
Lisa Videira já tinha visto uns estrangeiros a praticarem um desporto esquisito nas águas do Atlântico que banham Luanda. Achava estranho e não percebia do que se tratava: uns homens que pareciam voar sobre as ondas. Mais tarde, em 2003, numa livraria em Inglaterra, onde estudou durante cinco, ao folhear um livro deparou-se com imagens que a remeteram para as praias da sua terra, e percebeu então tratar-se de um desporto com várias modalidades apelidado de kitesurf. A associação da memória guardada às imagens que via no livro deixaram-na fascinada. Foi para casa e começou a pesquisar na Internet. “Naquela época havia até poucos sites sobre a modalidade na Internet. Na altura o kitesurf não era considerado um desporto, era mais uma experiência de pessoas armadas em radicais”, relembra Lisa Videira.
Uma passagem por Portugal em 2004 coincide com o surgimento das primeiras escolas de kitesurf em Lisboa e Lisa Videira decide iniciar--se na escola Gustykite na ventosa praia do Guincho. A paixão pela modalidade entranhou-se em definitivo. “Quis comprar material para praticar a modalidade mas quando disse o preço aos meus pais eles ‘deram-me uma corrida’”, conta. Não se deu por vencida e tratou de juntar dinheiro para comprar o seu primeiro equipamento em segunda mão, vindo do portal de compras electrónico eBay. A compra não foi das melhores. “Trouxe o material para Angola mas o papagaio vinha todo furado e cheio de problemas. Lembro-me bem da primeira vez na praia, o kite esvaziava e tinha de sair da água a cada 20 minutos”. Nessa altura conhece Ruca Milton, um dos pioneiros do kite em Angola. Lisa Videira começa a aprender sozinha, treina muito, observa os mais experientes, lê revistas e assiste a DVD sobre o desporto. “Estava sempre curiosa mesmo em relação às manobras de saltos. Tentava, errava, mas continuava sempre, porrada até aprender. Como era a única menina alguns kitesurfistas iam dando uma ajuda”, relembra desta forma os primeiros tempo.
A paixão pelo kitesurf é facilmente explicada. “Sempre gostei de adrenalina e de desportos radicais. Assistia sempre ao X-Games na televisão. O kite é uma junção de surf, snowboard, parapente, paradiving, wave board, é um desporto radical por excelência”.
Durante uns tempos até praticou outros desportos. “O meu pai jogava ténis e gostava muito, incentivava-me e eu até pratiquei uns tempos mas depois achava aquilo boring (aborrecido)”. O ténis não era a onda de Lisa Videira, que elege a “sensação de liberdade” como aquilo que mais gosta no desporto que escolheu praticar. “Quando entro para a água consigo esquecer tudo. Se tive um péssimo dia dou dois mergulhos, começo a andar de kite e fico completamente relax. Volto para terra com um sorriso a lembrar as manobras e penso que a vida não é assim tão má”.
Mas o mar onde se pratica kitesurf não é um mar de rosas. A quem fica seduzido pelas imagens de liberdade provocadas pelos praticantes, Lisa deixa alguns conselhos. “É um desporto que não é barato (o material completo e novo custa cerca de 1.700. 1.800 dólares) e pode ser perigoso, é importante que as pessoas aprendam mesmo a fazê-lo. Se der para o torto podem ter acidentes em terra, que são o maior perigo. O pessoal quer brincar com a vela e esquecem-se que há obstáculos, 80% dos acidentes ocorrem em terra. Quando as coisas correm mal, se as pessoas estiverem mal preparadas não têm poder de resposta. Se não se consegue manobrar a vela é fácil ser-se arrastada a 50 metros”.
Mas a todas as pessoas que querem experimentar Lisa diz que devem fazê-lo. “A vida é tão curta, go for it (vão em frente). Experimentem sem medo. Muita gente pensa que é uma questão de força de braços mas não tem nada a ver: é uma questão de técnica apenas, de saber manusear o kite e respeitar as condições climatéricas. Depois de algumas tentativas já não é um bicho de sete cabeças”. A atleta assinala apenas algumas condições essenciais para a prática deste desporto: saber nadar e não ter problemas nas costas, nem respiratórios e estar bem de saúde.
“Quando comecei a praticar a modalidade pensei que iria fazer algo importante com o kite. Cheguei a treinar para participar em algumas competições e ir mesmo até à competição mundial. Mas estava a estudar e não pude”. Ainda assim participou na competição Oceans Spirit em Santa Cruz, em Portugal. “Era um percurso até à Praia Branca, foram 3 horas e meia de vento de porrada e fui a única mulher a acabar o percurso. Deram-me um prémio por isso”. O outro prémio que possui na modalidade foi ganho na Inglaterra. “Houve uma competição da minha universidade e ganhei o freestyle (uma das modalidades do kite)”.
Antes da dedicação ao surf, Lisa Videira tratou de concluir a formação académica. Em Setembro terminou um Mestrado em Gestão da Engenharia em Inglaterra e, anteriormente, tinha feito um curso de 4 anos em Engenharia Química, em Manchester. Por enquanto, não exerce uma profissão nessa área. “Estou a pensar se quero ficar das nove às seis fechada num escritório”, assume. Apesar de numa praia com vento e ondas se sentir no paraíso está consciente de algumas dificuldades. “A minha actividade no kite vai ter que ser em part-time porque a época do vento é de Setembro a Março. Esta é a época boa para dar aulas”. A actividade como professora de kitesurf em Angola começou no no passado dia 31 de Outubro com a inauguração da Escola de Kite Surf GustyKite, na qual Lisa Videira é de momento a única instrutora, porque é a única que possui uma licença da IKO — International Kiteboarding Organization. Este é um projecto que tem com parceiro o Clube Náutico, onde brevemente ficarão as instalações da escola. “Neste momento dou aulas a quatro alunos, e este é o meu limite. Tenho mais cinco à espera porque pretendo manter a qualidade do ensino. Dou aulas a partir dos 16 anos até aos 100 anos”, diz.
Mentora da escola de kite pretende estar envolvida em vários projectos sociais com crianças e jovens da Ilha de Luanda e da Ilha do Mussulo. “No momento só tenho equipamento para pessoas que pesam mais de 45 quilos, mas tenho em mente trazer de fora material para crianças e iniciar estes projectos”. A ideia é dar aulas aos jovens para que estes pratiquem desporto e se abstraiam de actividades negativas.
Como vogal da Associação Angolana de Kitesurfistas, criada há 2 meses, Lisa Videira participou activamente no 1º Torneio Internacional de Kitesurf em Angola. “Acho que correu muito bem. Fomos muito eficientes”. A associação possui uma extensa lista de objectivos “continuar a organizar um torneio internacional e, quando houver adeptos nacionais suficientes, fazer uma competição nacional. Pretendemos ainda projectar a modalidade noutras cidades como Benguela e Namibe. Temos os nossos projectos sociais para Dezembro com crianças da Ilha do Mussulo, e queremos trabalhar na área do turismo. Tal como em Cabo Verde e na África do Sul onde o kite consegue atrair um grande número de turistas, pensámos que também em Angola podemos desenvolver o potencial da nossa costa sem interferir com os banhistas”.
Lisa Videira estudou fora e isso levou-a a reflectir sobre aquilo que a rodeia. “Acho que só comecei a sonhar quando comecei a viajar e a ver o mundo com outros olhos. Crescemos num mundo cheio de padrões, com comportamentos formatados, não há espaço para criatividade. Apesar de eu achar que os angolanos têm uma qualidade muito boa que é essa mesmo, ser criativos. Vivi muito tempo em Inglaterra e lá as pessoas estão autênticos robots sem se aperceberem disso. É tudo tão previsível, estamos a ficar bonecos. As pessoas tem de ser aquilo que são. Há falta de amor no mundo, está tudo muito stressado, numa corrida para encher as contas do banco. Para quê?”, pergunta-se.
Como praticante de desporto e como cidadã angolana é com tristeza que olha para o lixo que se acumula nas ruas de Luanda. “Queria trabalhar na área ambiental porque já não aguento mais este lixo. O povo não tem culpa: estávamos habituados a um tipo de lixo orgânico que se decompunha e fomos invadidos por este capitalismo sob a forma de resíduos em plástico, papel, metal que não desaparece”, alerta. Com o fim da época dos ventos, Lisa Videira irá dedicar-se a outros voos que não apenas aqueles que realiza sobre o mar.
Para esta entrevista fomos encontrar Lisa Videira a treinar na Praia do Jango Veleiro, na Ilha de Luanda. “Este é um dos melhores spots para treinar porque é a praia que tem o maior areal entre os pontões e o vento está sempre direccionado para terra”, explica. A praia está com obras de alargamento da estrada e a Associação Angolana de Kitesurfistas tem um projecto para este espaço. “Queremos registar esta como a praia do kite para criarmos as condições necessárias tais com ter uma casa com um posto de emergência e manter a praia limpa. O kite requer espaço e que os surfistas respeitem os limites. Queremos que o público não se vire contra nós. Esta praia é boa também para passeios de caiaque, pode servir para fazer skimming. Assim não se importunam os banhistas que estão noutras praias sossegados a apanhar sol”.
Depois de fazer kite em Portugal e Inglaterra, diz que o melhor sítio para aprender, evoluir, treinar é em Angola. “O vento aqui é moderado e estável. No Guincho, por exemplo, é demasiado ventoso, instável e o mar fica agressivo”. A Ilha do Mussulo e a Ilha de Luanda são os spots (sítios) eleitos. Fora de Luanda, aconselha a Baía Farta, em Benguela e o Namibe. “Nas dunas em frente à Baía dos Tigres é pura e simplesmente incrível, com um vento constante e forte. Também há óptimas condições nas lagoas salgadas com uma duna atrás. Tudo isso é muito bom para o turismo”.
A GustyKite (www.gustykite.com) é a primeira escola de kitesurf em Angola. Com muito sucesso em Portugal, a escola surge agora no País através de Lisa Videira.
Na escola é possível frequentar um curso completo de dez horas, em média, dividido em três ou quatro tardes, dependendo da evolução de cada aluno. Na primeira parte do curso, as aulas são de teoria em terra, com exercícios com uma asa pequenina, o foil, depois passa-se para uma asa maior e conforme o aluno vai dominado o kite, segue-se a ida para a água.
A escola disponibiliza ainda um baptismo de duas horas na areia para aqueles que não estão bem certos de querer praticar este desporto. Lisa Videira neste baptismo explica em que consiste a prática da modalidade, mostra o material e equipamento para que as pessoas se familiarizarem, monta uma asa para que, a treinar em terra, os participantes tenham a sensação de voar o kite.
Para além disso, a Gustykite confere na sua oferta aos clientes a possibilidade de um baptismo familiar para vários membros de toda a família. “Desta forma, pais e filhos podem fazer algo diferente num dia das suas vidas”, explica Lisa Videira. A instrutora possui também um pacote de aulas privadas para quem já fez um curso de kite anteriormente e precisa de uma reciclagem para reaprender. Os interessados devem contactar Lisa Videira através do site na Internet.
Todas estas actividades da escola decorrem ou na ilha de Luanda ou no Mussulo, consoante as condições meteorológicas e disponibilidade das pessoas interessadas. E estão disponíveis para todos os curiosos e entusiastas da modalidade que queiram voar entre as ondas.
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