjuges.A primeira, que começa a entrar em desuso, ainda é a mais comum nas zonas rurais).
Depois dessa etapa de aprovação da rapariga, a família do rapaz escreve a carta de pedido. Como o próprio nome indica, é uma carta que serve para pedir uma rapariga em casamento ao seu pai ou ao representante da mesma. Esta carta, que é escrita pelo pai (ou representante) do rapaz, explica no seu conteúdo as intenções matrimoniais do seu filho e é dirigida ao pai da rapariga pretendida. Se ambas famílias forem Bakongo, a carta é escrita em Kikongo, isto porque velam pela preservação da cultura. Cabe a rapariga receber a carta e entregá-la ao seu pai.
Na era pré-colonial, ou seja, antes do colonialismo, o pai do noivo ou um dos seus tios maternos desempenhava o “papel da carta de pedido”.
Todo o processo era acordado e decidido entre os familiares dos jovens, estes últimos nada podiam fazer em seu favor, senão aceitarem a decisão dos seus familiares e consequentemente a realização do N’kama longo (alembamento). Pe. Altuna dizia que para os africanos (naquela altura, e actualmente nalgumas regiões de África) o “amor romântico” não era essencial para a realização do casamento, diz ainda que esse sentimento aparecia com a convivência ao longo dos anos e com o nascimento dos filhos.
Com o período colonial e a aprendizagem da escrita, optou-se pelo processo de “correspondência pelo envio de cartas” sendo assim menos frequente o contacto físico entre as distintas famílias a não ser que tenha sido previamente combinado.
Naquela altura (como ainda se vê em algumas aldeias da cidade do Uíje), a carta de pedido normalmente era escrita à mão numa folha de papel qualquer, isto não faz(ia) qualquer diferença desde que a carta seguisse as normas de uma carta de pedido. O inacreditável é que essa carta era escrita em kikongo e não em português (ao meu entender, os Bakongo aproveitaram o hostil ensinamento colonial em favor da preservação da sua cultura.Com o passar do tempo e a introdução da tecnologia, as cartas à mão e passaram a ser dactilografadas.
Actualmente a carta de pedido pode ser encontrada em vários modelos; por exemplo, aqui na cidade de Luanda é comum ver-se um modelo de carta de pedido que já contém o texto em português e apenas precisa de ser completado com alguns dados pessoais.
A carta de pedido, normalmente, é entregue dentro de um envelope que é embrulhado num lenço de tecido branco e fechado com um pequeno alfinete que une as quatro pontas do lenço sobre a carta. Esta deve conter um certo valor monetário (segundo algumas entrevistas, o valor monetário contido na carta de pedido varia de acordo com a região, a idade da mulher, ou ainda pelo facto dela ter ou não filho(s) ou nunca ter sido casada.
Assim, o valor contido nesta carta pode variar desde os 1.500kz, como acontece no município do Cangola (província do Uíje) aos 250 USD (como acontece no grupo Bakongo aqui em Luanda), essa carta é acompanhada de bebidas industrializadas ou de fabrico caseiro; na cidade de Luanda, segundo o modelo moderno, dá-se uma grade de cerveja, uma grade de gasosa e uma garrafa de “whisky” (a marca e a qualidade deste depende do próprio noivo, da sua família, e da imagem que querem transmitir ao futuro sogro, portanto quanto mais cara for maior é o “peso” (respeito que se dá ao noivo e a sua família); na província do Uíje já existem localidades que seguem o “modelo moderno”, mas há ainda outras que continuam a pedir bebidas de fabrico caseiro tal como um garrafão de “nsamba” ou maruvo e um garrafão de nbanvo (bebida forte); outros também pedem garrafão de vinho.
Após ter recebido e lido a carta, o pai da rapariga (ou o responsável por ela), chama-a para uma conversa particular onde ele procurará saber algumas informações básicas sobre o seu pretendente tais como: a idade, ocupação profissional, origem de proveniência, etc. Assim, o pai da rapariga decide marcar um encontro com os tios da rapariga (seus irmãos e os irmãos da mãe da rapariga) onde irá apresentar-lhes a carta de pedido, o valor monetário e as bebidas que a acompanham.
Se a família decidir passar para o próximo passo cabe ao pai da rapariga partilhar as bebidas com eles, excepto a garrafa de “whisky” e o valor monetário que segundo a tradição é um direito exclusivo dele; pode dar-se o caso dele partilhar este dinheiro com o tio materno. Caso não aceitem o pretendente, todos os bens serão devolvidos.