Novo Governo

sexta-feira
05-02-2010
Edição 65

Terça-feira à noite, o país despertou para uma nova realidade. Em bom rigor, dir-se-á que o processo foi desencadeado horas antes, ainda durante a tarde, quando a comunicação social pública fez eco de uma reunião, esse dia, da alta direcção do MPLA (Bureau Político), e que tinha tomado duas decisões de profundo alcance político: a indigitação de Fernando da Piedade Dias dos Santos para vice-presidente da República e de Paulo Kassoma para presidente da Assembleia Nacional.

Andavam ainda os cidadãos a digerir a novidade com o habitual cruzamento a toda a pressa de opiniões, pareceres, comentários e afins quando, perto das nove da noite, chegou ao conhecimento público outra vaga de informação de grande impacto, relacionada com a vida do Estado. Uma nota de imprensa enviada às cabines de emissão de rádio e televisão pela Presidência da República revelava a composição do novo Governo, intuído no Congresso do MPLA de Dezembro passado, abertamente prometido pelo presidente José Eduardo dos Santos na sua mensagem de fim de ano e aguardado pelos cidadãos para depois da festa do CAN.

Se o fim de tarde tinha sido agitado, com o tema da ascensão de Fernando da Piedade Dias dos Santos na “boca do mundo”, as horas da noite não foram de modo algum serenas, sendo que as reacções esperadas da sociedade aumentaram em ritmo e volume. Viveu-se um patamar acima do habitual em remodelações ministeriais, pois desta vez o estado psicológico que rodeou a espera das mexidas tinha contornos singulares.

Por outras palavras, o país não ficou à espera de mais uma rotineira movimentação ao nível do Executivo, mas preparou-se para ver se se confirmavam expectativas específicas que começaram a ser alimentadas no VI Congresso do MPLA, quando o presidente Eduardo dos Santos exteriorizou algum agastamento em relação ao modo como os assuntos da governação, em muitos casos, eram sistematicamente geridos. Falou em tolerância zero para males como a corrupção e a falta de transparência, criticou de modo directo e franco o espírito do “vale tudo” em política, que leva gente de escrúpulos minguados a prejudicar outros até na imprensa, e pediu maior dedicação e solidariedade na hora de servir a nação, os cidadãos, o Povo.

A nota de imprensa dos Serviços de Apoio do Presidente da República foi recebida também com uma curiosidade diferente pela população porque esta queria ver em que pelouros tinham acontecido os cortes para a redução do tamanho do Governo (algo que parecia definitivo, a julgar pelos resultados do Congresso do MPLA e pelo que se lhe seguiu, até mesmo nas declarações públicas). Cortes que, já se sabe, afinal não vingaram.

Por último – e não menos interessante – estava a sempre apetecível espreitadela ao sobe e desce dos que andam na governação, muitas vezes o único elemento de aproximação e procura de quem observa de fora a política. Neste quesito, nenhuma mudança de forma ou de conteúdo, pois os angolanos reagiram como era óbvio que reagissem como seres sociais: os nomes que lhes pareceram associados a pessoas competentes ou, no mínimo, entregues à governação com espírito de missão, patriotismo, humildade, foram aplaudidos e recebidos como uma lufada de esperança; os outros, que lembram em muitos casos a antítese do que deve ser o papel e a conduta de um servidor público, despertaram uma sensação de alívio se deixaram de fazer parte do elenco governamental. Quem semeou a cultura da petulância, do roubo descarado e falta de carácter, e ficou de fora, obviamente que está no epicentro da condenação pública.

Todo o fim-de-semana vai servir para escrutinar na media e nos quintais da nossa angolanidade as escolhas que o presidente José Eduardo dos Santos fez. Naturalmente…

Luís Fernando
4 Comentários
  1. Filho Único
    2010-03-04 16:38:37
    A governação de JES deixa muito a desejar. Quando tinha tudo não mão para pôr andar alguns ministros sofríveis promove-os. Com essa conduta de liderança, o tolerância zero morrerá solteira. Podem ter a certeza
  2. Filho Único
    2010-03-04 16:37:50
    A governação de JES deixa muito a desejar. Quando tinha tudo não mão para pôr andar alguns ministros sofríveis promove-os. Com essa conduta de liderança, o tolerância zero morrerá solteira. Podem ter a certeza
  3. BETTO
    2010-02-09 18:54:17
    FERNANDO, entao vc viu mudança alguma? Nao se confundiram as operaçoes de resta e soma???? Em resumo mesmos nomes , governo mais dilatado = maior burocracia e eventualmente mais consumo de recursos para o seu funcionamento.....Mais bem pareceu que aqui fez-se a acomodaçao POLITICA de certas figuras.....e enfim...nao verdade como sempre criam-se expectativas e a practica é no sentido inversso.......entao o que cabe esperar da nova politica de TOLERANCIA ZERO.....quando alguns nomes sonantes da POLITICA ANGOLANA estao implicadas.........enfim..........Ë uma oportunidade que ANGOLA perde de mostrar ao MUNDO que a AFRICA pode tb fazer e ser diferente.....uma vez mais com essas practicas Presidenciais APOIA_SE INDIRECTAMENTE OS CONCEITOS RACISTAS DO OCCIDENTE....depois queremos gritar???? ENfim....QUEM aconselha o PR? entao nao estao la quadros de alto gabarito?...nao sabem ler essas entrelinhas? Temos que sempre estar com cara baixa perante Europeos e Americanos pela pouca inteligencia de alguns?????????? ENFIM....................
  4. BETTO
    2010-02-09 18:53:11
    FERNANDO, entao vc viu mudança alguma? Nao se confundiram as operaçoes de resta e soma???? Em resumo mesmos nomes , governo mais dilatado = maior burocracia e eventualmente mais consumo de recursos para o seu funcionamento.....Mais bem pareceu que aqui fez-se a acomodaçao POLITICA de certas figuras.....e enfim...nao verdade como sempre criam-se expectativas e a practica é no sentido inversso.......entao o que cabe esperar da nova politica de TOLERANCIA ZERO.....quando alguns nomes sonantes da POLITICA ANGOLANA estao implicadas.........enfim..........Ë uma oportunidade que ANGOLA perde de mostrar ao MUNDO que a AFRICA pode tb fazer e ser diferente.....uma vez mais com essas practicas Presidenciais APOIA_SE INDIRECTAMENTE OS CONCEITOS RACISTAS DO OCCIDENTE....depois queremos gritar???? ENfim....QUEM aconselha o PR? entao nao estao la quadros de alto gabarito?...nao sabem ler essas entrelinhas? Temos que sempre estar com cara baixa perante Europeos e Americanos pela pouca inteligencia de alguns?????????? ENFIM....................

Comente

Nome

E-Mail

Comentário


Enviar Comentário

Obrigado, Angola!

sexta-feira
29-01-2010
Edição 64

Já não estamos no CAN como Selecção. O sonho de Angola foi truncado no domingo, reacendendo nos mais fantasistas a velha ideia dos tempos da nossa infância, de que os domingos são dias de azar. Com o Mali, o arrepiante empate a 4 golos aconteceu num domingo, e o dia do golo solitário do Ghana que nos matou a esperança, também foi num dia de domingo.

Passaram-se cinco dias e o tremendíssimo mal-estar que nos deixou o insucesso do dia 24 de Janeiro está em alta dose aliviado, graças fundamentalmente à melhor terapia que se conhece para males do género: o tempo.

As dores espirituais, de facto, curaas o passar do tempo.

Reerguer-se, sacudir a poeira e retomar caminho é o que se faz, nestes casos. Foi o que fizemos, embora a muito custo.

O CAN é, tão só, a nossa maior realização desportiva de sempre. A certeza do evento que mais projectou a imagem de Angola como país, o conhecimento do seu povo, o seu esforço de reconstrução, a promessa de uma terra de crescimento. O seu ganho essencial e fora de qualquer disputa, é este.

O eventual triunfo dos Palancas Negras na grande final teria sido a cereja no topo do bolo, mas não acontecendo pelas contingências previsíveis do próprio jogo da bola, ficamos com o bolo sem a cereja. Que o mesmo é dizer, tenhamos em alta conta o essencial do exercício, que foi inscrever o nome de Angola no selecto clube dos Estados que já organizaram alguma vez um Campeonato Africano de Futebol. Isso como ganho inicial, se quisermos de cariz político-diplomático, ao qual se segue uma mão cheia de outros: as infra-estruturas que ampliam a dimensão do parque patrimonial do Estado – 4 novos e modernos estádios, estradas novas a eles ligadas, campos de apoio melhorados, aeroportos reabilitados – e o relançamento do grande interesse pelo futebol.

O slogan feliz do COCAN “um país movido pela paixão do futebol” não precisa acanhar-se no dia em que a 27ª edição do Campeonato Africano das Nações virar passado, já este domingo depois de encontrado o campeão. Muito pelo contrário, deverá recuperar-se como espólio de uma gigantesca e vencedora jornada que vem de longe, contada desde a escolha de Angola para sede do CAN em 2006.

O que se espera e é desejável é que a festa do CAN, estes dias de futebol intenso, a enorme mobilização, a onda favorável, sejam suficientemente inspiradores para que o percurso de Angola fique dividido em dois grandes momentos: o antes e o depois da Taça Africana das Nações.

Todos esperamos que nada mais seja como antes, que Angola inicie a sua firme caminhada rumo a um futuro de futebol.

Temos o direito, depois desta enriquecedora experiência, de aspirar a muito mais, à condição de potência futebolística em África, porque não? muito mais, à condição de potência futebolística em África, porque não? muito mais, à condição de potência Seria o cúmulo deixarmos de acreditar, logo agora que o nosso desempenho foi brilhante e absolutamente honroso neste CAN.

Não nos tolherá complexo nenhum, porque se fomos capazes de medir forças com os grandes de África, deveremos continuar a poder fazê-lo no futuro, numa perspectiva de ganhos melhorados. Queremos e devemos projectar a imagem de uma selecção que ponha em sentido os seus adversários, seja em que circunstâncias forem. Até porque vamos mantendo uma regularidade de presença nas fases finais do CAN, será bom que os outros se preocupem quando ouvirem mencionar o nome de Angola. Devem querer ficar alinhados noutros grupos e não os que incluam os Palancas Negras. É a isso que se chama respeito por um adversário temível, aquilo que nós queremos ser, depois dos entusiasmantes indicadores dos jogos da Selecção no estádio 11 de Novembro.

Angola cresceu muito de jogo para jogo, os bravos rapazes deram alegrias imensas à nação do futebol e, melhor do que tudo, caíram com a honra e a dignidade lá em cima. Obrigado rapazes destemidos, obrigado aos homens e mulheres que viveram os dias mágicos do 11 de Novembro na Camama, obrigado Angola!

Luís Fernando
0 Comentários

Comente

Nome

E-Mail

Comentário


Enviar Comentário

Alto CAN

segunda-feira
25-01-2010
Edição 63

Definitivamente, a ideia é transversal e imutável: sempre que um país organiza o CAN, o seu sonho supremo é ganha-lo.

Entre nós, a história que começou a ser escrita em Setembro de 2006 no Cairo quando a candidatura de Angola para sede da 27ª edição do Campeonato Africano das Nações em Futebol triunfou sobre as demais, registou no princípio uma ambição discreta, do ponto de vista de pronunciamentos públicos, em relação àquele objectivo, até o véu se ir desfazendo aos poucos para termos, hoje por hoje, o país inteiro empolgado para uma conquista que afinal pode ser tangível.

Não há volta a dar: depois que superámos o primeiro obstáculo chamado fase de grupos, em que dois empates e uma vitória asseguraram uma liderança confortável e incentivadora, agora as contas que se fazem são directas e resumem-se na eliminação, um a um, dos adversários que se nos atravessarem para no dia 31 de Janeiro disputarmos a grande final para ganhá-la. É este o pensamento elementar de Angola inteira, neste momento.

A Selecção nacional está a fazer um percurso notável, se a avaliarmos não apenas agarrados à fria e por vezes enganadora lógica dos resultados medidos em números.

Na verdade, as esforçadas “palancas” que pastam sobre a relva de Camama estão a ajudar Angola a viver o seu próprio sonho, todo ele marcado por capítulos que se diferenciam uns dos outros, com fronteiras nítidas de separação. Digamos que o percurso se faz por etapas que se vencem com estoicismo e em tranquilidade, reeditando, no fundo, o exemplo de perseverança que nos identifica como povo.

Há uma explicação para tudo isso: a equipa angolana distingue-se dos ditos papões do futebol africano pela sua estrutura modesta e não anda pontilhada de estrelas que ameaçam ofuscar o brilho alheio. Vale pelo conjunto e, sobretudo, tem só a virtude de crescer com o avançar do tempo.

Olha-se para trás e todos percebem que é esse o traço essencial da sua filosofia de evolução.

Os Palancas Negras, voluntária ou involuntariamente, dão-nos soberbas lições de vida, a primeira delas, a necessidade de nunca se perder a humildade diante da sedução da vaidade e do triunfalismo. O empate no jogo inaugural – falemos dele, já agora, e sem traumas – não foi bem o catastrófico resultado que a todos pareceu naquele domingo estranhíssimo, sendo mais as vozes que admitem hoje que foi bom que tivesse acontecido para que os jogos seguintes tivessem uma história alicerçada na prudência e no rigor do futebol.

O anormal 4-4 frente ao Mali depois de Angola estar em vantagem folgadíssima de 4-0, ensinou a todos que o futebol arte, o futebol “brinca-naareia”, o futebol dos grandes saraus pode ser um regalo à vista, é certo, mas o desejável é o outro, o que dá vitórias e soma pontos. A gestão inteligente do empate a zero com a Argélia, na segunda-feira desta semana, foi a confirmação de que as lições são para aprender.

O percalço na noite de estreia colocou aos Palancas Negras exigências novas e o belíssimo jogo com o Malawi veio claramente na sequência desse angustiante momento.

No rescaldo do susto e da comoção do dia 10 de Janeiro, soergueu-se uma equipa diferente, que agora se vê na contingência feliz de poder sonhar com o ouro no torneio. Faltam-lhe três mortíferos combates, os jogos dos quartos de final, semi-final e o último, o da final. É tudo agora questão de ser capaz, ter competência, superar-se em estoicismo, sendo certo – vale dizer isto, não vá surgir alguma corrente fundamentalista e irracional – que o caminho que resta percorrer até à consagração está cheio de armadilhas.

No futebol não se vive de nomes e de passados, mas a sensatez obriga-nos a saber que África há muito que tem os seus próprios gigantes, como o Egipto (que luta pelo terceiro título no CAN), a Nigéria, o Ghana, a Argélia, os Camarões…

Luís Fernando
1 Comentário
  1. Hoje-em-Dia
    2010-01-25 13:51:47
    Ganharam juizo..

Comente

Nome

E-Mail

Comentário


Enviar Comentário

Editorial

Luís Fernando

Director do jornal O País, passou pela direcção do Jornal de Angola e é autor de vários romances.

Subscrição

Últimos comentários

25-01-2010
Hoje-em-Dia
04-01-2010
Tatiana Sacramento
04-07-2009
Edgardo
29-01-2009
Nelo de Carvalho