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Carnaval

A hora e a vez de Kabetula

A intensidade do som do batuque, da ngoma, da dikanza, da puita, dos apitos e dos chocalhos prendeu a atenção de todos os que estiveram presentes ontem na sala de espectáculos do Cine Tropical, entre eles o Presidente da República, José Eduardo dos Santos. No epicentro do acontecimento esteve o grupo carnavalesco União Kwanza que este ano foi seleccionado para ser homenageado pelo Ministério da Cultura, a par do grupo União Mundo do Samanyonga, da LundaNorte, no âmbito das festividades do Carnaval 2010.

Cerca de trinta figurinos seguiam, cadenciados, as ordens do comandante Adão, ele que está há trinta anos a frente do grupo que nasceu em 1968, no bairro Morro Bento, em Luanda. A perfeição com que dançam o estilo que sempre os caracterizou, a kabetula, deixava emocionado qualquer um. A indumentária, as cores, os adereços e outros elementos típicos desta grande manifestação cultural não davam margens a dúvida de que aquela foi uma homenagem bem merecida.

A decisão do Ministério da Cultura em reconhecer o União Kwanza reflecte-se sobretudo no esforço e na persistência empreendidos pelos seus líderes e integrantes ao longo de todos estes anos. Apesar das dificuldades e das inúmeras adversidades, entre as quais dissidências e desistências no seio do grupo, o União Kwanza soube resistir, e desde a sua existência tem marcado presença em todas as edições do Carnaval de Luanda. Outro factor de realce neste grupo e que mereceu o reconhecimento dos responsáveis da Cultura prende-se ao estilo escolhido pelos seus integrantes. Segundo os entendidos na matéria, a kabetula é um ritmo musical que se associa à dança, muito próxima da dizanda e da cabecinha, “em que os pares se envolvem em umbigadas sucessivas”.

“São esses condimentos que fazem desse estilo de dança elemento singular no Carnaval de Luanda, onde o Semba comanda. É essa dança, com a sua omnipresença particular, trazida do antanho e que deve ser preservada e valorizada que levou a que o grupo e a dança fossem motivo de homenagem e de estudo”, lê-se num documento elaborado pelo Ministério da Cultura.

A gala de homenagem ao União Kwanza e ao grupo carnavalesco União Mundo do Samanyonga – este último que ontem esteve representado pelo seu responsável, Esteves Chirianze – contou com a presença de várias figuras públicas, entre as quais destacava-se o Presidente da República, José Eduardo dos Santos.

No acto, os homenageados foram brindados com um valor monetário não revelado, meios técnicos e um diploma de mérito.

Noite de vários atractivos

Além do espectáculo proporcionado pelo grupo União Kwanza e que foi considerado o principal momento da noite, o evento que teve direcção artística do experiente Santocas levou ao palco do Tropical vários outros atractivos. Antes da sua exibição, foi projectado um documentário audiovisual sobre o grupo de Luanda homenageado.

Após o jantar, os presentes foram brindados com um show dos percussionistas do Bloco Sol. O grupo de música folclórica Semba Muxima foi chamado ao palco por Sebastião Lino e Mara Dalva, apresentadores da gala, arrancando aplausos com os temas “Mukudielela Mano” e “Uajiza”.

A noite reservou também um especial momento para a música infantil. Primeiro foi a vez da pequena Daníria Delgado interpretar o tema “União Kwanza Comanda”, da autoria de Chico Madne, que contou com uma coreografia do grupo Brincando com Alice. Depois, as meninas Etiana Glória e Neid Boyot formaram um dueto e cantaram o tema “Margarida Morena”, coreografado pelo grupo Cantinho dos Sonhos.

O suporte instrumental esteve a cargo da Banda Movimento que acompanhou também outros músicos como o dueto Djamila Miranda e Tonicha Miranda, Mamukuenu e Claudeth Tchizungo, interpretando temas como “Paz em Angola Chegou” da autoria de Juca Morgado, “Uanga Ué” e “Ó Fuma”, do grupo carnavalesco Dimba Dya Ngola. O grupo de dança Muntuenu encarregou-se das respectivas coreografias.

De Estrelas do Morro Bento para União Kwanza

De acordo com o seu comandante, Manuel Joaquim Adão, o União Kwanza nasceu em 1968 com um grupo de jovens que assistiam os mais velhos a dançar no interior de um quintal em que se celebrava um komba (manifestação festiva que se dá depois de um óbito). Como não lhes foi permitido entrar na dança, juntaram-se e começaram a dançar e a tocar, imitando os passos e a cadência dos kotas. Desde então os jovens não mais pararam de dançar.

Organizaram-se e, um ano depois, inscreveram-se no ex-CITA (Centro de Informação Turística de Angola) para participar no Carnaval.

Joaquim Domingos, mais conhecido por Ti Fatiti, é um dos fundadores do União Kwanza. Na altura tinha 19 anos de idade. Segundo conta à nossa reportagem, antes de ter o actual nome, o grupo chamou-se Estrelas do Morro Bento. Em 1978, ano em que o povo angolano respondeu ao apelo do então Presidente de República, Agostinho Neto – “ao nosso Carnaval havemos de voltar!” – o grupo reapareceu com a nova e actual designação: União Kwanza.

“A mudança do nome foi também uma forma de homenagear a troca da moeda do Escudo para o Kwanza que se deu na mesma época”, conta.

Entretanto, outros relatos apontam que o grupo, cuja data de fundação fixou-se em 30 de Novembro de 1969, surgiu com o nome de Sengesa e que passou a ter a actual designação em 1976, já sob o comando de Miguel Duzentos Francisco e Manuel Joaquim Adão. Desde que começou a dançar o Carnaval, o União Kwanza apenas parou no período em que esta manifestação cultural também deixou de ser celebrada em Angola, isso entre 1974 e 1978.

O grupo nasceu no bairro Morro Bento, no município da Samba. Porém, por se tratarem de camponeses e filhos de camponeses, os integrantes do União Kwanza foram-se fixando noutras zonas de Luanda como nos bairros da Camama e do Bita, onde tinham as suas lavras. Esta situação faz com que todos os anos o grupo encontre dificuldades em se reunir para trabalhar. Actualmente tem feito os seus ensaios no bairro da Camama.

Com mais de 200 membros, o União Kwanza é hoje um grupo rejuvenescido, apesar de manter ainda no seu seio muitos mais velhos.

Sobrevive de quotas pagas pelos seus membros. De acordo com o seu responsável, o comandante Adão, o grupo nunca contou com o apoio de qualquer empresário ou instituição.

Conservar um estilo genuinamente angolano

A Kabetula sempre foi o estilo de dança com que se apresentou o grupo. Segundo os estudiosos que acompanharam o União Kwanza, trata-se de um ritmo musical que se associa à dança, muito próxima da Dizanda e da Cabecinha, estilos oriundos da região do Bengo.

“Ao som da ngoma, dos batebates (em número de até quatro), da dikanza, da puita, dos apitos e dos chocalhos, os bailarinos se repartem em duas alas dispostas em paralelo, tendo de um lado as senhoras e do outro os homens”.

Ti Fatiti, o veterano do União Kwanza

Segundo um documento, os homens apresentam-se geralmente vestidos de camisola interior ou camisas feitas de cetim e uma saia feita de quatro lenços de cabeça que permite movimentos bastante soltos, ao passo que as mulheres vestem-se de panos, quimone, lenço ou turbante.

“O canto é bastante melodioso, onde a harmonia das vozes se destaca, tendo como base uma solista que é correspondida por todos os integrantes do grupo, secundado pelas palmas que lhe marca o compasso (…); as suas mensagens transmitem o sentimento das populações que representam, o seu quotidiano, as suas proezas e desgraças (…)”.

O comandante Adão realçou que a kabetula continuará a ser o estilo com que o grupo União Kwanza vai-se apresentar nesta e noutras edições do Carnaval. Segundo ele, a introdução doutros estilos na representação do União Kwanza pode fazer com que a kabetula venha a desaparecer nos próximos anos, já que é o único grupo que ainda dança e preserva esta dança. 

A modéstia do grupo

O grupo nunca chegou a conquistar qualquer edição do Carnaval. O comandante Adão recorda que no tempo colonial já chegaram ao segundo e terceiro lugares, mas desde que foi retomada a festividade em 78 nunca voltaram a estar tão próximo do título. Apenas um terceiro lugar, mas na classe B. em 2009, voltou a concorrer nesta classe, alcançando um humilde décimo lugar.

Os integrantes do União Kwanza pensam que o grupo até agora não alcançou o pódio por ser muito distinto e o jurado basear a sua avaliação em itens que não permitem visualizar os aspectos particulares da sua dança e coreografia.

Este ano, por ser um dos homenageados, o grupo irá desfilar na Marginal apenas como participante, sendo que não poderá concorrer.

Apesar disso, está a preparar-se com a mesma dedicação e afinco, como demonstrou na gala de ontem.

“O melhor Carnaval para nós é o deste ano de 2010, em que o Ministério da Cultura decidiu reconhecer e homenagear o nosso grupo”, disse, considerando que com este apoio o grupo poderá crescer ainda mais e melhorar a sua prestação nas próximas edições do Entrudo.

Samanyonga, o papão da Lunda-Norte


O grupo carnavalesco União Mundo do Samanyonga é o segundo homenageado este ano pelo Ministério da Cultura. Radicado na província da Lunda-Norte, o seu nome tem origem no bairro em que o grupo nasceu (Samanyonga), localizado no município do Chitato, cidade do Dundo.

Criado em 1979, ano em que começou a se dançar o Carnaval na LundaNorte, o grupo participou em todas as edições do Carnaval realizadas naquela província e chegou a vencer sete vezes (nos anos de 1983, 1998, 1999, 2000, 2006, 2008 e 2009). Por dez vezes saiu em segundo lugar e foi cinco vezes o terceiro classificado.

O Kandjendje e a Cianda são os tipos de dança com que se apresenta, sob o ritmo de instrumentos e meios como o batuque e chocalhos. Na sua indumentária são indispensáveis adereços como missangas, panos enrolados (mafunya), lenços, dentre outros.

Actualmente com cerca de 60 membros, entre instrumentistas e bailarinos, o grupo é dirigido por Estêvão Cririanze, Bernardo Muatxisengue e Mualiangueno.


Vladimir Prata
12 de Fevereiro de 2010
10:41
 
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