
Já não estamos no CAN como Selecção. O sonho de Angola foi truncado no domingo, reacendendo nos mais fantasistas a velha ideia dos tempos da nossa infância, de que os domingos são dias de azar. Com o Mali, o arrepiante empate a 4 golos aconteceu num domingo, e o dia do golo solitário do Ghana que nos matou a esperança, também foi num dia de domingo.
Passaram-se cinco dias e o tremendíssimo mal-estar que nos deixou o insucesso do dia 24 de Janeiro está em alta dose aliviado, graças fundamentalmente à melhor terapia que se conhece para males do género: o tempo.
As dores espirituais, de facto, curaas o passar do tempo.
Reerguer-se, sacudir a poeira e retomar caminho é o que se faz, nestes casos. Foi o que fizemos, embora a muito custo.
O CAN é, tão só, a nossa maior realização desportiva de sempre. A certeza do evento que mais projectou a imagem de Angola como país, o conhecimento do seu povo, o seu esforço de reconstrução, a promessa de uma terra de crescimento. O seu ganho essencial e fora de qualquer disputa, é este.
O eventual triunfo dos Palancas Negras na grande final teria sido a cereja no topo do bolo, mas não acontecendo pelas contingências previsíveis do próprio jogo da bola, ficamos com o bolo sem a cereja. Que o mesmo é dizer, tenhamos em alta conta o essencial do exercício, que foi inscrever o nome de Angola no selecto clube dos Estados que já organizaram alguma vez um Campeonato Africano de Futebol. Isso como ganho inicial, se quisermos de cariz político-diplomático, ao qual se segue uma mão cheia de outros: as infra-estruturas que ampliam a dimensão do parque patrimonial do Estado – 4 novos e modernos estádios, estradas novas a eles ligadas, campos de apoio melhorados, aeroportos reabilitados – e o relançamento do grande interesse pelo futebol.
O slogan feliz do COCAN “um país movido pela paixão do futebol” não precisa acanhar-se no dia em que a 27ª edição do Campeonato Africano das Nações virar passado, já este domingo depois de encontrado o campeão. Muito pelo contrário, deverá recuperar-se como espólio de uma gigantesca e vencedora jornada que vem de longe, contada desde a escolha de Angola para sede do CAN em 2006.
O que se espera e é desejável é que a festa do CAN, estes dias de futebol intenso, a enorme mobilização, a onda favorável, sejam suficientemente inspiradores para que o percurso de Angola fique dividido em dois grandes momentos: o antes e o depois da Taça Africana das Nações.
Todos esperamos que nada mais seja como antes, que Angola inicie a sua firme caminhada rumo a um futuro de futebol.
Temos o direito, depois desta enriquecedora experiência, de aspirar a muito mais, à condição de potência futebolística em África, porque não? muito mais, à condição de potência futebolística em África, porque não? muito mais, à condição de potência Seria o cúmulo deixarmos de acreditar, logo agora que o nosso desempenho foi brilhante e absolutamente honroso neste CAN.
Não nos tolherá complexo nenhum, porque se fomos capazes de medir forças com os grandes de África, deveremos continuar a poder fazê-lo no futuro, numa perspectiva de ganhos melhorados. Queremos e devemos projectar a imagem de uma selecção que ponha em sentido os seus adversários, seja em que circunstâncias forem. Até porque vamos mantendo uma regularidade de presença nas fases finais do CAN, será bom que os outros se preocupem quando ouvirem mencionar o nome de Angola. Devem querer ficar alinhados noutros grupos e não os que incluam os Palancas Negras. É a isso que se chama respeito por um adversário temível, aquilo que nós queremos ser, depois dos entusiasmantes indicadores dos jogos da Selecção no estádio 11 de Novembro.
Angola cresceu muito de jogo para jogo, os bravos rapazes deram alegrias imensas à nação do futebol e, melhor do que tudo, caíram com a honra e a dignidade lá em cima. Obrigado rapazes destemidos, obrigado aos homens e mulheres que viveram os dias mágicos do 11 de Novembro na Camama, obrigado Angola!
Definitivamente, a ideia é transversal e imutável: sempre que um país organiza o CAN, o seu sonho supremo é ganha-lo.
Entre nós, a história que começou a ser escrita em Setembro de 2006 no Cairo quando a candidatura de Angola para sede da 27ª edição do Campeonato Africano das Nações em Futebol triunfou sobre as demais, registou no princípio uma ambição discreta, do ponto de vista de pronunciamentos públicos, em relação àquele objectivo, até o véu se ir desfazendo aos poucos para termos, hoje por hoje, o país inteiro empolgado para uma conquista que afinal pode ser tangível.
Não há volta a dar: depois que superámos o primeiro obstáculo chamado fase de grupos, em que dois empates e uma vitória asseguraram uma liderança confortável e incentivadora, agora as contas que se fazem são directas e resumem-se na eliminação, um a um, dos adversários que se nos atravessarem para no dia 31 de Janeiro disputarmos a grande final para ganhá-la. É este o pensamento elementar de Angola inteira, neste momento.
A Selecção nacional está a fazer um percurso notável, se a avaliarmos não apenas agarrados à fria e por vezes enganadora lógica dos resultados medidos em números.
Na verdade, as esforçadas “palancas” que pastam sobre a relva de Camama estão a ajudar Angola a viver o seu próprio sonho, todo ele marcado por capítulos que se diferenciam uns dos outros, com fronteiras nítidas de separação. Digamos que o percurso se faz por etapas que se vencem com estoicismo e em tranquilidade, reeditando, no fundo, o exemplo de perseverança que nos identifica como povo.
Há uma explicação para tudo isso: a equipa angolana distingue-se dos ditos papões do futebol africano pela sua estrutura modesta e não anda pontilhada de estrelas que ameaçam ofuscar o brilho alheio. Vale pelo conjunto e, sobretudo, tem só a virtude de crescer com o avançar do tempo.
Olha-se para trás e todos percebem que é esse o traço essencial da sua filosofia de evolução.
Os Palancas Negras, voluntária ou involuntariamente, dão-nos soberbas lições de vida, a primeira delas, a necessidade de nunca se perder a humildade diante da sedução da vaidade e do triunfalismo. O empate no jogo inaugural – falemos dele, já agora, e sem traumas – não foi bem o catastrófico resultado que a todos pareceu naquele domingo estranhíssimo, sendo mais as vozes que admitem hoje que foi bom que tivesse acontecido para que os jogos seguintes tivessem uma história alicerçada na prudência e no rigor do futebol.
O anormal 4-4 frente ao Mali depois de Angola estar em vantagem folgadíssima de 4-0, ensinou a todos que o futebol arte, o futebol “brinca-naareia”, o futebol dos grandes saraus pode ser um regalo à vista, é certo, mas o desejável é o outro, o que dá vitórias e soma pontos. A gestão inteligente do empate a zero com a Argélia, na segunda-feira desta semana, foi a confirmação de que as lições são para aprender.
O percalço na noite de estreia colocou aos Palancas Negras exigências novas e o belíssimo jogo com o Malawi veio claramente na sequência desse angustiante momento.
No rescaldo do susto e da comoção do dia 10 de Janeiro, soergueu-se uma equipa diferente, que agora se vê na contingência feliz de poder sonhar com o ouro no torneio. Faltam-lhe três mortíferos combates, os jogos dos quartos de final, semi-final e o último, o da final. É tudo agora questão de ser capaz, ter competência, superar-se em estoicismo, sendo certo – vale dizer isto, não vá surgir alguma corrente fundamentalista e irracional – que o caminho que resta percorrer até à consagração está cheio de armadilhas.
No futebol não se vive de nomes e de passados, mas a sensatez obriga-nos a saber que África há muito que tem os seus próprios gigantes, como o Egipto (que luta pelo terceiro título no CAN), a Nigéria, o Ghana, a Argélia, os Camarões…
Mergulhada que a nação anda nas emoções do Campeonato Africano das Nações, um mais do que previsível estado de semi-hibernação porque graças a Deus o futebol tem essa inigualável capacidade mística, quase nos esquecemos de que, fora dos estádios, a vida continua a sua marcha.
A política, suficientemente presente nas nossas vidas para se dar ao luxo de um absoluto tempo sabático, ali anda com os seus feitos e os seus protagonistas, certos todos de que, futebóis à parte, haverá sempre que assegurar o presente e cuidar do futuro dos povos.
Entre nós, a distracção do jogo da bola pode tê-lo impedido na dimensão do impacto que seria o imaginável noutras circunstâncias, mas o certo é que aconteceram factos com os quais lidarão os cidadãos de forma bastante directa nos tempos que sobrevirão à euforia do CAN. No Parlamento os representantes eleitos pelo povo escreveram parte substancial de uma nova história da política doméstica e no Palácio da Colina de São José, o Presidente da República deixou ditas verdades que concitam à reflexão, como a ideia quiçá demasiado óbvia para outros povos mas para nós, angolanos, sempre carregada de um significado especial. Lá iremos.
No edifício da Assembleia Nacional, os deputados já têm uma Constituição para “dar” a Angola como resultado dos seus esforços de meses, num parto que ninguém dirá como tendo sido de absoluta tranquilidade, mas sim prenhe de incidências que valorizaram a arte da negociação e mostraram o lado cru do poder em política, o tal que ensina a exercitálo para que a marcha se faça sem o sindroma dos impasses. Para muitos dos deputados da Oposição, com a UNITA na liderança do bloco, essa não é a Lei Magna sonhada, pelo que encheram as suas últimas batalhas de resistências, não votos, abstenções e outros quejandos.
O pomo da discórdia foi, como já se sabia de há muito, o método de eleição do Presidente da República, na verdade um ponto que acabou por dar do debate parlamentar uma imagem distorcida, sobressaindo a ideia de que a Constituição de um país (no caso específico Angola) fica resumida à maneira como se escolhe o Presidente. O que, claramente, não é verdade.
E não havendo o desejado consenso na Comissão Constitucional, aconteceu o que tinha de acontecer: documento submetido ao ditame do voto, batalha que quase não chega a sê-lo porque o MPLA, com a sua folgadíssima maioria, pulverizou a vontade dos deputados das outras bancadas que investiam em direcção contrária.
Já na semana que vem – para que ninguém se distraia, será ainda com o CAN a decorrer – a Assembleia Nacional decide em plenária o futuro do projecto de Constituição. E fica fechado o capítulo, uma longa história de paixões políticas desencontradas com episódios de abandonos pelo meio. Depois, só faltará mesmo o acto eleitoral, outra página com desenvolvimento específico que em termos reais significará uma segunda grande novela.
Fora do Parlamento, a política em tempos de CAN movimentouse no Palácio Presidencial ontem quinta-feira, onde o Chefe de Estado rendeu culto à paz, como factor de estabilidade e desenvolvimento dos povos, apoiado na experiência do nosso próprio país. José Eduardo dos Santos recebeu cumprimentos de Ano Novo do corpo diplomático em funções na República de Angola, momento em que colocou bem alto o benefício da paz, cuja ausência transtornou profundamente o percurso da nação angolana durante anos. “A nossa experiência mostra que só a paz e o Estado de Direito poderão garantir a estabilidade necessária e imprescindível ao desenvolvimento sustentável dos países africanos”, disse aos embaixadores.
Uma referência nada inocente, só uns dias passados do cobarde ataque em Cabinda de um grupo de homens armados à Selecção do Togo de futebol. Muito bom lembrar que a paz não admite alternativas: paz ou paz, para se sonhar com o progresso e o bem-estar.
2010-01-25 13:51:47
Ganharam juizo..