Recebeu-nos no seu gabinete, no 1.º andar do edifício do Governo Provincial de Luanda (GPL), no departamento da Comunicação Social. Embora ocupado, entre arrumações e telefonemas tudo fez para que a entrevista decorresse até ao fim, num ambiente animado entre piadas e lembranças do tempo de pioneiro.
Homem de mil funções, Ladislau Silva, “Lau” para os mais chegados é jornalista, gestor, actor e já foi radialista, produtor, realizador, repórter e apresentador de rádio e de televisão. Passou ainda pela direcção geral de várias empresas privadas.
Conhecido “porta-voz” do Governo Provincial de Angola (GPL), há oito anos, já passaram por si, três governadores (Simão Paulo, Job Capapinha e Francisca do Espírito Santos), uma comissão de serviço coordenada pelo General Higino Carneiro e na altura também ministro das Obras Públicas e agora trabalha com José Maria dos Santos, actual governador de Luanda.
Na altura, o convite para ocupar a “cadeira” de director foi feito pelo então governador Simão Paulo, em 2003.
“Fui convidado pelo governador Simão Paulo, exactamente para exercer essa função”, explicou.
Segundo o “porta-voz”, o que havia no GPL era um Gabinete de Comunicação de Imagem (GCI), e durante o mandato do ex-governador Simão Paulo, a dinâmica foi mudar o GCI para uma Direcção Provincial da Comunicação Social.
“Fui contactado para assumir esta função e transformar aquilo que era apenas um gabinete de imagem numa Direcção Provincial, com tarefas mais complexas”, disse.
Questionado se é igualmente o porta-voz do GPL, espondeu que oficialmente, a figura do porta-voz não existe no GPL. Mas devido à função que ocupa e pela facilidade em lidar com a imprensa acaba por exercê-la.
Para além da sua equipa de colaboradores, Ladislau trabalha no seu departamento, directamente com sete profissionais, entre eles o Sebastião José com quem esteve na Rádio Nacional de Angola (RNA). Ainda uma rede de jornalistas de vários órgãos sociais disponíveis a colaborarem na divulgação dos programas e projectos do GPL.
Em 1977, Ladislau Silva, ouve pela RNA, o anúncio de um concurso público para locutores de rádio. Estudante do 1.º ano da Faculdade de Medicina, abdica da formação pela paixão pela rádio.
Após o teste, no dia 27 de Maio, é convocado para começar a trabalhar na RNA. “Uma data inesquecível não só pelo ingresso na Rádio mas pelo acontecimento politico. A ´Intentona` do 27 de Maio”, disse.
Foram dez anos ininterruptos na rádio, onde exerceu as funções de locutor, redactor, repórter e chefe da regência de estúdio.
Dos vários projectos da RNA passou pelo programa Trabalho e Luta, Manhã de Domingo, Pio-Pió e Cassulinhas da Bola numa altura em que o sistema electrónico era analógico e as dificuldades várias.
Ladislau passou ainda pela Rádio Luanda Antena Comercial (LAC), onde também foi realizador e apresentador.
“Na LAC passei pelos programas Figuras, Figurinos e Figurões, Vector e o 7/9 com a radialista Orvanda Andrade”, explicou.
Em rádio fez algumas radionovelas entre elas Goodnight Street Fighter, O Crime Não Compensa. No Velho Ninguém Toca, peça escrita pelo falecido escritor Costa Andrade Ndunduma, acerca do saudoso Presidente Agostinho Neto e Na Floresta os Bichos Falaram, uma adaptação do livro de Maria Eugénia Neto.
Convidado a destacar alguns contemporâneos, do tempo de rádio apontou o profissionais Rui de Carvalho, Maria Luísa, Francisco Simon e Manuel Berenguel. E ainda o Rocha Martins, Zeca Torres, Leovigildo da Costa, José Patrício, Raimundo Vilares, Fulano Pitra. E finalmente os não menos profissionais Arlindo Macedo, Laurinda Santos, Amélia Pombo e Joaquim Gonçalves
Destacado profissional da Rádio Nacional de Angola, Ladislau Silva é escolhido pela estação, para enquadrar-se na equipa de reportagem para acompanhar o saudoso Presidente Agostinho Neto e posteriormente José Eduardo dos Santos.
“Acompanhei todas a viagens do Presidente Agostinho Neto, desde a primeira reunião na Fazenda Kadda, na província do Kuanza Sul com os nossos representantes no exterior do país até ao último périplo que fez por todo o país”, explicou.
Durante a entrevista, lembrou-se de uma das últimas actividades do ex-presidente na província de Malanje, onde devido à doença que já se fazia sentir com grande intensidade, o saudoso Presidente quase chegou a perder a voz.
As exéquias fúnebres de Neto também foram transmitidas radiofonicamente por Ladislau desde o aeroporto internacional 4 de Fevereiro até ao salão nobre da Câmara Municipal. “Até a minha saída da RNA cheguei a acompanhar as primeiras visitas do Presidente José Eduardo dos Santos, particularmente a Cuba e a URSS”, explicou.
Precursor de vários programas na TPA entre eles o Janela Aberta, Conversa no Quintal, Nila Show, 3X3 e Os Vencedores o convite surgiu em princípios dos anos 80, feito pelo então director da RNA, Rui de Carvalho, quando este assume a direcção da TPA.
A sua primeira experiência foi o projecto Discoteca. Um programa musical que se dedicava à divulgação das músicas nacionais.
“Foram os primeiros videoclipes feitos e apresentados pela TPA”, disse salientando que “enquanto passavam as músicas, o operador de câmara filmava os pormenores: a mesa misturadora, as capas dos discos de vinil, a letra da música e a mão do operador do som a afinar os graves e agudos”.
Mais tarde é convidado a apresentar o programa Quem Sabe Sabe, um concurso didáctico.
De seguida, a TPA importa do Brasil o programa Você Decide, no qual cabia aos telespectadores escolher o final feliz, entre duas propostas apresentadas.
A partir daquele momento, Lau é integrado nos quadros da TPA e apresenta o programa Explosão em substituição de Francisco Simon e destaca-se ainda como membro criador do talk show diario, Janela Aberta.
“Criei o programa Janela Aberta, numa altura em que ninguém acreditava que fosse possível a TPA fazer diariamente um programa de duas horas de emissão. Mas, hoje, o programa continua no ar”, realçou.
O “porta-voz” integrou-se ainda no denominado Grupo de Criação de Programas da TPA, da qual faziam parte entre outros o profissional brasileiro Eraldo Correia (irmão do cantor Fábio Júnior), Cristiano Barros, Barão e Casimiro Alfredo.
O grupo foi responsável pela criação de programas como o Nila Show, com a cantora Nila Borja, Os vencedores, com Sérgio Rodrigues e o programa de humor Conversa no Quintal com Luís Kifas.
Seguiu-se finalmente o 3X3, pelo que andava pelas ruas de Luanda com uma viatura na promoção do programa.
Após uma temporada como produtor e apresentador de televisão, Lau dá a cara pelo Pecado Original, projecto de ficção da TPA, onde contracenou com os actores Rui Cardoso, Amélia de Aguiar, Paula Kiluanje, a actriz Totonha e outros. Seguem-se outros projecto de ficção.
“A interpretação que mais projecção me deu foi o papel que fiz na telenovela Reviravolta. Mas o primeiro foi o Pecado Original”, explicou Ladislau Silva.
A proposta para a ficção surgiu através do convite de um casal de actores e realizadores cubanos (Reinaldo e Ana Bela Cruz Vera), numa cooperação entre a Televisão Popular de Angola e a Cubana.
“O casal pediu-me para ler e interpretar um texto, o que não foi muito difícil, porque já havia feito algumas rádio-novelas. E fui seleccionado”, explicou o actor.
Seguiram-se várias outras participações, entre as quais o primeiro grande projecto de teledramaturgia da TPA, Reviravolta, o Vidas Ocultas, Sede de Viver, O Comba, Doce Pitanga, e Entre o Crime e a Paixão.Sobre o papel que mais “gozo” lhe deu de fazer, apontou a interpretação do padre na telenovela O Comba. “Na altura as pessoas interpelavam-me na rua a pedir bênção. Era confundido com um padre na realidade”, disse.
A gravações não atrapalham as suas funções no GPL, pelo que, sempre que é solicitado para um papel faz com que as suas cenas sejam gravadas aos fins de semana”.
A identidade falou mais alto, numa altura em que alguns liceus, escolas e ruas em Angola tinham nomes do regime colonial fascista. Com o início da revolução e independência os jovens começaram a assumir o espírito de angolanidade.
“Começamos a chamar as coisas pelos nossos próprios nomes. E chegou um ponto que nós estudantes achamos que devíamos mudar o nome de alguns liceus”, explicou.
Entre os vários liceus com nomes de figuras representativas de uma cultura portuguesa constava o Paulo Dias de Novais, Dona Guiomar de Lencastre e o Salvador Correia.
Ladislau Silva e colegas, estudante do liceu Salvador Colega, realizaram uma assembleia de estudantes para mudar o nome da instituição e atribuir um nome nacional.
A primeira sugestão foi a de Ngola Kiluange , mas durante a assembleia surgiram os colegas do liceu Paulo Dias de Novais que já haviam atribuído o nome. Seguiu-se o nome do rei dos Kwayama, Mandume mas devido ao tribalismo que se vivia na altura, o nome não foi aprovado.
Enquanto decorria a assembleia no Ginásio do liceu Salvador Correia, Lau e alguns colegas encontram no livro de História o nome de Mutu-Ya-kevala, guerreiro defensor do patriotismo angolano e lutador contra a invasão portuguesa.
“Foi então que tomei a palavra, fiz a apresentação e os estudantes aclamaram. Trocámos o nome português de liceu Salvador Correia para o nacional Mutu-ya-Kevela”, explicou.
Questionado sobre o prato preferido, Ladislau frisou que embora tenha alguns, não os pode comer, porque, segue uma dieta médica rigorosa.
“Infelizmente e por questões de saúde, não posso comer os meus pratos favoritos. Sou obrigado a dietas”, explicou. O profissional do GPL, já teve cinco enfartes cardíacos, possui quatro próteses e segue uma medicação de forma rigorosa. “Devia fazer constantemente ginástica adequada, mas infelizmente as tarefas profissionais nem sempre permitem”, disse.
Segundo o “porta-voz” o seu primeiro ataque de coração ocorreu em 1992 e teve que ser evacuado para o exterior do país, em Paris, França. Mas congratula-se por hoje poder fazer as suas intervenções em Angola.
“Felizmente, temos hoje, dentro do hospital Josina Machel, em Luanda, uma unidade de cardiologia de primeira categoria. E fui tratado de uma maneira igual àquela que tenho vindo a ser tratado desde o meu primeiro enfarte”, realçou.
Além de Paris, Lau já passou também, pelo Instituto do Coração em Portugal e regozija-se, porquanto fora do país a intervenção fica em média 25 mil euros, e em Angola é feita em um hospital público e de forma gratuita.
Apesar de ter sido uma criança introvertida e tímida teve muitos amigos e passou por várias travessuras.
O menor, entre o grupo de amigos, Lau tudo fazia para acompanhar o irmão mais velho nas suas aventuras. E entre outras lembra-se de ter ido a pé com um grupo de cerca de doze amigos mais velhos, da Ingombota ao Autódromo de Luanda, para assistir à inauguração da pista.
“A caminho do autódromo, parámos de noite, numa festa que estava a acontecer na quinta Rosa Linda. Para comer e descansar”, lembrou.
Ladislau recorda-se ainda de uma viagem que fez com o grupo, sem nenhum dinheiro no bolso, para a província do Huambo, para assistir a corrida de automóveis. E chegados ao Huambo passaram a noite nas escadas de um dos edifícios da cidade, de forma a chegar mais cedo à pista, e ocupar um lugar de destaque nas bancadas.
“Durante as corridas assistimos à queda de uma passadeira que suportava os repórteres e fotógrafos. Foi um autêntico desastre”, explicou.
Ladislau contou ainda a aventura em que saiu com os amigos a pé da Ingombota ao Cacuaco, para assistir a corridas de MotoCross.
Reside no bairro da Ingombota, na Avenida de Portugal local onde nasceu e cresceu. Fez o ensino primário na escola 15, na Liga Nacional Africana. O preparatório na escola Emílio Navarro, na Vila Alice que lhe deu acesso ao liceu Salvador Correia.
O pai foi chefe dos correios, pelo que era constantemente transferido para o interior, Catete e Tombwa.
“Devidos às suas ocupações, a preocupação do meu pai era, a de criar um parque infantil, em cada sítio onde esteve”, explicou Ladislau Silva.
Criei o programa Janela Aberta, numa altura em que ninguém acreditava que fosse possível a TPA fazer diariamente um programa de duas horas de emissão.
Após terminar o sétimo ano do liceu, Ladislau frequentou e concluiu o primeiro ano do curso superior de medicina. Em 1978 foi para a República da Checoslováquia, onde fez a formação em jornalismo.
Depois da formação e devido a várias adversidades, fez “ponte” em diversas empresas privadas. Começou na Conoco, uma empresa americana de petróleo, pela qual foi enviado diversas vezes aos Estados Unidos da América (EUA), Portugal e Gabão para vários cursos, entres os quais o de Marketing.
Numa altura em que as relações entre a República Popular de Angola e os EUA não eram as melhores, o papel do profissional de marketing de uma empresa americana era muito delicado.
“Devido à situação entre as duas nações, eu tinham um papel preponderante na empresa”, disse. Depois da Conoco foi director da Moagem do Kikolo, do grupo Maboque, do Hotel Mombaka, em Benguela onde fez um estágio em Portugal no Hotel Riviera. Foi ainda gestor da boate Aquário em Luanda.
“Tive um momento na vida em que fui provar um bocadinho dos outros “pratos”, o que deu-me uma certa noção de como é a vida e uma grande aptidão em gestão e relações humanas”, disse.
Foram várias as telenovelas em que participou. A que mais projecção lhe deu foi interpretação do vilão Marcos em Reviravolta, Ladislau Silva confessa que a que mais “gozo” deu fazer foi O comba com a participação de grandes nomes da teledramaturgia nacional. E na rua era sempre interceptado pelos fãs que pediam a sua benção, confundindo-o com um padre na realidade.
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