O MPLA ter-se-á visto forçado a rever alguns passos da sua programação. Se a grande demonstração de força estava para ser feita com o IV Congresso Extraordinário marcado para Abril, o momento em que o partido aceleraria ao fundo no caminho para as eleições de 2012, os últimos acontecimentos mostram que os camaradas devem ter decidido antecipar a aceleração.
As marchas realizadas pelo país, no dia 5 de Março, em nome da paz e em apoio ao Presidente da República, se tinham como objectivo primeiro a anulação de uma possível manifestação marcada para o dia 7, acabaram revelar-se num verdadeiro acto político que em última análise tomou forma de piscar de olho ao eleitorado.
A mobilização foi quase espontânea, em praticamente três dias apenas, embora em política as coisas possam sempre ter outro rosto, diferente do que nos é mostrado.
Esta mobilização, assim, “do nada”, mostra a grande adesão popular ao partido e a união dos seus militantes e, sobretudo, a sua concordância com o rumo que o partido no poder tem dado ao país.
Alguns dias antes o MPLA vinha de algumas batalhas. Camalata Numa, o Secretário geral da UNITA resolvera aparecer e criar factos políticos no Huambo, submetera-se até a uma greve de fome. Para alguns analistas Numa tinha cometido um erro, ao envolver-se e tentar politizar um caso de polícia, mas resposta do MPLA, pela voz do seu porta-voz, também pareceu arrogante, com promessas de inquérito para suspensão de Numa na Assembleia Nacional. Não teria percebido bem, diziam se Rui Falcão Pinto de Andrade falava em nome do seu partido, se em nome do seu grupo parlamentar.
A UNITA parecia pretender a iniciativa do jogo político, Isaías Samakuva, o seu líder andava pelo Leste do País, lundas e Moxico, em acções de campo que prendiam a atenção de muita gente, ao mesmo tempo falava-se de actos de intolerância política que tinham vitimado adeptos do galo negro. Não era uma boa fama com que chegar a um congresso. Venha o que vier em Abril, quando acontecer o congresso já o MPLA estará na rua em operações de charme. O momento económico é propício, com as agências de rating a darem boa nota ao país, e com os relatórios internacionais a dizerem que Angola tem estado no bom caminho. O Executivo aprovou o crédito para a comercialização de produtos do campo e vai começar a entregar as casas construídas nas novas centralidades. É uma máquina em movimento que a oposição terá muitas dificuldades para travar.
Marchou pela paz e presidiu o acto político que se seguiu à caminhada.
A explicação para a detenção de jornalistas e de supostos manifestantes no local e hora marcados para a manifestação não foi a mais feliz.
O secretário-geral do MPLA foi das primeiras figuras a reagir à mensagem dos sms e e-mails que circulavam a convocar o povo para uma “nova revolução” angolana. O seu pronunciamento foi tido como demasiado duro. Mas lançou o mote para que muitos outros dirigentes do MPLA falassem da necessidade da defesa da paz. Seja como for, Dino Matross fica ligado à ideia do exagero da resposta do MPLA defendida por alguns analistas. Quem o apoia diz que para preservar a paz não pode haver meias medidas.
Conseguiu evitar que o seu partido fosse colado, pelo MPLA, à convocatória da manifestação e à apetência por mergulhar o país numa nova guerra. Fez um discurso em que atacou o Presidente da República e, desta vez, fez-se de vítima. Dizendo que o MPLA pretende eliminar os dirigentes da UNITA Não marchou pela paz nem fez qualquer comunicação na ocasião.
O secretário-geral da UNITA já surgiu nas notícias como vitima de um atentado, já apareceu como estando em greve de fome e como pretendendo exigir a libertação de um parente seu detido por agressão, procurando transformar o caso num assunto político.