
Quando começavam a levantar a cabeça os países de baixo rendimento foram apanhados por uma crise de que não são responsáveis e contra a qual são impotentes.
Em muitos países de baixo rendimento, os anos anteriores a 2007 foram caracterizados por uma forte recuperação das taxas de crescimento económico e pelo sucesso no combate a problemas de longo prazo como a inflação e o endividamento. Os défices orçamental e da balança corrente iniciaram uma trajectória descendente e as reservas de divisas internacionais subiram para máximos em décadas.
Tudo isto foi obtido através de uma combinação, em doses variáveis, de melhores políticas macroeconómicas, aumento da ajuda ao desenvolvimento, alívio da dívida e condições económicas mais favoráveis, incluindo melhoria dos termos de troca.
Não sou eu que o digo, é o Fundo Monetário Internacional (FMI).
O elogio ao grupo das nações mais pobres do planeta, a maioria das quais africanas, vem escarrapachado num relatório da instituição denominado “as implicações da crise financeira global nos países de baixo rendimento”. Mas os anos de ouro podem estar à beira do fim e não por culpa destes países.
Segundo o documento, a crise que rebentou nos Estados Unidos, atravessou o Atlântico e o Pacífico contagiando a Europa e o Japão e propagando-se às economias emergentes da Ásia e América Latina ameaça agora atingir de forma “severa” os países de baixo rendimento, apesar de estes não terem contribuído em nada para a situação actual. Apesar dos progressos registados, as nações mais pobres ainda não têm margem de manobra para combater a redução da actividade económica provocada por um coktail composto por quebras simultâneas nas exportações, nas remessas de emigrantes, no investimento directo estrangeiro e, eventualmente, na ajuda pública ao desenvolvimento.
Segundo a teoria económica, quando uma economia está em dificuldades, as autoridades do país devem adoptar uma combinação de políticas monetária e orçamental. No primeiro caso baixando os juros, no segundo aumentando os gastos públicos ou diminuindo os impostos. A ideia é estimular a procura e voltar a colocar a economia nos carris.
É precisamente isso que tem sido feito por vários governos, em particular de países desenvolvidos e economias emergentes. Com o agravamento da crise económica internacional, o mundo assistiu a uma espécie de concurso entre governantes para ver quem era mais Keynesiano e apresentava o maior pacote de investimentos públicos para relançar a economia.
Simultaneamente, as autoridades monetárias iniciaram políticas agressivas de cortes nos juros que em alguns casos estão em valores próximos de zero.
Governos e banqueiros limitamse a cumprir uma regra de ouro da economia segundo a qual as políticas económicas devem ser anti-cíclicas: expansionistas em momentos de
crise, como é o caso, contraccionistas quando a economia vai bem.
Mas nem todos se podem dar ao luxo de adoptar políticas anti-cíclicas.
Confrontados com a desaceleração das suas economias, os governos de alguns países de baixo rendimento, entre os quais Angola, não só não apresentaram um pacote de investimentos públicos como anunciaram mesmo planos de austeridade assentes em cortes nas despesas do Estado. E os bancos centrais em vez de baixarem os juros subiram.
Ou seja contrariando a referida regra de ouro alguns países de baixo rendimento adoptaram políticas orçamentais e monetárias pró-cíclicas, arriscando arrefecer ainda mais as respectivas economias já de si penalizadas pela quebra de actividade devido à crise internacional.
As opções de alguns governos das nações mais pobres em matéria de política económica podem parecer tanto mais estranhas quanto se sabe, como diz o FMI, que as suas reservas estão em máximos de décadas.
Então as reservas acumuladas em tempos de vacas gordas não são para ser gastas em tempos de vacas magras? Infelizmente nem sempre pode ser assim. O problema de alguns países de baixo rendimento é que se utilizassem as reservas acumuladas para ajudar as respectivas economias em esaceleração arriscavam pôr em causa a estabilidade macroeconómica – com agravamento das contas públicas, aumento da inflação e forte desvalorização da moeda – que constitui a prioridades das prioridades dos seus governos.
Resumindo para concluir, quando começavam a levantar a cabeça os países de baixo rendimento são apanhados por uma crise de que não são responsáveis e contra a qual são impotentes. Contrariando os manuais de economia, as nações mais pobres são obrigadas a cortar nos gastos públicos e subir os juros, agravando ainda mais a crise importada dos países ricos.
Esta dupla condição (de negra e mulher) costuma a ser uma dupla desvantagem no mercado de trabalho. Mas no caso da Xerox, que procurava activamente melhorar o seu desempenho em matéria de diversidade dos seus quadros de pessoal, ser mulher e negra constituiu uma dupla vantagem para Ursula Burns ( a primeira mulher negra a ascender ao cargo de CEO de uma grande empresa norte-americana cotada em bolsa).
Esta executiva norteamericana acaba de fazer duplamente história no mundo da alta finança dos Estados Unidos da América (EUA): tornou-se na primeira negra a ascender ao cargo de CEO (do inglês Chief Executive Officer), de uma grande empresa norte-americana cotada em bolsa no caso a Xerox pioneira no fabrico de fotocopiadoras, a ponto de em muitos países a marca ainda ser sinónimo de fotocópia e na primeira mulher a suceder a outra mulher, Anne Mulcahy, como CEO de uma grande empresa norte americana cotada em bolsa. O ineditismo do facto deu honras de capa da Business Week à nova CEO da Xerox. Para muitas mães trabalhadoras é motivador ver Mulchay, 56 anos, dois filhos já crescidos, passar o testemunho a outra mulher, Ursula, 50 anos, uma filha de 16 anos e um enteado de 20, lê-se na prestigiada revista americana especializada em economia.
Da mesma forma, para muitos negros também é motivador ver uma afro-americana, criada por uma mãe solteira, a chegar ao topo, acrescento eu. Percebe-se porquê. Nos EUA as mulheres representam 49,6 por cento da força de trabalho mas apenas 16 por cento dos quadros superiores das empresas. Embora não disponha de números, acredito que para as minorias, incluíndo os afro americanos, o desequilíbrio ainda seja maior. Esta situação não é exclusivo americano. No resto do Mundo a situação é igual ou pior. Nos negócios contam-se “estórias” hilariantes provocadas justamente pelo facto de as pessoas não estarem habituadas a ver mulheres e negros no topo da pirâmide das empresas. As mulheres executivas costumam ser confundidas com as secretárias dos seus pares homens, enquanto os executivos negros passam muitas vezes por motoristas. É preciso fazer alguma coisa para mudar estes estereótipos. Nesta matéria, há os que fazem e os que prometem.
No grupo dos que prometem estão gestores e políticos que, por razões de marketing empresarial ou eleitoral, criticam a fraca representatividade de mulheres e minorias nos altos cargos e depois não mexem um dedo para alterá-la. O grupo dos que fazem, inclui a Xerox, que, segundo a Business Week, desde os finais dos anos 60 prossegue uma política de promoção da diversidade nos seus quadros de pessoal. O resultado desta política é que em cada três quadros superiores da Xerox um é mulher, o dobro da média no mercado de trabalho dos EUA. A própria Ursula beneficiou dessa política quando entrou para a empresa em 1980. E, como disse no início, Ursula além de mulher é negra, é, aliás, a primeira negra a chegar a CEO de uma grande empresa norteamericana cotada em bolsa. Esta dupla condição costuma a ser uma dupla desvantagem no mercado de trabalho. Mas no caso da Xerox, que procurava activamente melhorar o seu desempenho em matéria de diversidade dos seus quadros de pessoal, ser mulher e negra constituíu uma dupla vantagem para Ursula. A aposta na diversidade por parte da Xerox ou de outras organizações não é um acto de caridade. Vários estudos provam que a promoção à diversidade seja de género, seja das minorias, como as étnicas e as culturais, constitui uma mais-valia para as organizações que a adoptam. Daí as políticas de discriminação positiva que cada vez mais empresas estão a seguir. Mas a discriminação positiva deve acabar quando os trabalhadores entram na empresa. A partir daí o que deve contar é o mérito. Antes de chegar ao topo da Xerox, mas já ocupando um posto de destaque na hierarquia, Ursula teve umas frases lapidares: “Acredito que cheguei aqui por mérito através de muito trabalho e elevada perfomance. Será que me deram algumas oportunidades no início da minha carreira devido à minha raça e género? Provavelmente... Eu entrei para uma empresa que procurava activamente diversificar a sua força de trabalho. Por isso imagino que a raça e o género chamaram a atenção dos seus responsáveis pelo meu recrutamento. A partir daí o resto foi por minha própria conta”. É assim mesmo que deve ser.
É fatal como o destino. Quando a crise aperta surgem as tentações proteccionistas. É o que está a acontecer actualmente, sobretudo nos países desenvolvidos. Com o pretexto de salvar empregos, vários governos cederam à tentação e adoptaram medidas que directa ou indirectamente penalizam a compra de bens e serviços estrangeiros. Medidas que, como é evidente, soam como música celestial aos ouvidos de alguns sectores das opiniões públicas nacionais.
A Organização Mundial do Comércio (OMC) fez um balanço dos últimos seis meses e elaborou um menu de restrições ao comércio internacional que inclui desde aumentos de tarifas até regulamentos que privilegiam a produção doméstica, passando por apoios à exportação.
O caso mais mediático é a famosa cláusula “buy american”, “compre produtos americanos” em tradução livre, incluída no pacote de mais de 800 mil milhões de dólares de apoio à economia dos EUA.
Na versão aprovada pelo Congresso norte americano, essa cláusula estabelecia que o ferro e aço utilizados na construção, alteração, manutenção ou reparação de edifícios e projectos públicos deveriam ser produzidos nos EUA. O Senado foi mais longe e alargou a exigência a todos os produtos industriais.
Receando a abertura de guerras comerciais, o presidente Obama solicitou que fosse introduzida uma adenda à cláusula “buy american” ressalvando que a exigência de utilização de produtos americanos nas empreitadas públicas não poderia ir contra os compromissos assumidos internacionalmente.
Outro caso de alegado proteccionismo bastante mediatizado ocorreu em França com os apoios à indústria automóvel. Paris fez saber que só teriam acesso ao pacote de ajudas de mais de 8 mil milhões de dólares as empresas que se comprometessem a não deslocalizar a produção para terceiros países. Não podemos estar a dar dinheiro dos contribuintes franceses a uma empresa que depois fecha a fábrica em França e vai abrir na República Checa, justificou o Governo de Paris.
Quem não gostou nada do exemplo foram os checos que por acaso até ocupam a presidência rotativa da União Europeia (UE) e incluiram o tema proteccionismo na agenda da Cimeira extraordinária da organização marcada para o próximo dia 1 de Março em Bruxelas com o objectivo de encontrar respostas coordenadas dos 27 à crise internacional.
A escalada do proteccionismo a nível internacional desencadeou um coro de alertas para os perigos que tal prática comporta para a economia mundial. Não é caso para menos.
A troca de bens e serviços entre países proporciona aos consumidores domésticos uma maior variedade de bens e serviços com melhor qualidade e a um preço mais baixo.
A eficiência económica também melhora já que a concorrência obriga as empresas a produzir a custo mais baixo, reduzindo o desperdício de recursos escassos.
Contudo, da mesma forma que não há almoços grátis, o comércio livre também tem custos.
Com a redução ou eliminação das barreiras ao comércio, as fábricas são deslocalizadas para os países mais competitivos, aumentando o desemprego e desencadeando protestos nas regiões onde as unidades são encerradas.
No entanto, feito o balanço, acredito que o comércio livre é um jogo de soma positiva, em que todos ganham.
O inverso também é verdadeiro. O proteccionismo é um jogo de soma negativa em que todos perdem. Mas uns perdem mais do outros.
No caso presente a maior parte da factura do proteccionismo será paga pelos países emergentes cujo crescimento é altamente dependente do comércio internacional em geral e das exportações para os países desenvolvidos em particular.
De acordo com previsões da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento, UNCTAD na sigla inglesa, as exportações dos países em desenvolvimento deverão cair cerca de 9,2% em 2009 devido à crise internacional.
Com este cenário quaisquer atitudes proteccionistas além de dispensáveis são indesejáveis. O facto de essas atitudes terem origem nos países desenvolvidos não é mera coincidência. Veja-se o que se passa no sector agrícola onde os países em desenvolvimento dispõem de vantagens comparativas assinaláveis.
Ao mesmo tempo que se armam em grandes paladinos do comércio livre, a UE e os EUA resistem em acabar com os generosos subsídios aos seus agricultores e as restrições às importações, que os põem a salvo da concorrência internacional.