Cérebros com parte deles calcinados, rígidos, atacados por tumores malignos com força para os inutilizarem, é assim como o mundo pode ser imaginado dentro de algum tempo.
Não é um cenário festivo, desde logo.
Mas muito provável, apesar da perspectiva dantesca, que só nos deixa uma pequena porta de esperança: que o estudo, os cálculos, as continhas, da Organização Mundial da Saúde (OMS) estejam errados.
A má notícia está relacionada com o uso dos telemóveis. A OMS disse que as radiações emitidas pelos telefones celulares enquanto falamos podem provocar-nos, com o tempo, cancro no cérebro.
Se formos honestos, teremos de aceitar que a Organização Mundial da Saúde não nos veio estoirar com um petardo desses que matam mais com o efeito psicológico do que propriamente com os seus estilhaços de ferro pesado. Bem ou mal, há anos que os rumores nos acompanham e individualmente, no silêncio das nossas consciências, sempre acreditámos que os telemóveis não poderiam ser tão saudáveis assim.
Nunca antes uma pergunta colectiva, com tanto de impotência e de idiotice, fez tanto sentido: e agora, o que fazemos?
Interroga-se o Minguito, que aos quinze anos de idade já leva cinco de uso regular do telemóvel, mas quer saber também sobre o futuro o seu avô Belchior que aos setenta não acha piada nenhuma enfrentar a probabilidade de acabar com parte do cérebro enrijecida por um tumor por ter andado anos a falar ao telefone.
Depois da corajosa notícia da OMS tornou-se fácil olhar para o mapa mundi e descobrir--lhe o deserto das cidades, das vilas, dos escritórios, das estâncias balneárias, das ilhas paradisíacas. Lugares onde toda a gente e ao longo de tantos anos falou sem restrições ao telemóvel, acabarão transformados em pontos lúgubres habitados por pessoas devastadas por células cancerígenas a estropiar-lhes movimentos e qualidade de vida.
Vão sobrar pouquíssimos e quase incríveis casos de pessoas sem chatices com a peste da modernice, aquelas que, com uma premonição verdadeiramente bíblica ou simples birra, se mantiveram sempre afastadas do vício útil dos celulares.
Onde haverá sobreviventes aos magotes será nas aldeias recônditas de um planeta selvagem que privilegia os códigos de fumo às confusões da propagação do sinal por entre montanhas e bosques. Eles exibirão, felizes, os seus cérebros saudáveis, indiferentes em certa medida à aflitiva situação dos seus coetâneos das cidades.
Se fosse garantido que a Humanidade teria uma distribuição democrática e infalível do kit cancro cerebral, poderíamos ir projectando, desde já, um mundo novo de menos radiação no ar e menos conversas cruzadas.
Mas vale a pena que, neste caso, o espaço em que vivemos não desmereça a sua condição de egoísta. É bom que os mesmos males e os mesmos defeitos que acompanham as inexistentes tentativas de distribuição equilibrada da riqueza entre os habitantes da Terra se repliquem neste episódio de disseminação do mal que, contas feitas, poderia liquidar em dois tempos a espécie humana.
Estas aritméticas reais e hipotéticas já nos dizem, por antecipação, como tudo vai acabar: nem os telemóveis serão abandonados, porque o mundo ficaria pior do que já anda; nem a OMS será odiada pelos fabricantes de telefones, porque têm consciência de que nós, os utilizadores, sempre soubemos que nos era ocultada a verdade; que a vida continuará com a velha regra de sempre, festiva e indiferente, presa à certeza baseada no nada de que o que é mau acontece primeiro aos outros, nunca a nós; que o próximo estudo sobre os efeitos nocivos dos telemóveis sobre os humanos virá amortecido por dezenas de outros, divulgados antes, a explicar ao grande público, por exemplo, que o microondas é uma espécie de inimigo à solta mas que ninguém terá coragem de reformar porque arruinaria a vida das famílias felizes do novo século.
Nunca antes uma pergunta colectiva, com tanto de impotência e de idiotice, fez tanto sentido: e agora, o que fazemos?