O arquitecto não se coloca acima, mas dentro dos problemas. Não pretende que os seus projectos sejam apenas estéticos, mas que tragam mais-valias às pessoas. Embora sem uma militância política activa, assume que se situa na esquerda quando analisa a sociedade e o mundo.Veio a Angola através da Trienal de Luanda, que em colaboração com a Trienal de Arquitectura de Lisboa, vai lançar um Concurso Mundial para a requalificação de algumas zonas de Luanda.
“É bom se houver um entendimento entre as duas entidades”, sublinha explicando que “na verdade não tenho ainda projectos em África. Mas gostava muito de desenvolver o meu trabalho neste continente, em especial em Angola. Luanda é hoje uma cidade em reconstrução, sendo que para qualquer arquitecto se torna atractiva. A cidade tem um enorme desafio que é a habitação, tem um plano ambicioso para acabar com os problemas das pessoas em viver em Luanda. Gostava de contribuir para este projecto”, sublinha.
Por enquanto a sua função é presidir ao júri que vai analisar as propostas que virão de todo o mundo.
É um trabalho muito importante. Tomar as decisões acertadas é uma enorme responsabilidade. Perceber que a reconstrução desta cidade obedece a uma conjugação de factores, que vão desde os de ordem social e económica até aos estéticos, passando pela escolha acertada dos materiais, a sustentabilidade energética, o clima, o conceito das casas, etc.”, diz, acrescentando “o grande desafio para os arquitectos quando olhamos para uma cidade como Luanda é conseguir instalar melhor os cinco milhões de habitantes que a cidade hoje tem. A arquitectura existe para resolver as coisas simples da vida dos cidadãos e dar um maior bem-estar às pessoas”.
primazia às pessoasAo longo de toda a conversa refere a necessidade de juntar os conhecimentos, os meios, as técnicas e os materiais disponíveis à escala global, para ter as melhores soluções para Luanda. Carrilho da Graça pensa que “todas as economias emergentes representam um enorme desafio para os arquitectos. Nos países do Sul, a necessidade de construir edifícios, faz com que as coisas andem mais depressa”. Normalmente o tempo é algo que os arquitectos têm que se habituar a controlar. “É verdade que hoje a maioria dos projectos tem prazos de execução de vários anos. Por vezes eu mesmo tenho pressa. Lembro-me, por exemplo, que na altura em que me formei pensar que o quadro Gioconda, do Leonardo da Vinci, tinha demorado seis anos a pintar. Para mim era quase inconcebível que para fazer aquele quadro, o artista tinha demorado tanto tempo. Era algo que me fazia muita confusão. Hoje entendo que por vezes os processos são muito lentos”, refere, acrescentado depois bem--disposto, “por outro lado também penso que o Teatro São Carlos em Lisboa, uma obra de grande dimensão, demorou apenas oito meses a ser construído. Numa altura em que não havia a tecnologia que hoje temos. Isso também me faz reflectir”, explica.
Acrescenta ainda: “O arquitecto Siza Vieira está a desenvolver um projecto para um museu em Porto Alegre, no Brasil. Recordo- -me de uma conversa em que me disse: “Nós hoje temos que procurar os sítios onde querem a nossa arquitectura”. Também penso assim. O melhor local para desenvolver os nossos projectos é onde querem aquilo em que acreditamos. Em que todos estão empenhados em fazer a obra. Onde não existem aquelas coisas imperceptíveis que acabam por mudar os projectos. E isso depende muito de quem nos contrata”.
João Luís Carrilho da Graça nasceu em 1952 em Portalegre. Licenciado pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, em 1977, foi assistente na faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa entre 1977 e 1992.
Desde 2001 é professor convidado no Departamento de Arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa e na Universidade de Évora a partir de 2005. Tem desenvolvido a actividade pedagógica em seminários, conferências e semestres de docência em inúmeras escolas. 
“Tinha 25 anos quando comecei a dar aulas. Acabei o curso e convidaram-me, tendo ficado com uma turma de finalistas, alguns tinham sido meus colegas e, havia alunos que eram mais velhos que eu. Numa altura em que temos muitas dúvidas e algumas certezas, dar aulas põe à prova as nossas convicções. A faculdade é um espaço em que podemos falar de forma aberta, trocar ideias e experiências”, refere o arquitecto, acrescentando, “comecei a dar aulas em 1977, numa altura em que não havia uma estruturação precisa do corpo académico e daquilo que devia ser o ensino universitário no futuro. Tínhamos saído de uma revolução. Foi por isso uma experiência muito enriquecedora”.
Desde muito novo que desenvolveu a sua capacidade empreendedora. “Logo quando me formei criei o meu atelier e comecei a trabalhar. Fui mantendo as duas actividades. Em 1992, devido aos muitos projectos que a minha empresa estava a desenvolver, deixei o ensino. Só em 2001, voltei à Universidade Autónoma e, em 2005, fui convidado pela Universidade de Évora para ser responsável pelo curso de arquitectura. Hoje mantenho essas duas funções e o meu atelier, pelo que ando sempre a correr de um lado para o outro, sem grande tempo para mim”, diz com um sorriso.

O seu primeiro grande projecto foi as piscinas de Campo Maior, uma vila que dista 30 quilómetros da terra onde nasceu e, que é mais conhecida por ser a sede de uma das maiores empresas portuguesas, os Cafés Delta. “Foi o Comendador Rui Nabeiro que me encomendou este trabalho, quando era o Presidente da Câmara. Quando lá passo hoje, ainda sinto orgulho de ter sido eu fazer o projecto. Penso que se enquadra muito bem na paisagem da região, é um edifício que funciona e presta um bom serviço. Tenho alguma pena de nunca ter sido completado totalmente, de acordo com aquilo que era o projecto, mas ainda assim creio que é um conjunto com valor arquitectónico”, diz.
Outro dos marcos que destaca é a Escola Superior de Comunicação Social em Benfica, na cidade de Lisboa. Uma obra que ficou pronta em 1993, demorou cinco anos a construir, e que lhe valeu vários prémios. Mas que, como confessa, também não ficou de acordo o seu projecto. “Quando lá passo fico sempre com enorme pena pelo facto de áreas exteriores não terem sido terminadas. Não foram plantadas as árvores que tinha previsto, e que lhe dariam maior dimensão. Mas isto é uma coisa que acontece com mais regularidade do que as pessoas pensam”, revela.O Pavilhão do Conhecimento dos Mares, na Expo 98 de Lisboa, é marco importante. “Para este evento a sociedade Parque Expo fez apenas duas encomendas directas – o Pavilhão do Conhecimento dos Mares a mim, e o Pavilhão de Portugal ao arquitecto Siza Vieira. Quando a recebi, fui ver a Expo de Sevilha e percebi que havia uma saturação de informações aos visitantes. Por isso optei por fazer um edifício simples. De forma que funcionasse com um tempo de pausa entre o que acontecia fora e dento do pavilhão”, explica. Recorde-se que este edifício foi também galardoado com vários prémios internacionais.
Em Setembro do ano passado foi inaugurado outro grande projecto da sua autoria, o Teatro - Auditório de Poitiers, em França. “Participei em 2000 no concurso de pré- -selecção para a construção do auditório de Poitiers. Apesar de não estar muito optimista, acabei por ganhar”, confessa.
Poitiers é a mais pequena capital de província em França, mas é quarta cidade em termos de realizações culturais. Tem uma população universitária de 28 mil estudantes. Por isso era necessário fazer algo de novo, embora bastante funcional. “A nossa proposta, de dois paralelepípedos amarelos “revestidos” a vidro, para se encaixar numa zona histórica, mas que internamente fosse capaz de dar resposta a todas as manifestações culturais, foi bem aceite. Em vez de fazer um grande auditório como era a tendência na Europa, criámos dois espaços. Uma sala para concertos com mil lugares, em madeira, com uma acústica especial onde não é necessário usar aparelhagens de som, e uma sala de 700 lugares para teatro e dança. Depois uma entrada enorme onde é possível ter exposições ou outras actividades culturais, com uma grande escada que faz a conjugação das salas. Este foi o conceito, que fez com que ganhássemos o concurso. O auditório foi inaugurado em Setembro. No primeiro dia houve 12 horas seguidas de espectáculos e passaram mais de 12.000 pessoas neste espaço”.
Quando lhe perguntamos se este é o projecto da sua vida, a resposta é pronta: “O projecto da minha vida ainda está para vir. Estou a meio da carreira profissional. Existe sempre a tendência para olhar para estes grandes galardões como prémios pela carreira. Mas no meu caso, não é assim. Ainda tenho muitos projectos para realizar e muitos edifícios para construir”, afirma convicto.
Este não foi o único prémio importante da sua carreira. Carrilho da Graça recebeu o prémio da Associação Internacional dos Críticos de Arte em 1992 . Foi ainda distinguido com o prémio “Relação com o Sítio”, da Associação dos Arquitectos Portugueses, pelo projecto das piscinas de Campo Maior, em 1993. Em 1994, recebeu o prémio Secil pela Escola de Comunicação Social, em Lisboa. Foi galardoado com o Prémio Valmor 1998 e com o Grande Prémio do júri “FAD” 1999, pelo projecto do Pavilhão do Conhecimento dos Mares, na Expo 98 de Lisboa. Foi distinguido com o prémio “Luzboa 2004” da primeira Bienal Internacional de Arte em Lisboa, e nomeado inúmeras vezes para o Prémio Mies Van der Rohe, Prémio Europeu de Arquitectura.
Acumulada a experiência profissional de 32 anos Carrilho da Graça dá alguns conselhos aos mais jovens: “A nossa profissão não é a única em que se trabalham horas a fio, que se passam noites em claro. Veja-se os médicos, advogados ou jornalistas. O conselho que deixo aos jovens que querem ser arquitectos é que têm de gostar desta profissão e estar disposto a lutar por ela a vida toda. O nosso trabalho tem impacto directo na vida das pessoas. Isso é o mais importante da arquitectura”, concluiu.
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