Começou na TPA em 1983, entrou como assistente estagiário, teve como instrutores técnicos cubanos e Fernanda Fernandes. Em 1991 resolveu sair do país e buscar outros ares, outros desafios. O destino foi Lisboa.
A RTP acabou por ser o seu primeiro desafio em Portugal, mas, por lá, até ao ano 2000 ainda passou pela SIC, TVI e Sport TV. Lembra que foram anos de aprendizagem e inserção. Dedicou-se a captar imagens desportivas e foi esta especialidade que lhe abriu o caminho das arábias. A Al Jazeera descobriu-a por via de um amigo português com quem trabalhara na RTP.
Filmar grandes acontecimentos é sempre um bom momento, quando um “câmara” sabe que tem um mundo a espera das suas imagens. Cobrir cimeiras da União Africana, por exemplo, é um dos momentos em que a experiência tem de vir ao de cima, para captar os melhores momentos. “Aparentemente aquilo é sempre o mesmo. A mesma sala e os mesmos líderes sentados ou a discursar, o “câmara” tem de saber ler a cena e ver motivos bons de reportagem, transmitir ao público que está a acontecer algo de diferente e isso, muitas vezes, faz-se entre cotoveladas e empurrões. Todos querem a melhor imagem. É um mundo competitivo”.
2500 jogos de futebol
Para um homem que quer ver o mundo, que o quer comprimir na lente de uma câmara, Portugal era importante, mas não tudo. Vai daí, o caminho levou-o ao Qatar, onde trabalhou para a Al Jazeera. Aqui, a cobertura de actividades desportivas foi também a parte maior do seu trabalho, embora tivesse trabalhado para outro tipo de noticiários. No Iraque, por exemplo, diz ter recolhido imagens dos horrores da guerra.
Andou por vários países do Golfo Pérsico e da Ásia. Diz que gostou de ver Beirute no Líbano, um pouco diferente do resto das capitais árabes.
Olhando para trás, conta um pouco mais de 2500 jogos de futebol filmados, entre Copas do Mundo, jogos da Liga Portuguesa, Champions, capeonato do Qatar, taças de África, etc. Mas a sua lente não se ficou pelo jogo que opõe duas equipas de onze jogadores. Contabiliza também 160 jogos de andebol e 320 de basquetebol. É uma experiência vasta que agora põe ao serviço da primeira estação privada de televisão em Angola, a TV Zimbo.
Entre filmar desporto e fazer outro tipo de reportagens diz que o grau de dificuldade não é muito diferente. “O importante é ter o bichinho, o gosto, saber escolher os melhores ângulos e a melhor luz”
Perguntamos-lhe o que vê de erros repetidos pelos “câmaras” mais jovens nas nossas televisões. O enquadramento. Foi a resposta. “O enquadramento do plano da imagem, mal feito, é o mais repetido entre os jovens que se estão a iniciar. Até entre alguns “câmaras” já com algum caminho feito. Outro erro, muito frequente, vem no deficiente balanço de brancos”
A beleza está sempre na história que as imagens narram
Hernani Alves diz que filmar é uma arte. Tem de ser assim, ou nada feito. O “câmara” tem de criar, tal como outros artistas, de outras áreas, reinventam o mundo. “Também o operador de câmara deve recriar o mundo, para que as pessoas o compreendam melhor, até nos dramas, a nossa imagem deve ter outra força, deve transmitir e provocar sentimentos”. Por isso é importante a escolha do ângulo de filmagem, pode determinar muita coisa no resultado final.
Perguntamos também se o mais importante é ter uma bela história como ponto de partida, ou uma boa imagem para contar uma história. “A beleza está sempre na história que as imagens narram” foi a resposta. E acrescentou: “Uma má imagem não conta uma história”.
Maradona, Akwá, Ortado…
Troca emails e telefona a Maradona, o Diego, o “deus argentino do futebol” El Pibe. Esse mesmo. Conheceram-se nas arábias, quando Hernani trabalhava para a Al Jazeera. Apresentou-os Ivan Ortado, antigo capitão da selecção de futebol do Equador. Naquele mundo árabe, Qatar, os falantes de português e espanhol conheciam-se quase todos. Estava presente um outro jogador equatoriano, Cortez. Maradona, o mago da bola, já disse a Hernani, por várias vezes, que gostaria de vir a Angola. “Ele sabe que o nosso país teve uma guerra e que está, agora, estável e a melhorar”.
Akwá foi também um companheiro nos anos de Qatar. “Éramos dois angolanos apenas. Hoje ele é deputado em Angola e eu continuo por trás da câmara e estamos ambos a viver no nosso país”. No Qatar as nossas casas estavam cerca de um quilómetro uma da outra.
A simpatia de Hernani, as afinidades linguísticas e o seu jeito angolano fizeram-no conhecer muitos dos futebolistas latinos que evoluíam no Qatar ou que por lá passavam. “A minha profissão leva-me a conhecer muitas pessoas, algumas delas são grandes figuras e há casos em que nascem grandes amizades”.
O “culpado do penalty”
Quando trabalhava em Portugal, num jogo entre o Vitória de Guimarães e o Sport Lisboa e Benfica, corria tudo na normalidade até que aconteceu uma coisa que transformou aquele jogo num dos mais memoráveis da sua carreira. “Houve uma situação na área do Guimarães em que os jogadores do Benfica reclamavam que se marcasse um penalty por pretensa mão na bola. Na confusão que se cria sempre em situações do género, o Miguel, que jogava no Benfica, resolveu correr para mim para saber se tinha ou não a imagem. Claro que não me pronunciei, não era o meu papel, estava apenas a filmar. Mas o quarto árbitro, os treinadores do Guimarães e o público não gostaram que o Miguel viesse ter comigo. E, de repente, vi-me culpado de tudo, começaram os insultos como se eu tivesse chamado o Miguel. O público começou a dizer – Queremos o preto – Tive de sair escoltado de Guimarães e a Sport TV para a qual trabalhava na altura, não voltou a escalar-me para jogos em Guimarães, com receio de retaliações. Não voltei àquela cidade” Mas a coisa não ficou por aí. Na semana seguinte, quando filmava um jogo em Santarém, acabou por interessar a imprensa desportiva, toda a gente queria falar com o “câmara” da polémica. Dias depois teve de ir a um programa da Sport Tv em que estava o treinador do Guimarães da altura, Augusto Inácio, para reafirmar que não chamara o Miguel.
Outro jogo que mantém vivo na memória foi o do Futebol Clube do Porto contra o AC Milan, quando Jorge Costa e George Weah resolveram “antipatizar-se”. “Naquele jogo estava bem junto ao campo com uma câmara super slow motion, captei muita daquela “confusão”, em que o Jorge Costa acabou com o nariz partido.
O futebol sempre presente
Em Angola jogou pelo Paviterra, onde teve Oliveira Gonçalves comop treinador. Foi ponta de lança. Jogou também no Sporting de Luanda e na equipa da Nocal. Em Portugal evoluiu, enquanto esperava enquadramento na RTP, pelo Sanjoanense, Sta. Maria e Académica de Martim, equipas do escalão secundário. Isso também explica a paixão por captar imagens do desporto rei.
A minha profissão leva-me a conhecer muitas pessoas, algumas delas são grandes figuras e há casos em que nascem grandes amizades.
Tem a família, mulher e filhos, a viver em Londres. Voltou a Luanda onde tem a mãe os irmãos e primos. Diz que assim tem uma parte da sua vida em Londres. “Não podem vir porque ainda não tenho casa própria, enquanto estiver em casa arrendada o melhor é mantê-los lá, sabemos como é instável o arrendamento por cá”
O regresso de Hernani a Angola aconteceu num “momento próprio”. “Eu já estava a preparar-me para voltar, e surgiu o convite de um amigo, o Garnel, com quem trabalhara 15 anos, e que dirigia os meios operacionais da Zimbo. Tudo se tornou mais rápido”
E a readaptação, para quem tem cá uma parte da família, não é um monstro. Além disso há a motivação de estar a trabalhar para um projecto novo, com gente nova e por poder passar o que sei aos mais novos. “Sempre são 26 anos de experiência que posso transmitir aos jovens que agora se iniciam, alguns nunca tinham trabalhado em televisão. Há os que vieram de produtoras e há os que têm agora o seu primeiro emprego, nisso também foi bom o surgimento da ZIMBO”.
Nome: Hernani dos Santos
Naturalidade: Golungo Alto (Kuanza Norte)
Tem família? Tenho. Eu e a minha companheira Maria Velho temos quatro filhos
Cidade que mais gostou de conhecer Buenos Aires (Argentina)
Cozinha faço quase tudo
Prato preferido Funge com muamba de carne seca
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