Eleições gerais a celebrar num tempo em que o mundo anda revolto, com ondas de contestação que se desencadeiam até pela acção meteórica de um toque de teclas de computador, rodeados por dias incertos de ideologias que se barricam mas também se renegam em voláteis minutos, criam inevitavelmente um cenário específico e de todo em todo “extraordinário”, ainda que se pense que a palavra queira apenas significar a realização de um congresso fora do ciclo do calendário.
Esta sexta-feira e no dia de amanhã, sábado 30 de Abril, os mais de dois mil militantes que se reúnem em Luanda no IV Congresso Extraordinário do MPLA sabem que o encontro, ainda que anunciado e amplamente explicado como uma quase rotina de início de caminhada, de olho no voto popular, pode muito bem vir a assumir contornos à partida distantes do espírito dos papéis estudados e analisados, até porque em política nem sempre o que parece é.
O conclave ficará marcado, a ferrete, pelos ululares que ecoam para lá do claustro do Centro de Conferências de Belas, perante os quais não há como se manter indiferente, e as consequências dessa realidade de sintomas acentuados com os ventos do Magrebe terão que traduzir-se, diga-se isso explicitamente no congresso ou não, em mudanças de rumo.
Parece não haver dúvidas de que a moção de estratégia gizada pelo líder do partido, José Eduardo dos Santos, que é também o Chefe de Estado – que já se disse publicamente sofrerá alterações em muitos dos seus pontos programáticos – acabará por ser o núcleo congregador dos debates mais expressivos, já que faz, por assim dizer, o papel de farol do conjunto daquela força política.
Ou seja, uma moção de estratégia funcional, exequível e, sobretudo, capaz de atrair consensos alargados não apenas no interior do MPLA mas, sobretudo, fora dele, é uma garantia à priori de tempos de luta melhores, tempos de luta melhores que querem dizer uma boa governação para a renovação da confiança dos eleitores em 2012.
Todos no MPLA, do topo à base, têm consciência plena de que o tempo encurtou bruscamente.
Portanto, tudo o que puder ser feito com capacidade para influenciar positivamente decisões que à boca da urna apenas se materializam, até ao dia em que os cidadãos voltarem a gozar do seu direito constitucional de escolher quem os deve representar nas estruturas de topo do poder político e legislativo, é para ser feito e sem delongas.
Os tempos pós-moção Fica fácil de intuir que não tendo este congresso prerrogativas estatutárias para modificar as estruturas com que o líder do partido deverá contar no futuro imediato, o cenário de ajustes cirúrgicos tanto no Bureau Político como no seu Secretariado faz todo o sentido.
Que ninguém se surpreenda, por isso, se imediatamente a seguir ao evento que vai ocupar o MPLA este fim-de-semana surgirem reuniões do Comité Central para mexidas no Bureau Político e, na sequência, outra deste órgão para introduzir mudanças no Secretariado.
As probabilidades anunciam-se na lógica que permite a qualquer estudioso do fenómeno político interrogar-se se haverá condições de, uma vez reconhecida em congresso a necessidade de mudanças de rumo nalguns aspectos da estratégia de governação, manter as mesmíssimas pedras do xadrez. Modificar, em política, significa reconhecer que alguma coisa falhou, seja por eleição de metas demasiado ambiciosas, por dificuldades evidentes no funcionamento da máquina administrativa ou, como aconteceu com o MPLA numa combinação cruel de factores, também por constrangimentos exógenos ligados à crise financeira que sacudiu a economia mundial. Não
o dizemos nós, por sinal, mas são constatações que tiveram ampla divulgação nos dias que antecederam o congresso, em voz do Secretário para a Informação, Rui Falcão Pinto de Andrade.
Fontes que se resguardaram num secretismo banhado pela disciplina partidária, ontem noite adiantada, deixaram escapar a O PAÍS que não se pode olhar para a ideia de alterações nos órgãos que executam, a nível interno, a política do MPLA, como “simples elucubrações” de jornalistas.
“Faz todo o sentido que depois de terminado o congresso extraordinário aconteça uma reunião do Comité Central para ajustar o Bureau Político, não tanto porque estejam a caminho eleições mas porque vai ser necessário fazer política à luz de uma nova visão do líder”, confidenciou a O PAÍS uma fonte. Foi essa mesma a origem da informação sobre outro facto mais do que provável, a realização de uma sessão do Bureau Político para alterar o seu Secretariado, “para que dois renovados órgãos executivos estejam aptos a implementar a moção de estratégia alterada”.
De nomes nada se disse, contentando-se apenas O PAÍS com a quase certeza avançada pela fonte de que pelo menos “quatro membros do CC subirão para o Bureau Político” rendendo igual número de integrantes deste órgão. Espicaçando até ao limite a curiosidade (natural) do jornalista, o interlocutor deste semanário disse apenas que o MPLA vai manter a sua política de sempre, se tiver mesmo de concretizar estas mexidas no xadrez, que consiste em injectar sangue novo mas preservando sempre a ligação com o percurso histórico. “Vamos ter gente nova a entrar e a sair, mas nem o Bureau Político nem o Secretariado serão esvaziados de alguns dos seus ‘históricos’ e emblemáticos camaradas”, disse, em fim de conversa.