A conversa decorreu nas instalações da Rádio Nacional de Angola (RNA), na sua nova sala, onde desempenha a função de directora do Canal Internacional (CI) da RNA. Ocupada nas suas tarefas, a directora atendeu a nossa reportagem e falou-nos abertamente dos desafios e metas do seu novo posto, da sua ligação com a moda e o Comité Miss Zaire. Prefiriu omitir algumas opiniões,como a experiência que adquiriu enquanto jornalista na ex. Rádio Vorgan, na Jamba, região onde passou parte sua juventude. Nguida Paulo foi a responsável pelo baptismo da então conhecida “Voz da Resistência do Galo Negro”, a Rádio Vorgan, onde se destacou na criação de alguns programas como o Redescobrir a África e Nós Você e a Noite. Mas confessa não ter lá chegado por “livre e espontânea vontade”.
Qual é a estratégia de comunicação do Canal Internacional (CI)?
É a de espelhar a realidade do nosso país para o mundo, reflectir os problemas locais e os da nossa comunidade no estrangeiro. Trabalhamos com cinco edições em línguas internacionais que são o francês, o inglês, português e o lingala. Há ainda uma edição suplementar desportiva. Actualmente o CI está centrado no aumento paulatino de outras línguas a começar pelo Swahili que é falado em grande parte da região Central e Austral de África. Estamos ainda a levar a cabo uma reportagem de fundo, com a comunidade angolana que reside com o estatuto de refugiado no estrangeiro.
Há possibilidade de reestruturação do CI para transmissão diária e mais tempo de antena?
O CI já tem transmissão diária de quatro horas de emissão, das 21h00 à 1h00 da manhã de Segunda a Sexta-feira. Aos Sábados emitimos das 22h00 às 2h00 da manhã, com uma transmissão totalmente virada para a interacção com os ouvintes, um programa mais fluido com dedicatórias. Recebemos telefonemas de todas as partes do mundo como os Estados Unidos, Inglaterra e de vários países africanos, na sua maioria.
É uma iniciativa do ministério ou da direcção do canal?
É uma politica e estratégia do Conselho de Administração da Rádio Nacional de Angola.
A RNA foi recentemente reestruturada. Acha que a medida acarretará mudanças?
Qualquer mudança acarreta consigo uma nova organização funcional e uma estrutura de trabalho. Por isso e para isso foram criados os Conselhos de Administração.
É um dos pivots do serviço noticioso na RNA. Há quanto tempo trabalha em comunicação?
Estou há 37 anos na comunicação social. Formei-me no ex Zaire, actual República Democrática do Congo em 1976. Exerci o cargo de directora da Emissora Provincial de S. Salvador, hoje Mbanza Kongo até 1978. No ano seguinte entrei para a Rádio Vorgan onde fiquei até 1992. No final desse mesmo ano, a vinte de Dezembro, ingressei para o quadro de funcionários da Rádio Nacional e fui colocada na Direcção de Informação onde comecei simultaneamente a apresentar os noticiários. Já fui realizadora, sub-editora e agora sou directora.
Nguida Paulo é conhecida também pelo seu saudável relacionamento que tem com os seus filhos. Durante a guerra e após o seu regresso a Luanda, cerca de 18 anos depois, Nguida enfrentou uma nova realidade: a separação dos cinco filhos.
“No meu regresso a Luanda e devido as condições socioeconómicas e politicas, vi-me obrigada a afastar-me dos meus filhos, que de se deslocaram ao exterior do país, para estudarem. Foi uma decisão muito dura, mas necessária.”, disse Nguida Paulo.
Na altura a filha mais nova, Helga Paulo, tinha apenas cinco anos de idade. E os países escolhidos foram a Alemanhã e Portugal.
“Três deles foram para República da Alemanhã e dois para Portugal, aos cuidados de um irmão meu”, explicou.
Felizmente, sempre que pudesse Nguida Paulo deslocava-se ao exterior do país para visitá-los, o que causou a forte ligação que tem com todos os seus filhos
“Sempre que lá fosse voltava com mais alento e é isto que me segurou cá em Luanda, durante todos esses anos distante dos meus filhos. Actualmente estão todos cá em Angola. Os cursos escolhidos foram entre outros os de serralharia mecânica e relações Públicas e Internacionais”, disse.
Como foi que tudo começou?
Formei-me com uma bolsa de estudos da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA). A minha formação periodizava a apresentação de notícias no Governo Revolucionário de Angola no Exílio. Portanto, desde logo especializei-me e me habituei a fazer e a apresentar notícias. Essa é de certeza a minha grande paixão.
Teve um incentivo em particular?
Nem por isso. Foi o simples facto de gostar daquilo que eu faço. Este é o grande incentivo para o meu trabalho.
Guarda consigo algum dissabor por que terá enquanto funcionária da ex Vorgan, na Jamba? Ou prefere não falar disso?
Sem ressentimentos. Sem mágoas. Acho que muitos de nós fomos vítimas de todo um processo. Mas deixemos ficar o passado lá onde ele está guardadinho para as feridas sararem e cicatrizarem. Estamos numa fase de Angola em paz, (...). As relações humanas são desenvolvidas independentemente de qualquer interferência que possa haver nas nossas vidas. Somos todos filhos de uma Angola que clama pelos seus, todos filhos de uma mesma pátria que nos quer congregados a volta dos seus interesses mais sublimes. Afinal somos todos Angolanos, todos irmãos.
Tem uma “veia” ligada a Moda. Tem projectos específicos em carteira?
Tenho. Um dos meus projectos é montar uma escola-internato de artes e ofícios no NZeto para meninas desfavorecidas, para a produção de tecidos manufacturados. Com principal pendor para o ensino da tecelagem, corte, design, costura, lavagem a seco, tratamento de roupa e panos africanos.
Qual é a linha que segue?
É uma tendência africana com algum cunho ocidental. Os nossos padrões africanos têm uma carga de cor muito intensa, e para responder as exigências da juventude é necessário fazer uma miscelânea com alguns padrões mais liso. Mas dando sempre o toque africano sem desprimor das roupas ocidentais. Baptizei a minha linha com o nome de Afritons que significa, os mais variados tons de África. O mais importante é nos embrenharmos pelo mundo da pesquisa das matérias, dos acessórios, das tendências da própria moda africana, da sua evolução que não é estática mas sim dinâmica.
Há quanto tempo está ligada a moda?
Desde os tempos dos meus estudos no Zaire começou o meu namoro, a minha paixão por esse reencontro com África. Na altura as mulheres africanas vestiam-se muito timidamente de trajes africanos, e quando o faziam era apenas para assinalar algumas datas como o Dia de África e o da Mulher Africana.
O que acha dos eventos de moda em Angola?
Funcionam como elementos de alguma pressão, se tivermos em conta que os esforços de galvanização da moda em Angola não são acompanhados pela produção de matérias primas necessárias para o efeito. Muita das vezes não interessa estarmos virados só para África, as pessoas procuram timidamente os nossos produtos. Mas nesses eventos existem estilistas que dão o melhor de si para que esse cunho africano tenha realmente a necessidade de ir ao encontro das pessoas que procuram o produto africano.
Faz parte da presidência do Comité Miss Zaire?
Sim. Estou há seis anos no CMZ. Todos os anos somos chamados para redefinir aquilo que são as linhas de acção. O bom funcionamento dos comités locais depende em grande parte dos governos provinciais.
Se tivesse que eleger um melhor momento da sua carreira qual seria?
Foi na altura em que apresentei do meu primeiro noticiário em directo, na RNA, a partir de Luanda, na companhia do jornalista Arlindo Macedo.
Que apreciação faz do jornalismo pós-guerra em Angola?
Pessoalmente não acredito na existência de um jornalismo pós e pré guerra porque para mim jornalismo adequa-se sempre a realidade de cada momento e de cada etapa da vida de um pais. Jornalismo é e será sempre jornalismo desde que pautado na isenção e na imparcialidade.
Finalmente, se tivesse que partilhar connosco um momento engraçado da sua juventude no Sambizanga qual seria?
Fui uma menina muito traquina. Chovia a cântaros e resolvi na companhia de alguns rapazes da minha idade (era menina rapaz) pregar uma partida aos “velhos” que regressavam das chamadas tabernas depois do convívio com os amigos. Escolhemos um lagoa e colocamos na extremidade de um fio de pesca uma boa caneta parker, que surripiei ao meu pai. Só que para mal dos meus pecados quem caiu na armadilha foi exactamente o meu próprio pai. Escusado será dizer que apanhei um surra danada (risos).
Nome Completo: Margarida Sebastião NGuida
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