Talvez devessemos chamar--lhes de “estivadores”. Vulgarmente conhecidos por roboteiros, esses jovens ocupam lugar de destaque nos mercados de Luanda. Provenientes na sua maioria do sul de Angola - Benguela, Huambo, Kuanza-Sul e Huíla - lideram o negócio na capital.
Incansáveis, percorrem toda a extensão do mercado. Com as mercadorias à mão tornaram-se num elemento fundamental dos grandes mercados informais.
Alheios ao contexto, abandonam tudo e arriscam-se a um universo diferente. Chegam a Luanda e esforçam--se para se enquadrarem no agitado quotidiano da “metrópole”.
Uma motorizada, um gravador CD e um gerador eléctrico constam entre as prioridades. Comprados em Luanda, os produtos são enviados para as suas províncias de origem e o dinheiro utilizado para a compra de gado, na esperança de um dia regressarem.
A nossa reportagem percorreu alguns dos maiores mercados informais de Luanda e procurou saber os seus percursos e histórias de vidas.
Manuel Samuel, 20 anos, natural do Cubal, província de Benguela, é carregador há cinco anos. Profissional no transporte de mercadorias nos mercados e veio para Luanda por influência dos seus irmãos mais velhos.
“Os meus irmãos estão há mais tempo neste negócio e sempre que fossem a Benguela levavam algum dinheiro para os meus pais”, disse.
Aos quinze anos de idade abandonou a casa dos pais e veio para Luanda numa aventura que já dura há cinco anos, para dedicar-se ao trabalho de carregador. “Na altura ninguém sabia que eu viria para Luanda. Fugi de Benguela porque queria realizar o meu sonho que era o de trabalhar na Capital”, explicou Manuel.
Inconsequente, ao contrário do que pensava, muitas foram as dificuldades por que passou até instalar-se no mercado do Asa Branca, onde começou a exercer a actividade de roboteiro.
“Foram os meus irmãos que me emprestaram o dinheiro para comprar o meu primeiro carro. Foi um dos dias mais felizes da minha vida”, lembrou Manuel.
Asa Branca, Palanca, Prenda, Roque Santeiro, Congolenses e Kikolo são alguns dos mercados já frequentados por Manuel.
“
Andei de mercado em mercado e mudei várias vezes de casa. Felizmente, hoje vivo com dois amigos na Samba e já consegui comprar e enviar uma motorizada para Benguela”, disse.
Manuel sai de casa às sete horas da manhã para o Catinton e os produtos que carrega com mas frequência são grades de cerveja, produtos alimentares e fardo.
O preço por carga depende da distância e do volume a transportar variando de cem a quinhentos kuanzas nas zonas rurais e de duzentos a mil kuanzas, nas urbanas
A renda diária varia entre três e cinco mil kuanzas. Embora pouco, o dinheiro cobre a renda da casa onde vive com os amigos e o que sobra envia para a família.
A entreajuda é um preceito do grupo, porquanto a recepção dos novatos é feita de forma calorosa.
“Sempre que chega um elemento novo e que não tenha onde ficar nós o acolhemos. E desta maneira nos tornamos cada vez mais unidos” disse.
António Luís, 18 anos, também natural de Benguela, vive e trabalha no mercado do Kikolo. Há dois meses, por influência dos amigos, abandonou a sua província de origem e instalou-se numa das casas de processo desse mercado. “Pago diariamente cem kuanzas e passo a noite nas casas de processo, mesmo aqui no mercado”, disse.
O pequeno lembra que quando chegou a Luanda assustou-se com a quantidade de viaturas e o movimento de pessoas. Mas a intenção era maior que o medo.
À semelhança dos colegas, José Manuel, natural da província do Huambo, veio para Luanda em busca de melhores condições de vida e foi no mercado do Catinton onde encontrou subsistência.
Questionado pela VIDA se gosta daquilo que faz, disse ser uma actividade laboral como qualquer outra, onde consegue o suficiente para si e para a sua família.
Por sua vez, Pedro João, 25 anos, natural do Lubango abandonou a família há duas semanas e veio para Luanda, na esperança de vida melhor. O mercado do Catinton foi o local escolhido.
Decidido, sem alojamento, nem familiares instalou-se com os amigos no mercado local onde vive e tem o seu negócio.
“Estou em Luanda há 15 dias e vivo mesmo aqui no mercado”, disse Pedro salientando que “têm sido dias difícies. Luanda é uma cidade exigente”, disse.
Entre animais e mercadorias, os pequenos abandonam os pais e a sua terra natal com destino à capital do país em busca de uma vida melhor. Chegados a Luanda têm os mercados como lugares de referência. Kikolo, Congolenses, Kuanzas e Catinton constam entre os preferidos. As casas de processos nos diferentes mercados tornam-se moradias para a maioria. Ao preço diario de 100 kuanzas, usam--nas apenas para pernoitar e guardar os seus pertences.
Após algum tempo de prática, os roboteiros abandonam os mercados e optam pelos armazéns de maior destaque onde permanecem à porta no apoio ao transporte de mercadorias, Hoji-Ya-Henda e Congolenses são locais de preferência.
A estadia em Luanda é temporária porquanto a meta é: vencer na vida e regressar à terra de origem.
“A intenção é juntar algum dinheiro e regressar à nossa terra de origem” explicou José Manuel.
O mestre Sabino Changa é um dos mais requisitados carpinteiros do mercado do Catinton. O profissional abandonou o fabrico de mesas, cadeiras, portas, camas e armários para se dedicar exclusivamente à manufacturação dos carros-de-mão.
“Existe muita procura deste produto e o seu fabrico não nos ocupa tanto tempo. Por semana posso vender mais de seis carros de mão”, disse o carpinteiro.
Carpinteiro há oito anos, abandonou o mercado do kikolo local onde se dedicava à carpintaria geral e hoje destaca-se entre os carpinteiros do Catinton, mercado onde trabalha há dois anos.
Madeira, pregos, cola e um pneu de automóvel são os materiais utilizados no seu local de trabalho.
“Todo o material é proveniente do mercado da Madeira e o lucro é de dois mil kuanzas por cada carro construído”, explicou.
Por sua vez, o mestre Alberto Zeferino Nhanga, carpinteiro há cinco anos no mesmo mercado, garante que o negócio é rentável. “Os nossos maiores clientes são jovens provenientes das províncias de Benguela, Huambo, Lubango e Cuando Cubango que vêm a Luanda à procura de melhores condições de vida. Com o que vendo sustento a minha família”, disse.