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A ceia de Seia

O meu primeiro natal em ambiente de frio e neve, o mais próximo que até hoje consegui do original

Faz agora um ano que vivi o meu primeiro Natal em ambiente de frio e neve, o mais próximo que até hoje consegui do original, que aconteceu há mais de dois mil anos em Belém.

Possibilitou-o um único factor: a amizade. Que é, em rigor, o único sentimento que dá sentido à nossa condição de humanos, se mantido a salvo do circo bizarro da vida.

Estive com toda a minha família nuclear em Seia, pequena cidade caprichosamente construída no sopé da Serra da Estrela, para dias memoráveis em companhia da minha outra família com sangue português: António Quaresma, a mulher Fátima e os filhos Tiago e Joana.

O espaço que nos acolheu é uma casa erguida numa pequena elevação, permanentemente invadida pelo aroma nostálgico das laranjas e diospiros que caem para o chão lamacento dos pomares dos vizinhos, onde não correm crianças treinadas para afligir os avós. O envelhecimento do interior de Portugal e a fuga tentadora dos jovens para as grandes cidades estão ali estampados, com precisão absoluta, nesse detalhe inocultável.

Foi fantástico sentir-me como num Belém trazido a um futuro de muitos milénios, mais do que os dois que são, em que já não se oferece incenso, mirra e pequenos animais como o fizeram os três reis magos naquele ambiente de esdrúxula miséria material. O Natal, em Seia, fez-se a golpes de boa cerveja e uma farta tábua de queijos, miminho que é uma verdadeira perdição para o meu amigo Quaresma e para a qual arrasta, sem contemplações, todos aqueles que se colocam ao alcance do seu demolidor poder de persuasão.

Esse foi o começo, uma espécie de exercício de aquecimento do futebol, enquanto na cozinha a sinfonia dos tachos se afinava para a noite, que com a sua ceia familiar, reúne o melhor do espírito de Natal.

O frio, que é um castigo ao qual resisto sempre com enorme sacrifício, fez do meu Natal em Seia o mais caseiro de quantos já tive ao longo da vida, a começar pelos da minha aldeia, depois os de Luanda e mais tarde os de Cuba.

Diferente do de Belém, esse Natal nas faldas da imponente Serra da Estrela teve muito de televisão e de mundo global. Deu para saber sobre tudo o que foi acontecendo em Portugal, no continente e ilhas, e as histórias, boas e más, do resto da geografia planetária. Quando a cabeça e a visão ameaçaram entrar em colapso sucumbindo ao cansaço de horas a mais diante da TV, mudei logo de entretenimento: pelas frestas das portas principais, sem hipótese de as manter abertas pela investida brutal do vento de Inverno, fui-me deliciando com os muitos presépios andantes na imagem daqueles pastores de pele curtida a conduzirem repetidos rebanhos de ovelhas por ruas estreitas ladeadas de muralhas com séculos de história.

As pouquíssimas vezes que, naquele 24 de Dezembro, o frio glaciar foi capaz de arruinar o sossego de um corpo, o meu, habituado às altas temperaturas de África, tiveram motivação mais do que vital: idas ao supermercado para reforço logístico da arca com os inovadores barris de cinco litros de rica cerveja e um passeio com onda revivalista, por caminhos estreitos a serpentear entre hortas e pomares, a bordo de um jeep Willys da II Guerra Mundial, que terá servido, sabe Deus, para cumprir que missões tácticas na Europa incendiada.

Quando a noite finalmente chegou, com o mercúrio dos termómetros muito mais perto ainda do índice zero, lá se compôs a mesa familiar para a mais simbólica e nobre das razões pelas quais os humanos se reúnem no dia em que nasceu Jesus Cristo: a partilha. Naquela ceia em Seia reaprendi aquilo que academia alguma de saberes sofisticados jamais ensina, o verdadeiro valor da amizade, ao ver em comunhão fraterna um lendário general das guerras de Angola, um jornalista, um cardiologista com consultório montado na Maianga e uma vintena de homens e mulheres de Portugal, liderados por um professor de História com paixão irrenunciável pela humanização das relações entre as pessoas.

Luís Fernando
23 de Dezembro de 2010
12:07
 
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