Nas ruas da cidade de Benguela, à medida que o tempo passa, não se fala de outra coisa senão das eleições gerais de Agosto próximo.
Uma das franjas da população local mais interessada no referido processo é a juventude, sedenta de melhores condições de vida. Uma condição que vai ser exigida aos partidos concorrentes, antes de decidirem exactamente em quem depositar a confiança.
Em causa está a falta de emprego, melhorias no sistema de saúde, habitação, reabilitação de infra-estruturas, sobretudo na periferia da cidade capital e noutros municípios.
Estas são algumas das preocupações avançadas pelo jovem Tony (nome fictício) em conversa com este jornal. Com o ensino médio concluído, ele e outros companheiros tentaram concorrer a uma vaga para professores num concurso público realizado recentemente no município da Baía Farta, mas como havia apenas 20 lugares para mais de dois mil concorrentes, preferiram desistir.
“Já sei em quem vou votar, mas espero ouvir o que os outros partidos pensam para os próximos quatro anos”, explicou.
Não obstante isso, os rapazes não desarmam. Acreditam em dias melhores e acham que o resultado das próximas eleições é o caminho que lhes poderá proporcionar isso.
No terreno quase todos cantam vitória, incluindo a novel CASA-CE, uma coligação de partidos liderada pelo antigo líder parlamentar da UNITA, Abel Chivukukuvu.
Mas a realidade é outra nas terras de Ombaka. A UNITA, então liderada por Jonas Savimbi, venceu o MPLA, seu principal adversário, nas primeiras eleições legislativas realizadas no país, em 1992, elegendo quatro dos cinco deputados previstos para o círculo eleitoral benguelense.
Aos “camaradas” coube um único deputado, ao passo que os restantes concorrentes, como o PRS, PSD, FNLA, PRD, AD-Coligação e PLD, que disputaram o referido pleito, tiveram resultados ainda mais desastrosos.
O MPLA viria, contudo, a redimirse do desaire chamando a si os cinco representantes de Benguela nas eleições legislativas de 2008. Para tal, até contaram a partir do bairro da Canata, no Lobito, com o apoio do ex-secretário para a Informação da UNITA e antigo ministro do Turismo, Jorge Valentim, que apelou os benguelenses a votarem no MPLA “para o bem de Angola e afastarem-se dos que sempre adiaram o desenvolvimento”.
Para 2012, o partido dos camaradas diz estar a trabalhar para conseguir um resultado semelhante ao de 2008, segundo apurámos junto de fontes desta agremiação política.
“Se for 5-0 será muito bom”, comentou Zacarias Davoca, responsável do departamento de Informação e Propaganda do MPLA em Benguela, quando questionado sobre o possível desfecho nas urnas em Agosto.
Para atingir tal proeza, os camaradas começaram por sensibilizar os seus militantes para o processo de registo eleitoral, onde cerca de 400 mil membros seus, amigos e simpatizantes, marcaram presença.
“Os dados finais dizem-nos que quase 90 % destes militantes concretizaram este registo com a actualização. Alguns não terão conseguido fazer por causa da dinâmica da deslocação da população de uma zona para outra”, explicou Zacarias Davoca, realçando que “muitas pessoas vieram de outras províncias e com o ambiente de paz e estabilidade que se vive terão regressado às suas zonas de origem, sem terem comunicado antecipadamente sobre esta movimentação”.
Agora, o partido vencedor das últimas eleições gerais está a trabalhar para apurar onde estão os seus militantes, assim como o que cada um deles faz actualmente. Esse trabalho, Um ângulo da velha cidade de Ombaka Zacarias Davoca, responsável para a Informação do MPLA em Benguela DANIEL MIGUEL segundo Zacarias Davoca, será desenvolvido até ao dia D, altura em que os militantes e não só devem ser “arrastados” até às cabines de voto.
“Apesar do respeito que temos para com os nossos adversários, nós assumimos que somos uma equipa que vai para o campo e entra para ganhar”, reforçou o responsável da informação, alertando que nesta altura estão “a trabalhar com os camponeses e operários sobre o posicionamento do partido dentro do boletim de voto, para que votem correctamente onde está o símbolo do partido”.
Esse trabalho tem sido desenvolvido em toda a extensão da província, onde os “camaradas” estão representados a nível dos municípios, comunas, bairros e até povoações, onde estão a ser transmitidas todas as orientações e mensagens provenientes das estruturas superiores do partido.
Os camaradas acreditam que poderão chegar à vitória por causa do sucesso que tiveram com a implementação das políticas gizadas depois do pleito realizado há quatro anos. O responsável para a Informação e Propaganda exemplifica, por exemplo, o êxito através do programa “Água para Todos” que se concretizou em quase todas as localidades que compõem a província de Benguela.
Zacarias Davoca evocou ainda o aumento da rede escolar, assim como a melhoria nos serviços de saneamento básico e da imagem dos municípios, onde foram até construídos muitos jardins.
Entre as grandes realizações, o dirigente do partido liderado por José Eduardo dos Santos anunciou também a construção de várias unidades sanitárias e estradas.
Embora reconheça algum défice no fornecimento de energia eléctrica, o político salientou que está para breve a resolução deste problema com a entrada em funcionamento da barragem hidroeléctrica de Lomaum, cuja recuperação se encontra em fase final.
“Somos honestos em dizer que as necessidades da população são cada vez mais crescentes. Têm razão aqueles que reclamam a melhoria das suas vidas”, reconheceu Davoca, avançando, posteriormente, que “actualmente nota-se muitas melhorias na vida da população de Benguela e não só”.
Os “camaradas” não acreditam noutro desfecho que não seja a favor do seu partido, mesmo sabendo que em 1992 os maninhos estiveram em vantagem. Nem mesmo a demonstração de força efectuada recentemente pelo partido liderado por Isaías Samakuva com a realização de uma manifestação na cidade de Benguela, onde estes garantem ter mobilizado milhares de pessoas, em Maio. “A manifestação foi um exercício de marketing. Sem rodeios devo dizer que quando a UNITA faz manifestação traz gente de outras províncias e nós quando fizemos as nossas actividades nem sequer gente dos municípios vamos buscar”, defendeu-se o responsável do MPLA. “Isso muitas das vezes engana as pessoas, mas temos todas as condições criadas, porque temos de estar a oferecer as pessoas o conhecimento sobre o que é a história recente do nosso país e o que é MPLA nas várias fases do nosso processo revolucionário até à presente data”.
O secretário provincial adjunto da UNITA, Júlio Kanambi considera que o seu partido está em vantagem em relação às demais formações políticas concorrentes em Benguela.
Apesar de não avançar o número exacto de militantes que possuem no território, o responsável garante que o seu partido tem recebido diariamente dezenas de cidadãos que se demarcam de outros partidos, incluindo do rival MPLA. Desde Janeiro até à presente data diz terem recebido cerca de 600 elementos, muitos dos quais se apresentaram com o material de propaganda das forças de onde desertaram. Terá sido com o contributo destes que os maninhos se gabam de ter juntado perto de 60 mil pessoas na manifestação realizada há um mês nas terras das acácias rubras.
“Não havendo fraudes, naturalmente a UNITA está com uma grande vantagem”, disse Júlio Kanambi.
Para melhor espalharem a sua mensagem, os partidários de Samakuva dividiram Benguela em sete regiões eleitorais e criou núcleos em algumas universidades sedeadas nesta província.
É através das regiões e dos núcleos que o partido fundado por Jonas Savimbi prega as suas linhas programáticas que constam do seu projecto de sociedade a ser apresentada aos angolanos oficialmente nos próximos dias.
“Temos propostas de governação a todos os níveis. Queremos garantir qualidade com um ensino gratuito até à 13ª classe. Saúde gratuita, assistência médica e medicamentosa. A UNITA propõe ainda um salário condigno para se evitar o roubo e as gasosas”, garantiu o secretário-adjunto, revelando que “o nível de desgovernação do MPLA criou frustração no povo.
Recentemente realizaram uma manifestação de apoio ao seu candidato e trouxeram crianças que vieram depois de muita intimidação”.
Júlio Kanambi disse ainda que neste momento têm condições para realizarem uma campanha razoável, como resultado das dificuldades que lhes são impostas pelos adversários políticos. Em época eleitoral, à semelhança do que aconteceu noutras localidades, o responsável da UNITA em Benguela também se queixa de supostos actos de intolerância política de que têm sido vítimas dos seus militantes.
Kanambi referiu, durante a entrevista, que um dos seus militantes tinha visto a casa cercada por supostos elementos da Polícia Nacional um dia antes do encontro com O PAÍS.
De igual modo, o secretário-adjunto contou que desde 2002, ano em que foi assinado o acordo de paz no país, até agora já registaram o assassinato de 32 militantes seus.
“Mas, nem com isso os militantes pensam arredar o pé dos ideais que nós defendemos”, salientou, rematando que “muitos preferem fazê-lo até mesmo na clandestinidade”.
Terceira força política no país, o Partido da Renovação Social (PRS) ainda não conseguiu eleger um único deputado no círculo provincial de Benguela, um reduto dos “camaradas” e dos “maninhos”.
O seu secretário provincial em Benguela, Rui Malopa Miguel, acredita que à terceira poderá ser de vez, depois dos desaires observados em 1992 e 2008.
“Em Benguela o trabalho tem sido feito à semelhança do que acontece noutras parcelas do país. É uma praça onde vamos procurar destaque e temos estado a trabalhar para marcar o nosso espaço”, salientou o secretário provincial.
Rui Malopa tem esperança de que em Agosto vão eleger no mínimo um deputado, porque o seu partido conseguiu representação em todas as esferas da sociedade benguelense, mas tudo vai depender do esforço a ser empreendido nestes momentos finais. Mas Rui Miguel diz mesmo que estão a trabalhar para conquistar os cinco lugares em disputa.
“A mensagem do PRS tem sustentação nos aspectos de carácter social.
Temos estado preocupado com o rumo que o país está a tomar, fruto da colonização e das políticas do monopartidarismo”, explicou.
O representante dos renovadoressociais diz que a sua formação pretende uma melhor educação, assim como a melhoria das infra-estruturas deste sector porque “em Benguela ainda existem crianças a estudarem debaixo de árvores”.
Atirou-se também contra as dificuldades no domínio da saúde, porque, acredita, que a construção de infra-estruturas não tem sido acompanhada de uma política de recursos humanos.
“Só agora o Governo quer deixar obras feitas, mas não têm qualidade porque dois meses depois voltam a merecer intervenção. Um dos exemplos é a escola Luís Gomes Sambo, está em reabilitação todos os anos.
O Hospital Municipal de Benguela, reabilitado recentemente, também já mereceu outras obras de restauro”.
Insistente, o responsável da formação de Eduardo Kuangana disse que o país só vai atingir o desenvolvimento quando as províncias tiverem autonomia financeira e administrativa.
Algo que segundo ele só seria possível através de um regime federal, o cavalo de batalha do PRS.
“A política toda está nas mãos do chefe do Executivo. Será que os quadros do poder executivo não têm capacidade para administrar e gerir os recursos? Por isso, pensamos num regime federal, que é a solução para o equilíbrio no desenvolvimento de Angola”, acredita Rui Miguel.
“Os cinco milhões de dólares que os municípios recebem foi graças à intervenção do PRS. Agora fala-se de serviços municipalizados e já existem recursos para os hospitais. Também são ganhos do PRS”, acrescentou.
Chama-se Florêncio Kanjamba. É o representante da Convergência Ampla de Salvação de Angola (CASA-CE) em Benguela, uma praça que o próprio considera como muito crítica.
Mesmo assim acredita que a sua formação vai conseguir três ou quatro deputados, apesar de contarem com adversários como o MPLA,UNITA, PRS e outros.
“As pessoas só conhecem uma única realidade desde 1975. Deus não esqueceu Angola porque a CASACE vai prestar uma melhor organização”, disse Florêncio Kanjamba, lembrando que “nós não sentimos que estamos a combater outros.
Eram fortes em 2008, agora é a vez da CASA-CE”. Essa coligação diz ter medido a pulsação do eleitorado durante a visita que o seu líder, Abel Chikukuvuku, realizou àquela província. O responsável diz mesmo que “a cidade parou” e daí em diante foi só somar apoiantes.
Durante uma semana conseguiram 700 assinaturas e dias depois mais de 1.650. “As pessoas continuam a vir.
A CASA-CE deixa transparecer que é uma organização nova, mas congrega pessoas que militaram há décadas noutras forças políticas”, revelou Florêncio Kanjamba.
Segundo o responsável local, as pessoas anseiam “coisas novas”, por isso encontram na sua coligação a solução para algumas necessidades.
Kanjamba explicou ainda que estão a apresentar o Programa de Governo da CASA-Ce aos centros académicos e não só para ser enriquecido. “Queremos governar Angola com os angolanos”, avançou.
Disse ainda que, caso a sua formação ganhe, vão atribuir um subsídio de desemprego aos que não trabalham e pensam também acabar com a cobrança anárquica que se assiste em muitos mercados periféricos. “Não se conhece o destino que é dado ao dinheiro cobrado há 37 anos”, realçou o secretário provincial executivo, acrescentando que “vão implementar um sistema de educação para todos, onde os pais serão obrigados a levar os filhos à escola. O Estado andará atrás das pessoas para que elas estudem”.
A formação de Chivukuvuku diz ser a favor da meritocracia e pensa atribuir bolsas de estudo aos melhores alunos, assim como implementar um sistema de saúde onde os cidadãos terão assistência médica e medicamentosa a partir das suas aldeias ou povoações.
Para fazer passar as suas ideias, a CASA-CE em Benguela adoptou a mobilização porta-a-porta. Foram criadas brigadas com este fim, cuja missão será levar aos eleitores a mensagem da coligação.
Localizada no centro da cidade de Ombaka, a sede da única representação da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) pertence aos seguidores de Ngola Kabangu, apesar de o Tribunal Constitucional ter decidido a favor de Lucas Benguy Ngonda.
À entrada pode-se observar as fotos do ainda deputado e do malogrado líder fundador desta formação, Álvaro Holden Roberto.
Nenhum dos presentes, entre os quais o próprio secretário provincial, se recusou a prestar qualquer informação sobre a situação que atravessa este partido.
“A missão agora é salvar o partido, porque acreditamos que Lucas Ngonda não vai conseguir os 0, 5 por cento e isso será a morte do partido”, contou um dos políticos.
Uma reunião que teria lugar dias antes deveria analisar o sentido de voto dos militantes, simpatizantes e amigos da formação dos “irmãos”. A ideia, segundo apurámos, será votar no partido para que não seja extinto, segundo apurámos, mesmo discordando da liderança que os levará ao pleito de Agosto.
“Ao contrário do que Ngonda fez em 2008 quando ele solicitou aos seus seguidores que não votassem na FNLA, há uma corrente do partido que pensa o contrário”, disse a fonte que encontrámos na sede.
Além de Lucas Ngonda, o antigo representante da FNLA em Benguela, David Mavinga, também alinhara no mesmo diapasão, alertando os militantes naquela província que votassem num outro partido em 2008.
Os partidários de Kabangu desconhecem a existência de qualquer representante de Ngonda, apesar das informações de que existe um. “Mas é pouco conhecido na província, dizse que trabalha na sua própria residência”, garantiu a fonte.
O PAÍS ainda foi ao encalço do suposto representante do actual líder da FNLA, mas os esforços foram inglórios.
“Vamos trabalhar assim, até que um dia o Supremo nos diga alguma coisa ou encerra a sede”, disse o militante, rematando que “para nós o líder ainda é o Kabangu. É ele que lidera a bancada parlamentar e conseguiu o resultado que o partido teve nas eleições passadas”.