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Em Luanda

Pequenos negócios de grandes sabores

“O bombó é uma comida da terra”, disse Feliciana, vendedeira dos famosos quitutes da terra (bombó, ginguba, banana e milho) que chega ao seu ponto de trabalho, que fica numa das esquinas da Avenida 21 de Janeiro, às 6 horas da manhã.

A vendedeira ocupa um espaço onde, durante a noite, fica estacionado um hiace azul e branco, tendo que esperar, para poder trabalhar, que este saia para o seu trabalho de táxi, por onde fica o dia todo. “Na hora que eles tiram o carro, por volta das seis ou seis e meia, é a mesma em que começo a arrumar o espaço para montar o meu negócio”, realçou.

Os produtos que estavam expostos na bancada da mana Feliciana, como é conhecida, são o bombó assado e o bombó frito (ao preço de 25 AKZ pelo pedaço pequeno e 50 AKZ pelo grande) e a ginguba (50 AKZ pela quantidade que ocupa a lata pequena de massatomate) que ela assa logo ao chegar ao seu posto de venda. Há vezes em que, às 5:00h da madrugada, a vendedeira opta por assar na sua casa. No momento da entrevista não havia a banana à venda na bancada da vendedeira, por, no mercado angolano, estar cara neste momento. Mas a vendedeira mencionou que comummente os preços andam entre os 50 e os 100 AKZ, dependendo, tal como tudo que vende, do tamanho.

“As pessoas compram bem”, disse Feliciana, que ao mesmo tempo não tinha noção de quantos clientes recebe por dia. “Compram as pessoas que têm dinheiro, as que não têm…”, e, frisou ainda, nem sempre vende todos os produtos que tem disponíveis no início da sua jornada. Apesar de ter um colégio próximo do seu posto de venda, Feliciana disse que as crianças daquele recinto normalmente não compram os produtos que vende, sendo que os meninos das escolas estatais (que ficam um pouco mais distantes da sua bancada) são mais assíduos. “As pessoas compram por saberem que é comida da terra e que tem mais vitaminas”, rematou.

DEGUSTAÇÃO E EXIGÊNCIA

Os clientes da sorridente senhora têm, de um modo geral, uma preferência pelo bombó bem cozido, seja este frito ou assado. Consoante ao frito, Feliciana disse que algumas pessoas tendem a pedir o que esteja menos torrado por causa da dificuldade que têm ao mastigá-lo.

UM MERCADO INSTÁVEL

A dificuldade de encontrar os produtos abarca também a ginguba, que ultimamente a vendedeira tem comprado ao preço de 400 AKZ pelo quilo de ginguba vermelha. Existe uma pequena variação no preço da ginguba branca (que estava naquele momento a venda na sua bancada), que ronda os 210 e os 250 AKZ, dependendo da pessoa que a vende. Sendo estes os preços, o rendimento diário é muito baixo. Boa parte das mulheres que vendem tais produtos não têm noção da facturação diária. O dinheiro é usado para as necessidades básicas urgentes como comprar água, alimentos para o pequenoalmoço e jantar, sabão para lavar a roupa e pouco mais, tal como acontece com Feliciana.

UM ALMOÇO SEM “KETCHUP”

Um pouco mais a frente, ainda na avenida 21 de Janeiro, foi encontrado a comprar milho assado um cidadão huamboense chamado Angelino Chingala, 30 anos, que, passados 47 minutos das 12 horas, fazia de uma massaroca, que comprou por 100 AKZ, o seu almoço. O trabalhador, vulgo roboteiro ou bagageiro, daquela área do distrito da Samba disse que aquele tipo de alimento serve como remédio para a sua fome quase sempre. A quantidade de milho que come depende, normalmente, do grau da fome que tiver. Mesmo assim o máximo que compra por dia são duas vezes, para não gastar muito dinheiro. No fim do dia, ao chegar a casa, alimenta-se de arroz, que classificou como “à toa”, tendo até dito numa comparação lúdica, que as jornalistas nunca tinham comido algo do género, ou funge acompanhado de carne ou peixe. O seu filho de 5 anos ainda não conhece o sabor do milho assado, por não passar o dia na rua e por ter outro tipo de refeição preparada pela mãe. Durante a reportagem, outros clientes procuraram o milho por um preço mais baixo, o de 50 AKZ, tendo todos eles afirmado, por outro lado, que o preço de 100 AKZ não é muito alto. Sónia da Conceição, tia São como é chamada, 34 anos, vende os seus quitutes também na Samba, há 12 anos, exactamente onde comprou Angelino Chingala. As pessoas que compram no seu posto são os automobilistas e os vendedores ambulantes. Tal como disse Angelino, a massaroca é vendida por 100 AKZ. Estava à venda também a ginguba e quem quisesse podia fazer a combinação dos dois produtos. O milho é adquirido por “contagem”, ou seja, três massarocas a 120 AKZ, disse Sónia, que realçou que o rendimento é médio, e que serve para o principal que é comprar o “pão” para os seus filhos. A grande procura é pela banana-pão que não tinha à venda naquele dia. Naquele exacto momento, naquela rua muito movimentada e barulhenta, caracterizada pelo som dos motores dos carros a trabalhar, pararam ainda duas zungueiras, que apesar de não gostarem muito de milho, segundo disseram, o alimento chamou-lhes o apetite e compraram uma massaroca para cada uma.

UM SERVIÇO “TAKE AWAY”

“Isto é uma pracinha nossa”, disse a vendedeira que no início da conversa recusava-se a dizer o seu nome e que ao fim de uma conversa de 12 minutos disse chamar-se Rosalina Balombo, 45 anos. O lugar que fica na área do Futungo de Belas alberga 7 mulheres que tinham à venda tomate, cebola, cenoura e outros produtos. E, como interessava a VIDA, o bombó, a ginguba, a banana-pão e o milho, todos prontos a comer. A venda naquele ponto é feita principalmente para os automobilistas que, ao comprarem, têm, por regra, direito a um saco para levarem os produtos para onde quiserem. Os produtos lá vendidos saem de uma horta que fica atrás da “pracinha”, da qual as 7 mulheres são proprietárias. Compram os produtos no mercado apenas quando a sua horta não está pronta para a colheita, para “não perder clientes”. O que é um inconveniente, porque os lucros tornam-se ainda mais baixos.

O preço mais baixo que costumam encontrar é de 4 massarocas por 100 AKZ, sendo que nesta altura têm estado a comprar 3 por 120 AKZ. Incluindo os gastos da transportação, a situação só vem piorar. No turno da manhã, as vendas são muito baixas, por outro lado, as vendedeiras afirmam que o facto de terem criado uma praça particular evita o pagamento de impostos, situação que vivem as vendedeiras dos mercados municipais. Existe um grande equilíbrio na venda dos variados 1, 2, 3 e 5 A venda de quitutes no Futungo de Belas 2 A Tia São da 21 de Janeiro produtos, sendo que não existe um que seja mais procurado que outros. Para aquelas mulheres venderem naquele lugar conta também a tranquilidade. Mariana, 50 anos, é viúva há 16 anos, cuida dos seus filhos sozinha desde então, o lucro de 500 AKZ por cada 2 000 AKZ gastos só serve para os gastos relacionados a educação dos seus petizes.

CHEIOS DE FIBRA, NUTRITIVOS E BARATOS!

A Vida consultou a Doutora Paulina Semedo, conhecida nutricionista, para saber o valor nutritivo de alguns dos nossos quitutes. O facto de serem por muitos comidos todos os dias também foi abordado. A médica fez menção a perda de propriedades que a mandioca sofre ao ser transformada em bombó e também às condições de higiene tidas ou não em conta por essas vendedeiras. 


Que valor nutritivo têm cada um dos alimentos acima mencionados?

O bombô, frito ou assado, não fornece nutrientes consideráveis ao organismo, devido ao processo de fermentação da mandioca que lhe retira alguns componentes. Contudo, não deixa de ser uma opção de fácil acesso, principalmente para aquelas pessoas que andam pelas ruas e que na maior parte dos casos saem de casa sem comer. É necessário juntar ao bombó outros alimentos, como a ginguba que até é rica em óleos e vitamina E. Quanto à banana pão, é uma fruta exótica e é bastante rica em variadíssimos nutrientes que fazem um bem incrível ao organismo. Eis alguns: contém açúcares naturais, responsáveis pela energia de que precisamos para a vida quotidiana; é capaz de proporcionar uma sensação de bem-estar, pois proporciona a formação de serotonina, a hormona da felicidade; para as mulheres melhora as queixas ou sintomas da TPM (Tensão Pré Menstrual) fornecendo a vitamina B6; as crianças, mulheres em idade fértil e doentes com anemia podem beneficiar do ferro e assim produzirem mais hemoglobina; o potássio que a banana tem é útil para o controlo dos níveis de tensão arterial; para a ressaca é óptima. E mais, se desejamos ter mais capacidade de aprendizagem e estarmos mais alertas, então o ideal é que comamos banana. Pois, “não é em vão que os macacos gostam de banana e por isso são considerados espertos!”
 
Algumas pessoas entrevistadas disseram comer tais alimentos diariamente (caso de um vendedor ambulante que faz do milho assado o seu almoço quase todos os dias), teria alguma contra-indicação? É, tal prática, de alguma forma prejudicial à saúde?
Dou os meus parabéns a este humilde vendedor. Comendo milho assado todos os dias ou frequentemente, ele está a receber um dos mais importantes nutrientes, as fibras. Ingerir fibras que provêm dos alimentos hortícolas e legumes faz bem aos intestinos, evitando uma série de doenças, nomeadamente obstipação ou prisão de ventre, diverticulose e cancro. Estudos comprovam o papel preventivo das fibras contra o cancro da próstata, mama e outras formas de tumores. Os níveis de açúcar no sangue podem ser controlados, comendo fibras de forma regular. Isto é válido também para os diabéticos.

 Comente o facto de serem vendidos na rua, estanho expostos a poeira sol e a outros factores?

 A questão da higiene é fundamental para a saúde dos consumidores desses alimentos. As senhoras praticantes desta actividade comercial devem ter conhecimentos básicos de saúde e higiene e quais as doenças mais comuns que podem surgir como consequência da falta de higiene. Aos consumidores recai a responsabilidade de garantirem que pelo menos as suas mãos estejam limpas.

A forma de cozinhar os quitutes protege de alguma forma a propriedade destes?

Com certeza. Cozer ou assar os alimentos de forma correcta, isto é, não demasiadamente, sempre foi a forma mais saudável e indicada de manter as propriedades nutritivas. As frituras acabam agregando mais gordura e se consumidos de forma rotineira provocam danos ao organismo. Para além de contribuírem para o aumento do peso corporal, promovem a formação de placas de gordura na parede das artérias, no fígado e coração.-
Emoline Marieth
18 de Setembro de 2012
17:38
 
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