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Comunicação social

RNA produz mais um ministro

Pela primeira vez na história do país, a Comunicação Social é assumida por uma mulher.

Com o advento da Terceira República, Carolina Cerqueira que se notabilizou na Rádio Nacional de Angola é chamada a conduzir os destinos deste departamento governamental, em substituição de Manuel António Rabelais.

A chegada de Carolina Cerqueira ao edifício cor-de-rosa da Avenida dos Combatentes tem um quê de curiosidades e de coincidências, na medida em que é a primeira mulher a atingir o posto ministerial no sector da Comunicação Social e, mais do que isso, é mais um quadro forjado na escola da Rádio Nacional de Angola a atingir tal cadeirão.

Com as excepções de Boaventura Cardoso e de Hendrik Vaal Neto, que não tiveram experiência e muito menos terão sentido o calor de uma redacção de um órgão de comunicação social, os restantes ministros que passaram pelo edifício dos Combatentes saíram da RNA, nomeadamente Rui Carvalho e Manuel Rabelais.

Ao todo, a Rádio Nacional de Angola já produziu três ministros da Comunicação Social, o que confirma a tese segundo a qual os jornalistas são potenciais políticos.

Queira-se ou não, Carolina Cerqueira já fez história ao inscrever o seu nome como a primeira mulher angolana a assumir o ministério da Comunicação Social, com a particularidade de o seu mandato se iniciar e coincidir justamente com o dealbar da Terceira República, no âmbito da nova Constituição.

Para além do percurso de anos na RNA, Carolina Cerqueira tem o seu curriculum também associado à organização feminina do MPLA, a OMA, e à Organização Pan-Africana das Mulheres.

Na Organização da Mulher Angolana foi colaboradora do Departamento de Informação e Propaganda, conselheira, secretária executiva para solidariedade e assuntos jurídicos, enquanto na Organização Pan-Africana das Mulheres chegou a vice-presidente para a África Austral.

Foi por intermédio da OMA que chegou a deputada e se tornou membro do Comité Central, durante os últimos anos. No VI Congresso do MPLA, realizado em Dezembro de 2009, Carolina Cerqueira ascendeu ao Bureau Político.

Embora não tendo saltado directamente do calor das redacções para um cargo governamental, o certo é que Carolina Cerqueira é uma pessoa conhecida da classe e pode usar o género como grande trunfo para unir a família da comunicação social.

À entrada, uma coisa é certa: não há um caminho fácil para percorrer. A novel ministra terá em mãos uma verdadeira “batata quente”, na medida em que será chamada a encontrar respostas para “embrulhadas” como a Lei de Imprensa que foi aprovada mas nunca teve a regulamentação que lhe permita, de facto, funcionar; ou a carteira profissional, que os profissionais não dispõem e, por via disso, se vêm na impossibilidade de definir quem é quem no sector, entre outras pendências deixadas pelo seu antecessor .

Num autêntico desafio à Lei de Imprensa, Manuel Rabelais fez “vista grossa” ao nomear para as direcções dos órgãos públicos os coadjutores, quando só lhe competia prover o titular do órgão, cabendo a este a escolha dos seus colaboradores.

Muito comentada em surdina, a nomeação dos directores de serviços por parte do ministro criou mal-estar e culminou em “guerras intestinas” no seio de algumas empresas tuteladas do sector, com o caso do Jornal de Angola a ser o mais visível, onde José Ribeiro, o director-geral, não atina com os seus mais directos colaboradores, devido a este precedente aberto por Manuel Rabelais.

A primeira “batata quente” nas mãos de Carolina Cerqueira pode estar exactamente aí.

A classe está à espera que a ministra, enquanto jurista, quebre esta teia montada pelo seu antecessor e mais do que isso consiga, enquanto jornalista, recuperar a pálida imagem exibida pelos órgãos públicos de comunicação relativamente à liberdade de expressão, direito de resposta, e acima de tudo, à aplicação e respeito pelas ideias contraditórias.

A segunda “batata quente” está relacionada com a devolução aos órgãos estatais de comunicação social do seu verdadeiro carácter público, prestando serviços que vão de encontro efectivamente à realidade social, política e económica do país, sem as habituais e muito criticadas interferências de fora. Licenciada em Direito e com mestrado no mesmo ramo, a ministra da Comunicação Social terá de aproveitar alguns dos factores que tem à mão (é mulher, tem sensibilidade, é jurista, jornalista e política) para sair-se bem no seu novo desafio.

José Meireles
5 de Fevereiro de 2010
10:23
 
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