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Uma escrita serena

Maria Celestina Fernandes

CONSULTORA, GESTORA, autora de livros para CRIANÇAS E ADULTOS

É uma das escritoras angolanas mais reconhecidas. Começou a escrever poesia, mas foi com os contos infantis que iniciou a sua carreira. Lançou recentemente o seu 16.º livro, A Muxiluanda, uma viagem que se inicia na Ilha de Luanda e projecta a vida de Jacinta, a personagem principal, num enredo onde se contam os amores e as desilusões de uma menina que tinha o mar nos seus olhos.

Tal como no anterior romance, Os Panos Brancos, a autora faz uma análise das relações humanas antes e após independência. Esta capacidade de através de uma linguagem fácil e acessível contar realisticamente os dramas das gentes anónimas, dão aos seus livros um toque muito especial.

Outras das características da sua escrita é a sustentabilidade dos seus dramas. A forma como organiza as histórias, as personagens e as temáticas, acompanhadas sempre com referências aos problemas que preocupam a sociedade.

contadora de histórias

Celestina Fernandes é uma contadora de histórias, que começou por falar para as crianças e hoje escreve para os adultos. Mantendo a clareza de raciocínio. E a capacidade de nos levar a viajar pelas suas páginas, de forma interessada.

Assistente Social, iniciou a sua carreira profissional no Banco Nacional de Angola em 1975. A escrita veio no início dos anos oitenta, de forma quase inesperada. “Na altura os meus filhos eram pequenos e eu na educação deles privilegiei sempre a leitura. Comprava os livros e lia-os para eles. De uma forma quase natural, resolvi um dia escrever um conto para eles. Por brincadeira mostrei-
-lhes o primeiro e, a reacção foi tão boa que até eu fiquei surpreendida. Todas as pessoas gostaram. Depois fiz outro e os meus filhos passaram a exigir novas histórias. Foi assim que comecei a escrever”.

Relembra-nos uma história curiosa. “O meu filho mais novo também escrevia bem. Lembro-me que, numa altura, tinha ele oito anos, fez uma redacção na escola e a professora deu-lhe os parabéns. Ele disse-lhe que tinha inclinação para a escrita porque era filho de uma escritora. Quando voltei à escola a professora contou-
-me o que se tinha passado. Eu respondi que não era escritora, não tinha nada publicado, apenas uns contos para os miúdos”, refere divertida.

onze livros para crianças

Foi reunindo diversos contos, que para além dos filhos, também ia mostrando  e recebendo elogios por parte de outras pessoas que estavam perto de si. “Um dia dei a ler os meus contos ao camarada António Jacinto. Ele gostou e tomou a iniciativa de os levar à União de Escritores Angolanos. Ficou então decidido que iria publicar. Mas esse meu primeiro livro, A Borboleta Cor de Ouro, demorou sete anos até ser publicado. Isso só veio a acontecer em 1990”, explica-nos, acrescentando, “entretanto fui publicando alguns contos e poemas em jornais e revistas (Jornal de Angola, Boletim da Oma, etc.). Na verdade foi essa a primeira forma que mostrei o que escrevia ao público em geral”.

No que se refere à literatura infantil, Celestina Fernandes teve onze títulos publicados. Uma contribuição muito importante numa área da literatura onde, infelizmente, existem poucos autores angolanos. A sua obra é também reconhecida internacionalmente. Neste momento está a ser lançada no Brasil uma das suas primeiras obras, intitulada A Árvore dos Gingongos. Este trabalho mereceu um estudo que faz parte do livro de ensaios Entre Fábulas e Alegorias, coordenado pela professora brasileira Cármen Tindó. “Uma das minhas preocupações é ressaltar aspectos da nossa cultura, principalmente para os mais novos. Por exemplo, gingongo é a palavra em quimbundo para designar gémeo e, este conto refere-se a todo o misticismo gerado à volta dos gémeos”, refere a autora.

Maria Celestina Fernandes também escreveu poesia para crianças. Uma forma de literatura que não é muito fácil, mas que fez com grande mestria. Publicou o livro A Estrela que Sorri para os mais novos. No prefácio, escrito por Laura Padilha pode ler-se: “Maria Celestina, em seus poemas, traz contos, lições e cantos, tudo reunido, abrindo--nos, de novo, as “janelas” de nossas “almas”, para que possamos deixar nelas entrar a “Menina Lua Cheia”. A poetisa – e prefiro este termo por acreditar na força de nomeação dos substantivos femininos – conhece a “alma” das crianças, seus amores, seus sonhos…”.

gestora de uma clínica


Natural do Lubango veio para Luanda ainda pequena, tendo estudado, crescido e feito a sua vida na capital. Mãe de dois filhos, foi já adulta que voltou à faculdade para estudar, tendo feito a sua formatura em Direito na Universidade António Agostinho Neto.

Teve uma carreira profissional importante no Banco Nacional de Angola, tendo sido reformada na categoria de Subdirectora da Direcção Jurídica. Ainda mantém uma actividade de consultadoria no Instituto de Formação Bancária. Hoje tem uma actividade profissional intensa, sendo gestora de um negócio de família, uma clínica que mantém com um dos seus filhos, que é cardiologista. O outro é economista.

Foi no meio deste trajecto profissional que se tornou escritora. “Em Angola não se pode viver apenas da escrita ou, pelo menos, eu não consigo. Mas assumo a actividade de escritora com bastante empenho e seriedade. O prazer que tenho em escrever é o mesmo que espero transmitir aos leitores, quer sejam crianças, quer sejam adultos. Para mim tornou-se uma necessidade vital”, diz.

Antigamente andava sempre com um bloco de apontamentos e aproveitava todos os momentos para tomas notas. “Estou sempre a escrever. Faz parte da minha existência. Mas tal como não me fixo apenas numa leitura, leio vários livros ao mesmo tempo, isso também sucede na escrita. Vou escrevendo diversas obras ao longo do tempo, que depois vão estando concluídas de forma natural. Os meus livros são o resultado da minha inspiração e daquilo que em cada momento vou sentindo”, afirma de forma convicta.

o prazer da escrita

Hoje tem uma actividade profissional intensa, passa muitas horas absorvida pela gestão da “sua” clínica. “É verdade que houve momentos em que escrevia todos os dias. Hoje aproveito mais os fins de semana. A minha vida profissional absorve-me muito e é nessa altura que tenho tempo e concentração para escrever. Na verdade quando tenho algum tempo livre só faço duas coisas – leio e escrevo”, revela, acrescentando sobre o seu último livro, “está pronto há dois anos. Estava para ser publicado pela União de Escritores, mas acabou por ser a editora Chá de Caxinde a fazê-lo. A Maxiluanda demorou dois anos: um foi para a pesquisa, o outro para a escrita”, revela a autora.

uma avó babada


Maria Celestina Fernandes, em 19 anos de carreira, tem já uma obra literária de 16 títulos (publicou o primeiro em 1990), o que é algo muito positivo. Entre títulos para crianças e para adultos, entre poesia e prosa, acabou por desenhar uma carreira literária que é hoje reconhecida e apreciada. Recentemente, no passado Dia Nacional da Cultura, foi agraciada pelo Ministério da Cultura com um Diploma de Mérito, onde se podia ler “pela sua persistência na divulgação de contos infantis e da prosa angolana”.

A terminar falámos com a autora sobre o futuro. De como se vê daqui a 10 anos e do equilíbrio que cada uma das actividades pode ter na sua vida. A sua resposta é firme: “Não faço ideia. Na verdade vivo o presente procurando usufruir tudo o de bom que a vida me dá. Vou estando por aqui e fazendo aquilo que a capacidade dos meus pensamentos e ideias me dizer. Quero desfrutar dos momentos”. Acrescente-se que Maria Celestina Fernandes é hoje uma “avó babada” e, que os seus três netos são também um dos motivos da sua inspiração.

“a Muxiluanda”, o novo romance

O novo livro foi lançado na passada ontem no Espaço Verde Caxinde. Leva-nos até ao imaginário da Ilha de Luanda, e tal como a autora nos diz, “fala dos desencantos e da nostalgia das gentes que nasceram ali. O livro acompanha a vida de Jacinta, uma menina que nasceu na Ilha, que depois foi viver para a Boavista, mas que manteve sempre um fascínio pelo mar. Desde sempre que o seu maior desejo era fazer um cruzeiro, algo que acaba por conseguir no final da história”.

Ao lado da protagonista movem-se personagens que nos trazem a realidade e as vivências das pessoas antes da independência, a principal personagem masculina é um jovem que acaba por aderir ao movimento de libertação e passar à clandestinidade, mas que acaba por não voltar á sua terra em virtude dos tais “desencantos”.

Sobre este livro escreveu o escritor Pepetela: “A história decorre tranquilamente, sem grandes dramas ou conflitos, embora trate de assuntos e épocas em que a sociedade angolana se deparava com desafios intransponíveis e os seus personagens encontravam alguns sucessos mas também frustrações.

 Relata-nos particularmente a socialização de uma pessoa na Ilha e depois no centro da cidade de Luanda, a luta quotidiana pela subsistência e pela ascensão social, essa tão difícil ascensão dos angolanos no tempo colonial, e as dificuldades sentidas depois da Independência. Nada é escamoteado, a realidade é dissecada e os erros e insuficiências transparecem a todo o momento. Mas de uma maneira serena, quase se podendo ouvir para lá do narrador a voz pausada e suave da escritora”.

escritora versátil

Maria Celeste Fernandes tem 19 anos como escritora. Recebeu um diploma de Mérito, do Ministério da Cultura, no passado Dia Nacional da Cultura. Publicou 16 títulos, dos quais onze para crianças. O primeiro intitulava-se A Borboleta Cor de Ouro e foi escrito em 1990. Escreveu igualmente um livro de poemas para crianças  com o título de A Estrela Que Sorri. O seu novo romance, AMaxiluanda, foi lançada ontem no Espaço Verde Caxinde.

João Armando
5 de Março de 2009
13:07
 
3
 

Comentários

  1. Maria Celestina Fernandes
    2009-09-25 11:50:12
    Tânia Li seu comentário e também gostaria de trocar ideias consigo, podemos iniciar agora... Maria Celestina Fernandes
  2. Tania Maria Rodrigues-Peters
    2009-08-23 20:41:28
    Boa noite! Sou brasileira e sou escritora de livros infantis. Adorei ler esta matéria e muito mais saber sobre esta senhora tao lutadora e com tanto potencial. Gostaria de trocar idéias com ela. O meu livro "Mozart no futuro" está em portugues e alemao, e também será publicado em sueco, espanhol, próximo mes lancarei o livro nos USA.Meu site está em portugues e alemao www.rodrigues-peters.com e lá poderao ver entrevistas em jornais e algumas emissoras de TV como Rede Globo.Gostaria de um dia apresentá-lo também em Angola. Um forte abraco, Tania Maria Rodrigues-Peters

  3. 2009-05-20 09:02:08
    eu quiz poder sabaer mais da historia da muxiluanda
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