Diz a velha máxima que filho de peixe peixinho é. É essa a história de Kizua Gourgel, filho do malogrado músico, compositor e humorista Beto Gourgel.
Herdeiro de um dom que lhe permite hoje afirmar-se, não mais como uma promessa, mas como uma firme certeza, o jovem vem dando continuidade àquilo que o seu pai deixou como legado. Para quem o conhece e o vê cantar é impossível não lhe notar semelhanças com a música daquele que o gerou e que, segundo Kizua, nunca o obrigou a aprender a tocar, nem a mesmo a gostar de música. Tudo foi espontâneo.
O dom é-lhe natural e ter-se-á revelado na convivência familiar, quando junto com a família, orquestrados pelo pai, iam tocando e cantando em horas livres. “Em casa, o meu pai constantemente pegava na guitarra. A nossa distracção em casa era a guitarra. Cantávamos todos, inclusive as minhas irmãs e a minha mãe que cantava com o meu pai. Ficou intrínseco em mim e até hoje se reflecte. Quem me ouve tocar guitarra e ouviu o meu pai, vai perceber que temos coisas muito próprias, temos coisas muito similares, que eu absorvi, e já reproduzo mesmo sem querer. São coisas que ficaram marcadas”, afirmou.
O início de carreira foi algo confuso. Na opinião de muitos, o menino que viam cantar era ainda a sombra de Beto Gourgel. Logo, nunca o tratavam por Kizua, quando o vissem cantar, mas sim, “o filho do Beto Gourgel”.
“Esta foi uma das coisas das quais eu queria muito me dissociar, mas o tempo fez isso por mim. Porque antes muita gente dizia: «Olha, é o filho do Beto Gourgel». Hoje não, hoje me respeitam como Kizua, mas tenho plena consciência de que para quem conhece os dois é impossível dissociar. Conforme fui aparecendo, e à medida que fui apresentando mais trabalhos meus, hoje as pessoas tratam-me por Kizua e depois é que se lembram que é o filho do Beto”, frisou.
Foi a primeira vez que pisou um grande palco. “Apareci nos jornais e na televisão, como pessoa independente que ganhou um prémio. E acho que aí foi o início da minha carreira a solo, porque antes disso ainda estava nas Gingas. Como não aparecia com temas meus, com a minha musicalidade, as pessoas diziam: ‘olha lá o filho do Beto Gourgel, armado que vai ser músico’. Mas acho que a coisa começou a partir do festival. Não foi exactamente aí que a coisa singrou como tal, mas aí começou”, lembrou.
Depois de ter vencido o festival, apostou num projecto maior, um single. “Foi na altura do lançamento de “Tetembwa ya Mwenho” que as pessoas começaram a respeitar-me um bocado mais como Kizua”. Foi também com esse single que recebe outros prémios, como a de “Melhor Balada” No Top Rádio Luanda, para a música “Depois do fim” com participação de Yola Semedo e também o prémio de “Melhor Trovante”, pela Casa Blanca.
São poucas as pessoas que conhecem a sua passagem pelas Gingas do Maculusso. O artista que entrou muito cedo para o grupo reconhece-o hoje como parte da sua vida e da sua escola musical. “Entrei nas Gingas com cinco anos de idade. Depois fui para Portugal aos sete anos e voltei aos 16 e só saí quando tinha 22 anos. Tenho uma história enorme com o grupo, na senda pessoal e na senda musical. Foi o projecto ao qual dediquei mais tempo em toda minha vida”, contou-nos, acrescentando ainda que “Cresci muito lá, aprendi muito. Dei muito de mim ao projecto e recebi muito também”, admitiu.
Foi uma das grandes atracções do Festival de Jazz de Luanda, edição 2011. Considera ter sido até agora a melhor coisa que lhe aconteceu este ano. “É realmente gratificante para um artista como eu poder dividir o palco com nomes tão grandes. Ainda por cima é um festival de jazz que faz parte do percurso internacional dos festivais. Acho que foi um espectáculo muito bom. O feed back que tenho recebido das pessoas é óptimo. As coisas correram bastante bem. Até hoje ainda estou um pouco emocionado com o que aconteceu ali. Ter levado a minha música e ter tido a sorte de ter sido em casa e ter tido a minha claque, os amigos a apoiar. Foi muito bom”, disse-nos Kizua.
Kizua assumiu que sempre quis gravar um disco a solo, mesmo quando estava com as As Gingas. O facto de ter sido sempre compositor, atiçava-lhe cada vez mais a essa pretensão. Muitas foram as vezes em que se questionou pelo simples facto de ter capacidade de interpretar os seus próprios temas, e por se tratar de coisas muito pessoais, não poder tirar o seu próprio disco, onde tivesse as suas próprias composições interpretadas por ele ou por outros. “Sempre houve essa tendência. A partir da altura em que eu ganhei o “festival da canção” foi uma aposta nesse sentido, de começar uma carreira a solo.
O músico define-se como um artista bastante exigente, com um certo nível musical e que precisa defender, pelo que gostava de fazer as coisas sempre nesse nível. Situações adversas ao grau de exigência, que se a si próprio se impõe, levaram a que até hoje não visse concretizada a ideia do CD. “Queria tirar um disco, mas os apoios que apareciam na altura não eram o que é hoje, porque o nosso mercado já permite muita coisa. Eu pedi apoios, porque o tipo de música que eu faço é caríssimo. E quando eu dizia os valores que necessitava para fazer um disco acústico com a qualidade que eu queria, as pessoas chamavam-me de doido”. Daí a necessidade de ter começado com o single “Tetembwa”, como ideia de um passaporte, de um documento que pudesse demonstrar às pessoas qual era o seu valor musical, ”porque na realidade as pessoas não tinham essa noção. Sabiam que tocava muito bem porque eu faço bar”.
É essencialmente um músico de bar, para quem não sabe. E sustenta a sua tese: “O ser cantor de bar não significa ser mais ou menos músico”. Segundo o artista, os verdadeiros músicos, todos eles, passaram pelo bar, salientando que “o bar é o local de competição constante do próprio artista” e “os palcos grandes excepções”. O sítio onde ele pode ser mais intimista e manter sempre contacto directo com o público. “Houve uma altura em que a minha antiga editora sugeriu-me trabalhar apenas no meu single e deixar de fazer bar. Depois senti-me mal, porque gosto de fazer bar. Dá-me imenso prazer e acho que me mantém lubrificado, e permite que tenha uma outra forma. Porque eu sou trovador também. Eu e a guitarra podemos fazer muita coisa”, disse-nos.
Tal como aconteceu consigo, a história volta a repetir-se, só que agora com os papéis investidos. Ele na qualidade de pai e o seu filho Diege Gourgel, de oito anos, como um menino que se lhe vai notando já alguma tendência para música. Embora o pai diga pretender não forçar nada e deixá-lo ser o que é. “Porque o meu pai também foi assim. Ele nunca me atirou uma guitarra aos braços e disse: ‘olha, toca’. Aliás, quando eu quis, ele disse ‘está aí a guitarra e toca o que tu quiseres’. Só depois é que foi tentando corrigir alguma coisa aqui e outra ali. Nunca me ensinou a tocar. Ensinou-me tocando. Ele a tocar e eu a ver”, referiu Kizua, acreditando que o seu filho deverá ele próprio deixar que a musicalidade e a arte que existe nele se revelem.
Sem revelar o título e somente pormenores técnicos, como o caso de se tratar de um CD acústico, Kizua Gourgel disse que o projecto está incompleto. “O disco está pronto, mas vai havendo alguns atropelos pelo grau de exigência que eu tenho, para que o disco saia como eu quero ou então nao vale a pena”. No entanto, está tudo preso ao detalhe, faltando ser editado e preparar a campanha em volta da promoção do mesmo.
“Porque hoje em dia um disco, que é um produto, se não for promovido de forma adequada não rende, porque há investimentos ali feitos. Há outras pessoas que investiram ali dinheiro e que precisam ver o seu retorno, naturalmente. Então há que haver um processo de marketing à volta do produto, para que o produto possa ser devidamente vendido”, esclareceu o músico, cujo trabalho deve sair com em sua própria editora, a “Lehtinen”.
O músico pretente concluir o seu primeiro grande projecto, que começou com o single, oferecendo uma outra nuance do que tem sido a sua capacidade de criação. Mas enquanto não chega o disco, Kizua vai-se sentindo incompleto, e incapaz de apresentar novas propostas.
“Um disco é sempre um patamar. É o marcar de uma época do músico e realmente eu preciso de me livrar desse processo para que possa entrar num outro. Cada disco é uma nova etapa. Estou numa nova fase musical, mas tenho que ainda guardá-la, porque ainda preciso de apresentar o projecto que começou com o single. É preciso concluir antes este projecto porque existe um percurso que precisa ser respeitado. Porque se agora começo a tirar músicas mais recentes, o que está para trás perde o valor. O público precisa de ter acesso ao meu percurso, onde começou, onde estou, e onde vai dar”, concluiu.
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