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Luanda
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A cerveja que não se bebe

É frequente que sejam as proibições do médico a retirarem-nos o prazer vegetal que acompanha uma rica cerveja bebida em boa companhia.

Outras vezes são os súbitos mal-estares do corpo que se empenham em estragar-
-nos o fim de tarde carregado de ilusões ou a noite cheia de promessas, dois gloriosos momentos da vida inventados pelo Criador com o fim único de nos recordar que a vida 
é bela e pode ser infinitamente melhorada se não a afastarmos demasiado do sabor ouro-espuma daquele líquido tentador.

Graças a Deus, descontando alguns quantos achaques que vêm com o inevitável peso dos anos, eu e a maior parte dos meus amigos ainda não enfrentamos o pior da lista clínica que nos proíbe de comer esta e aquela iguaria ou de beber este e aquele destilado, os célebres avisos vermelhos relacionados com um vigor jovem que se perdeu para nunca mais ser recuperado.  

Lidamos portanto com a cerveja como quem tem fôlego para fazer as duas partes dos jogos de futebol dos campeonatos 
mais exigentes.

Mas paira no ar uma ameaça mais forte que os cortes dos nossos amigos médicos que, por nos quererem muito, estão sempre a tentar encontrar a fórmula perfeita que nos deve conduzir aos caminhos da vida longa. E essa ameaça chama-se… Luanda!

Por causa da grande cidade, já temos baixas de peso no grupo: muitos dos nossos viraram costas à cerveja, porque a fama de cidade mais cara do Mundo que cobre Luanda e os seus sinais impetuosos estão 
a estreitar a margem de manobra dos 
chefes de família conscienciosos.  

Dito sem rodeios: está a ficar difícil sustentar, entre muitos outros, o prazer 
de uma boa cerveja numa esplanada 
de aparência decente ou num restaurante 
de nome feito.

As conversas no grupo de amigos com quem tento materializar o rito existencialista de fechar entre espumas 
de cevada, uma vez por outra, as semanas de maior desgaste laboral, são um sinal que assusta. Nos últimos tempos, falamos com uma melancolia digna de uma colónia de septuagenários senis com os tostões da reforma desvalidos pela inflação, e isso dói--nos profundamente. Já não somos 
os mesmos, na verdade.

Parece que um misterioso colapso da memória transformou-nos repentinamente num bando de velhos caducos, incapazes de filosofar sobre as bondades da cerveja e a arte dos seus mestres à medida que refrescamos as gargantas, ou de apreciar os sussurros e silêncios que fazem das esplanadas à beira mar os mais idílicos lugares depois da folia dos carnavais.

O nosso tempo, agora, perde-se com longos e entristecidos lamentos sobre 
o preço absurdo da cerveja e tudo o que lhe 
é próximo, desde o bife rijíssimo 
à ginguba que nunca nos dão, como 
se a pobre desmerecesse a honra de fazer parte, também ela, do festival desgovernado de roubalheira a quem se descuida e resolve vaguear pelos lugares da geografia turística da caríssima Luanda.

Por menos do equivalente a 5 dólares ninguém bebe um vulgar fino ou uma cerveja das que exigem sempre um 
regresso à fonte, de tão minguado 
o conteúdo.

Para todos os meus amigos, a sensação 
é devastadora: andamos a ser roubados 
de maneira descarada!

A força anímica que estimula novas saídas ao encontro daquele velho prazer responsável pelos mais belos tratados 
de boémia no Mundo está reduzida 
a algo residual e é muito provável que muitos de nós tenhamos de abraçar o caminho da desistência. De facto chefes de família como a Bíblia os quer não  podem arruinar o orçamento de casa do modo como querem que o façamos os proprietários de grande parte das casas dedicadas à boa vida 
no crítico perímetro da capital.


Por menos do equivalente 
a 5 dólares ninguém bebe 
um vulgar fino ou uma cerveja das que exigem sempre um  regresso à fonte, de tão minguado 
o conteúdo. 



Luis Fernando
3 de Dezembro de 2010
11:57
 
1
 

Comentários

  1. CARLOS SEMEDO
    2010-12-06 12:29:07
    Caro Luis Fernando. De Norte a Sul da Angola um dos simbolos mais recordados por todos nós já séculos eram as esplanadas com pessoal de todas as classes sociais, bebendo finos gelados da Cuca, sempre acompanhados: kroquetes, ginguba, camarão e dobradinha. Morava cerca de Mutamba e regressados das aulas, com meus colegas do liceu o Móninhas, Morais Sarmento, sentava-nos a refrescar e lanchar. Não me lembro do preço, sei que os estudantes comiam e bebiam ao por do sol. Ainda mais Luis Fernando, algo está errado. Num País quje poderá ter uma força turistica ímpar em África, que se deixem morrer tradições gastronómicas, e então as mais populaes.
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