
“Tudo tem a ver com Angola”. É desta forma que Mário Tendinha resume o seu projecto artístico Ngola Mirrors, patente no Instituto Camões até ao próximo dia 18 de Outubro. Através de desenhos e uma instalação, o artista pretende fazer “uma tentativa de participação na dura e incansável batalha diária, através duma representação estética moderna”.
Os 30 desenhos a tinta da china expostos abordam algumas questões críticas do ponto de vista social. “Penso que há uma crítica sublimada, e às vezes subtil, sobre questões sociais que ainda estão por resolver no país”. Mas para além das problemáticas sociais surgem outros temas como a ecologia. Tudo servido “com uma pitada de humor muito forte, ligada à minha própria personalidade de analisar e ver as coisas”.
A exposição inclui uma estrutura de construção civil “que tem a ver com a reconstrução do país, com o boom existente ao nível da construção e da necessidade de haver essa construção. São precisas milhões de casas porque durante 30 anos não se construiu neste país”, explica.
Outro elemento presente na exposição é um estendal com várias camisas penduradas transformadas em esculturas. Uma angolanidade plena de simbolismo. “Este é um elemento muito nosso. A roupa estendida pela manhã nas varandas, nos quintais, a roupa a corar. Se vamos para a Europa e para os Estados Unidos, quase já não se vê isso. As pessoas têm máquinas de secar e marquises e não colocam a roupa ao sol”.
Nascido no Namibe, saiu da terra natal aos 12 anos e foi “para todo o lado em Angola”. Filho de um pai bancário de profissão que se deslocava inúmeras vezes em trabalho, Mário Tendinha viveu no Lubango, Lobito, Saurimo, Luanda, Huambo, Bié, Luena. “Conheci muito bem o país”. Apesar de ter saído muito jovem diz continuar a regressar sempre ao Namibe. “É um percurso obrigatório, vou para lá e faço sempre as mesmas coisas. Já levei as minhas filhas e os meus netos e amigos”.
O Namibe tem um peso muito grande no artista e no homem. “Tive a felicidade de poder viver em contacto com aquele povo. Tinha familiares com uma fazenda no sopé da Serra da Leba e quando éramos miúdos ficávamos lá nas férias.
Ver os bois com os mucubais, conviver com eles, ir à caça, marcou-me profundamente. Nunca perdi esse contacto. Nesta exposição tenho um quadro dedicado a essa gente, chamado “Periquito”, homem que ainda existe e anda a pé por aquelas bandas”.
No Namibe gosta da sensação de paragem no tempo, do deserto imutável, das welwitschias, dos animais, dos mucubais, “que aparentam ser sempre os mesmos apesar de serem novas gerações”. A vida que corre sem pressas e sem grandes modificações. “Em todos aqueles povos do Sul, do ponto de vista cultural, não houve uma penetração da colonização”.
Recentemente voltou ao Namibe e viu enormes manadas de animais. “Isto quer dizer que os animais estão a recuperar, estão em paz, a reproduzir-se e há um certo controlo. Os Parques Nacionais são muito importantes, não só do ponto de vista turístico mas do ponto de vista ecológico”, salienta.
Aos 18 anos, Mário Tendinha começa a pintar e aos 21 realiza no Huambo a sua primeira exposição. Depois ainda expôs em Luanda e no Lubango. Mas os caminhos que trilhava seguiam também outros sentidos. “Estava muito envolvido com as políticas, com o MPLA. Fui sindicalista durante 10 anos”, afirma. Tempos conturbados que deixaram marcas no homem, no artista e na obra.
“A minha casa foi destruída pela invasão dos sul-africanos. Perdi todas as obras que tinha na altura, foi tudo destruído. Tinha sido uma fase muito produtiva em termos artísticos e fiquei 25 anos sem pintar e 28 anos sem expor”. Não sabe explicar porquê. “Posso arranjar 1001 explicações mas acho que não valem de nada”, assume.
O interregno prologou-se décadas fora. Mário Tendinha só voltou às telas e aos pincéis em 2003. Nesse regresso sentiu que “não podia deixar de fazer aquilo que estava nas minhas memórias e isso era justamente o Sul”. Coerentemente a primeira exposição nesta segunda fase artística de Mário Tendinha foi baptizada de “Lá para o Sul...”.
Nas telas, em acrílico, óleo e desenho com técnica mista e cor surgiram os bois das terras do Sul, os pastores que vagueiam pela imensidão daquelas planícies. Três anos depois, em 2006 fez outra exposição a que chamou de Riskuss com desenhos feitos só a tinta da china. Desse trabalho o artista sentiu que muita coisa tinha ficado por dizer. “Acho que completei agora com o Ngola Mirrors”.
Mário Tendinha acumula o trabalho artístico com a profissão de gestor de empresas. “Quando estou no escritório não penso na pintura e quando estou no atelier em casa a pintar, vivo num mundo à parte. Consigo distinguir bem os dois campos”, esclarece.
O artista entrou no mundo da pintura quando começou a ouvir em miúdo frases como “tem muito jeito para o desenho”. Mais tarde, aos 18 anos começou a encarar essa faceta com maior seriedade mas nunca estudou arte. “Só agora, após o meu recomeço, senti necessidade de começar a aprender novas técnicas e estilos”, salienta. E deixa um conselho aos mais novos.
“Quando somos jovens achamos que sabemos tudo quando, na verdade, não sabemos nada. Tinha muito essa ideia que já sabia tudo”. Mais tarde começou a frequentar alguns cursos e workshops em Portugal na área da pintura, litografia, desenho. “Senti necessidade de aprender e reaprender.Quando se está no início de carreira devemos aproveitar a oportunidade de frequentar uma escola. Eu fui pela experimentação mas é mais rápido quando frequentamos uma escola. Digo sempre isso aos jovens”, sublinha.
Mário Tendinha mostra-se atento ao que vai acontecendo em termos culturais e artísticos no país. “A área mais visível, porque é a que tem mais impacto ao nível dos media, é a música. Mas para além disso, vejo que há imensos grupos de teatro amador com exibições permanentes, há mais exposições de pintura, muitos jovens que estão a surgir no panorama das artes plásticas, pintura, desenho, fotografia.
Jovens com muito valor, muita categoria, bons em qualquer parte do mundo”. A razão é principalmente uma. “Toda esta nova onda criativa deve- -se à paz. Trouxe uma nova era de liberdade. As pessoas sentem-se mais donas de si próprias, mais livres para escolherem o seu caminho”.
Mário Tendinha assume-se como um coleccionador de arte, “fundamentalmente angolana, alguns de Moçambique, Zimbabwe e América Latina”. Apaixonado pelo Oriente e “casado com uma macaense”, assume o fascínio por aquela cultura milenar. Outra das suas viagens mais marcantes foi a Índia. Não foi a miséria latente que o impeliu a visitar mas “a grandiosidade daquele país”. Da América Latina ressalta “uma enorme paixão pelo Peru e pela história dos Incas”.
Por outro lado, “a Bolívia foi o país no mundo onde achei que existia a maior profusão de artistas. Em todas as pequenas cidades há galerias e os pintores vivem e pintam nesses espaços. É algo de fantástico”. Tudo o que viu e viveu mundo fora leva-o a sonhar...” Gostava de ter uma galeria desse género em Luanda, mas é um projecto difícil porque as rendas são incomportáveis.
A zona histórica de Luanda que se encontra abandonada, devia ser recuperada e entregue aos artistas e artesãos para fazerem pequenos ateliers de artes plásticas, escultura, grupos de teatro. Em todo o mundo há locais onde se faz isso. Aqui pensa-se no lucro rápido e em transformar tudo em dinheiro. Para a cultura sobra sempre o resto”.
As portas estavam abertas a todos. Foram criados estúdios para os artistas trabalharem, havia uma tertúlia literária e de poesia. O local era um ponto de encontro para os artistas de todo o país que foram mostrar a sua arte”.Neste momento, o artista procura ideias novas para desenvolver no futuro. “Gostaria de desenvolver um projecto de arte urbana em co-participação com outros organismos e entidades”.
Novas ideias. Como aquela que o levou a uma sinergia artística com a coreógrafa Ana Clara Guerra Marques na exposição de pintura que realizou o ano passado “Oratura dos Ogros e do Fantástico”. Através de telas grandes e utilizando uma técnica mista à base de acrílicos, gesso e cimento, propôs-se explorar os contos tradicionais angolanos. “Interessava o mundo dos Ogros, para isso documentei-me, li muito sobre os contos. Acredito que é nos contos tradicionais angolanos que está a raiz da nossa cultura.
Se pensarmos que à data da Independência, 95% da população angolana era analfabeta, podemos inferir que o povo angolano comunicava dessa forma, de geração em geração”.
Nessa exposição cruzou a pintura, dança e fotografia, através da colaboração do fotógrafo José “Tonspi” Pinto e da coreógrafa da Companhia de Dança Contemporânea.
A terminar conta-nos que foi a assistir à última peça apresentada por Ana Clara Guerra Marques no Cine Teatro Nacional “Peças Para Uma Sombra Iniciada e Outros Rituais Mais ou Menos”, que viveu um momento marcante. “A dança do bailarino na cadeira de rodas foi das coisas mais bonitas e emotivas a que assisti, também porque aquela cadeira de rodas pertencia ao meu cunhado paraplégico que já morreu”. A propósito dessa mesma dança fez um desenho para a exposição Ngola Mirrors que, tal como todos os outros, poderá ser visto até dia 18 de Outubro.
O artista explica o objectivo. “Pretendemos que o público entre numa outra dimensão. A ideia é fazer com que o público se sinta um participante da própria estrutura”. O público assume a condição de actor, participando na obra exposta, percorrendo as diversas áreas. “Recebi um feedback das pessoas muito interessante. Diziam-me que se sentiam no meio de um quintal, num estendal de roupa. Quando estão na estrutura da construção civil, têm outra sensação, porque a estrutura está elevada a um metro do chão e as pessoas têm outra visão do espaço. Essa interacção é propositada”.
Uma exposição para reflectir
Perfil
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