Se o ser artista simplesmente o dignificasse como pessoa, dando-lhe um estatuto social que lhe permitisse viver apenas do que faz em termos artísticos, assim gostaria de enfrentar o desafio da vida nos próximos anos. E tudo isso por conta de uma paixão da qual não se desfaz, seja quais forem as circunstâncias.
A sua relação com a arte, de um modo geral, conta-se a partir da década de oitenta, quando a febre dos “grupos” tomou conta dos adolescentes e jovens angolanos. Na sua terra natal, no Bié, Chico Júnior começou por fazer parte do grupo de dança “Os Mini Show”, segundo o artista o terceiro mais influente de então, tendo sido seu coreógrafo. Mas, cedo também teve de ir para Cuba estudar, isto em 1987. E foi nesse país do continente americano, juntamente com outros angolanos, de entre os quais o músico angolano Jeff Brown, que voltou a dar corpo a um movimento dedicado à dança, pela escola número 41, conhecida como Saidy Mingas, nessa data o de maior referência na Ilha da Juventude, coreografando Michael Jackson.
No México, Chico Júnior tem o primeiro contacto profissional com a fotografia. Fruto do pedido de asilo político aceite, é-lhe dada a possibilidade de trabalhar, e é na revista My Tierra, propriedade de uma cidadã argentina, que começa a ganhar a vida como assistente de fotografia. Nessa altura, só ocasionalmente fotografava. “Estive lá durante dois anos, e no primeiro trabalhei como assistente de fotografia. Mas o mais valioso não foi o facto de ter fotografado, mas a formação que eles me deram, que despertou em mim o grande interesse pela imagem”, conta.
Em finais de 1994 regressa a Angola mas não é com a fotografia que trabalha ainda. Exerce a profissão na qual se formou: agronomia. No entanto, a experiência não lhe sai à medida do esperado. Passa por Benguela e pelo Bié mas não consegue enquadrar--se no ambiente que já lhe parecia estranho. “Tinha sempre problemas. Não tinha nada a ver comigo, até porque os cursos lá em Cuba eram dirigidos, e a pessoa era obrigada a fazer aquilo que a escola decidia”, relata Chico júnior, que decide, ao cabo de dois anos, colocar ponto final à agronomia. Graças a um amigo, o Rui Lemos, que lhe chamava a atenção para a sua veia criativa, conhece o responsável da TPA no Bié, e começa a trabalhar como repórter. Nessa mesma altura, o hoje jornalista Nelson Lemos convida-o para ser assistente na rádio, onde passa a fazer o programa radiofónico Voz do Camponês, programa sobre agricultura.
Sem desprimor da redacção, Chico Júnior percebe que não era ali o lugar onde tinha de estar. E começa a apaixonar-se mais pelas máquinas. O seu interesse pela filmografia eleva-se e torna-se operador de câmara que queria ser. Passa a desempenhar duas tarefas em simultâneo: a de operador de câmara e a de repórter. Não tardou para sair a reconversão de carreira e passou a ser o principal operador de câmara do gabinete (era ainda um gabinete) da TPA no Bié. Nessa altura, beneficia de algumas formações em Luanda.
Em 1998, durante a “ofensiva do Andulo”, na província do Bié, há toda uma necessidade de se reportar tal acontecimento. O seu superior hierárquico adverte-o que era a sua oportunidade de dar um salto na sua vida profissional. O repórter era o hoje deputado Luís Domingos, que se deslocou ao Bié com Luís Castro, jornalista português da RTP. Chico Júnior lembra-se de um conselho jamais esquecido até hoje: “Em jornalismo, toda a chance que você tiver para mostrar um bom trabalho e ser conhecido, faça, e esse é um deles”, disse-lhe Luís Domingos. Dito e feito. A ofensiva teve cobertura graças às imagens feitas por Chico Júnior, narradas por Luís Domingos. A seguir a isso veio a transferência para Luanda.
Em Luanda começa a trabalhar em 1999, mas é como freelancer que se notabiliza. Trabalha para “Orion”, para produtoras independentes, algumas estações internacionais como a SIC e a RTP, aliás é um dos fundadores do programa “Pérolas do Oceano” da RTP. Colabora também com produtoras internacionais que vinham a Angola para fazer documentários. Toda essa experiência e o seu auto-didactismo permitiram-lhe começar a produzir e a dirigir por sua própria iniciativa. Produz uma série de vídeo clipes e spots publicitários. Cria a “J-Filmes, Oficina de Arte e Comunicação”, através da qual vem fazendo uma série de trabalhos audiovisuais.
Aliou a filmografia à fotografia, duas áreas que andam de braços dados na sua vida profissional. Participou em várias exposições colectivas, entre as quais se destacam duas de maior impacto, uma em Angola, no Banco Espírito Santo Angola, e em Zanzibar, com uma mostra à qual intitulou “Côncavos e Convexos”. “Foi uma abordagem sobre os efeitos do racismo, que interfere no desenvolvimento das nações. Côncavos e convexos porque são duas lentes, uma côncava e outra convexa, mas o denominador comum é a lente. Portanto, não adianta se a cor é branca ou preta, todos somos seres humanos. Retratei através das fotos”, explicou.
Afirmando-se como fotógrafo, Chico Júnior teve o seu momento áureo em 2008, quando obteve o segundo lugar do concurso BESA Foto.
Fruto de uma parceria com o produtor independente Izaquiel Pedro, que é igualmente mentor do projecto, realiza o documentário Quem somos, um retrato historiográfico sobre a vida dos Khoisan. Chico Júnior adicionou à perspectiva fílmica do projecto uma exposição fotográfica que retratou o modus vivendi desse grupo, que está em risco de extinção. Ainda nessa perspectiva, está a preparar um outro documentário intitulado Culturas Vivas, sobre os “Herero”. “Trata do modo de vida desse povo. As metamorfoses que têm ocorrido e a sua trajectória, desde muito antes de se instalarem no norte da Namíbia e sul de Angola”, concluiu.
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