Empobrecemos

sexta-feira
06-11-2009
Edição 52

Carlos Rosado de Carvalho, economista, considera que “o cenário macroeconómico que o Governo divulgou esta semana traz boas e más notícias”.

Começando pelas primeiras Rosado de Carvalho constata que “o país deverá escapar à recessão, registando uma taxa de crescimento de 1,3%” no corrente ano.

A má notícia para o economista refere-se ao ritmo de crescimento: “a taxa de 1,3% é muito baixa para um país com os nossos indicadores económicos e sociais. Não chega sequer à taxa de crescimento da população, que rondará os 3%”.

Para o economista, tudo isto significa que, afinal de contas, “o PIB per capita angolano deverá diminuir em 2009”. “Traduzindo para português corrente, em média, os angolanos vão empobrecer este ano”, conclui.

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A maka do crédito

terça-feira
01-09-2009
Edição 42

 


A actividade tradicional dos bancos é a compra e venda de dinheiro, em geral através da captação de depósitos que depois são transformados em empréstimos. Como cobram mais pelo crédito do que pagam pelos depósitos, o negócio é lucrativo e atrai muita gente.
O problema dos banqueiros é saber a quem emprestar o dinheiro que captam, devido ao risco, isto é à possibilidade de as empresas e pessoas a quem emprestam dinheiro não pagarem o serviço da dívida, juros mais capital, que assumiram.


É por isso que quando vamos a um banco pedir um empréstimo obrigam-nos a preencher uma data de impressos com perguntas sobre as nossas vidas.
Querem saber coisas sobre a nossa família – se somos casados ou solteiros, se temos filhos e quantos; sobre o nosso serviço – onde trabalhamos, quanto ganhamos, se somos efectivos ou não e há quanto tempo estamos na empresa; e sobre a nossa situação financeira – se a casa onde moramos é nossa, alugada ou emprestada, se temos carro ou outros bens, com que bancos trabalhamos, se temos depósitos ou outras aplicações e quanto recebemos, se temos empréstimos ou outras dívidas e quanto pagamos, etc., etc..


O tratamento estatístico das nossas respostas permite aos bancos estabelecer a nossa classificação de risco de crédito, isto é medir a nossa capacidade de pagar os juros e reembolsar o capital.
A validade dessa classificação depende obviamente da veracidade das nossas respostas, coisa que os bancos nem sempre conseguem confirmar.
Sabendo disso muita gente mente.
Em todo o mundo, as bichas para os empréstimos estão cheias de caloteiros a tentar enganar os bancos.
Em África as coisas pioram porque os meios para confirmar a informação prestada aos bancos pelos candidatos a um crédito são ainda mais escassos. Por exemplo, na Europa uma das formas que os bancos mais usam para confirmar uma morada é pedir uma simples factura da luz ou da água, exigência que poucos africanos conseguem satisfazer.


Não podendo confirmar muitas das informações prestadas pelos seus candidatos a um crédito, os bancos africanos retraem-se na concessão de empréstimos. Ou não emprestam ou emprestam apenas aos clientes que conseguem apresentar garantias que possam ser accionadas em caso de incumprimento. Aliás, o problema da informação, ou falta dela, na análise de risco de crédito não é um exclusivo dos bancos.
Não é por acaso que em África, em geral, e em Angola, em particular, paga-se tudo a pronto ou até adiantado, como é o caso dos cartões de recarga dos operadores móveis.
Como se diz na gíria, dinheiro não há palhaço. Neste contexto, todas as medidas que contribuam para melhorar a gestão de risco de crédito em África, em particular no sector bancário são bem-vindas. Melhor informação significa mais crédito, mais barato.


E a disponibilidade de crédito, dentro dos limites do razoável, promove o desenvolvimento económico.
Por isso, foi com satisfação que na semana passada li que o vice-governador do Banco Nacional de Angola Viegas D’ Abreu reafirmou que a entidade supervisora do sistema bancário nacional está a criar uma central de risco de crédito. Embora, o BNA não tenha disponibilizado muitas informações sobre o que vai fazer não deverá ser muito diferente do que já acontece lá fora.


Em termos simples, uma central de risco de crédito é um organismo que centraliza as situações de incumprimento nos pagamentos aos bancos e outras instituições financeiras e disponibiliza uma espécie de lista negra de maus pagadores que é bastante útil na gestão do risco de crédito. Por isso, os caloteiros angolanos que se cuidem.Quando a central de risco de crédito começar a funcionar a sua vida vai ficar mais difícil. A sorte dos maus pagadores (e o azar dos bons) é que em Angola entre os anúncios e o fazer demora uma eternidade. Há anos que se fala na central de risco e até agora nada.
Esperemos que seja desta.

Carlos Rosado de Carvalho
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Quo Vadis, Sakineh?

segunda-feira
31-08-2009
Edição 42

Sakineh Mohammadi, é uma mulher iraniana que foi condenada à morte, por apedrejamento, na prisão de Tabriz, na zona Oeste do Irão. O seu crime: ser casada e ter praticado o adultério. Já havia sido “contemplada” com 99 chicotadas por manter uma relação ilícita.


Como tem acontecido noutros casos, o julgamento foi injusto e sem garantias. O advogado de Sakineh pediu o perdão e a Amnistia Internacional a revisão do caso. Se os resultados forem negativos, Sakineh será apedrejada.
O Mundo inteiro precisa de pressionar as autoridades iranianas para que não executem Sakineh e suspendam todas as execuções por lapidação.


Sakineh Mohammadi foi condenada em 15 de Maio de 2006 por ter tido uma “relação ilícita” com dois homens. Posteriormente, foi acusada de “adultério sendo casada” durante o julgamento de um homem acusado de assassinar o seu marido.
Apesar do colectivo de juízes iraniano não ter decidido por unaminidade, Sakineh foi condenada por uma maioria de cinco juízes, tendo a sentença sido confirmada pelo Supremo Tribunal de Justiça em 27 de Maio de 2007. O seu caso foi, então, enviado para a Comissão de Amnistia e Clemência, mas o pedido foi rejeitado.
O apedrejamento até à morte no Irão é prescrito como modo de execução para os condenados de terem cometido o delito de “adultério enquanto casado”. Desde 2002 que, pelo menos, cinco homens e uma mulher foram apedrejados até à morte. Em Janeiro deste ano, o porta-voz do Poder Judiciário, Ali Reza Jamshidi, confirmou que duas execuções por ladipação haviam sido realizadas em Dezembro de 2008.
Pelo menos, outras oito mulheres e três homens estão, actualmente, em risco de apedrejamento até à morte no país dos Ayatollahs.


É lamentável que o Irão continue a usar de falsas promessas (feitas em 2002 e 2008) para a abolição de tão selvática pena de morte .
A ONU, como órgão pacificador, deve levar mais a sério as promessas iranianas. Não é normal que depois dos compromissos assumidos pelo Irão ( mas não cumpridos) se mantenha de braços cruzados.
É urgente insistirmos junto das autoridades iranianas para que não executem Sakineh.É urgente exortarmos essas mesmas autoridades a tomarem uma imediata e eficaz moratória sobre as execuções por apedrejamento e da utilização de outras formas de execução e castigos cruéis e desumanos, incluíndo a flagelação.


Mas, ainda no continente asiático, uma mulher malaia tornou-se na primeira representante do sexo feminino a ser punida na Malásia por beber álcool.
Kartika Shukarno, é um modelo de 32 anos, que foi condenada pela Corte Islâmica a pagar uma multa de 1.400 dólares e a ser punida com seis chibatadas por beber cerveja no bar de um hotel.
Agora, Kartika, que vive em Singapura com o marido e dois filhos, quer que a sua pena seja aplicada em público. A Malásia, que se considera uma nação muçulmana moderada, proíbe o consumo de álcool por muçulmanos – ainda que estejam de visita.


O Ramadão, ora iniciado, é um período de jejum e reflexão para os muçulmanos. Será uma boa altura para todos reflectirem para que casos como os de Sakineh e Kartika não se repitam.
E, enquanto tudo isto acontece, na Libía foi recebido como um herói o monstro de Lockerbie!Abdel Basset al-Megrahi, que supostamente tem menos de três meses de vida (cancro na próstata), foi solto por ordem do ministro escocês da justiça, apesar da forte oposição dos Estados Unidos, que queriam que ele cumprisse a pena até ao final.


Lembro, que a explosão do voo 103 da Pan Am sobre a cidade escocesa de Lockerbie, na rota Londres-Nova Iorque, matou todas as 259 pessoas a bordo e mais 11 em terra, no dia 21 de Dezembro de 1988.
Contudo, certa comunicação social, ao noticiar o seu regresso a Tripoli, resolveu “assobiar para o lado” e ignorar, pura e simplesmente, os protestos que se fizeram sentir de vários quadrantes.
Pois é, são casos como estes – Sakineh, Kartika e al-Megrahi que nos fazem reflectir que continuamos a viver numa sociedade globalizada, mas hipócrita!“E é assim que as coisas são…” neste mundo-cão!

Carlos Blanco
1 Comentário
  1. leonardo
    2010-08-09 16:00:17
    E o corno diria: _Com estas pedras construirei o meu castelo

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Kalkanhar d´Akeles (Sul)

Carlos Rosado de Carvalho

Director da revista Exame durante anos, é economista, professor Universitário e empresário. PAra além das crónicas em O País é também comentador na Rádio Mais.

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