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O loirinho Real

É português e chama-se Fábio Alexandre da Silva Coentrão. Para o mundo que ele conquista palmo a palmo, o do futebol, basta que se diga Fábio Coentrão.

Aos 23 anos de idade vive a emoção tremenda de fazer parte de um dos mais populares clubes de futebol da Terra, o Real Madrid, e entregou-se ao dilema de todos os que nesse contexto específico do jogo da bola tentam a glória: ou chegam lá com a magia do seu futebol ou espatifam-se com tudo o que possuem, pés, nariz, esqueleto, prestígio, família e expectativa de fazer fortuna.

Por estes dias, andam os felizes viciados do jogo inventado pelos ingleses ansiosos e meio entediados com a falta de competição pura e dura nos grandes palcos da velha Europa. As curtas semanas que há que viver até chegar-se ao tempo do começo dos diferentes campeonatos parecem um suplício interminável e o enervante clima que isso provoca não passa despercebido no seio das famílias, onde eles, os fãs das estrelas do Benfica, do Barcelona, do Manchester, do Chelsea, do FC do Porto, do Bayern de Munique, do Ajax, do Real Madrid, do Inter de Milão, etcêtera, se tornaram pessoas com a alma diminuída para as variações do humor. Aliás, elas são a imagem do bom humor em ruína acelerada.

A solução intermédia está a ser, para uma parte dos adeptos desconsolados, o sobreposto calendário de eventos do futebol convertidos na infeliz emenda pior que o soneto, por força precisamente dessa confusa arrumação da agenda. Enquanto se joga num lugar alegre perfumado pelo tango da vida a Copa América, noutro bem menos extrovertido, tomado por gente que só se realiza no rigor operário de cada início de jornada, mulheres com a habilidade mil vezes aperfeiçoada fazem a história do Campeonato do Mundo para elas. Em dezenas de outras cidades e vilas a Norte e a Sul, Leste e Oeste, num mapa pontilhado de acontecimentos e festas ponderadas, concretizam-se jogos de preparação medianamente suados, de olho em épocas que podem ser o enterro antecipado de treinadores, a confirmação de fracassos colectivos habituais ou a subida ao limbo do sucesso de emblemas até aqui reduzidos a voos modestos e rasantes.

A outra franja de amigos do futebol contenta-se com os ziguezagues do mercado das transferências. Em Angola, onde a Liga Portuguesa se torna no repetir dos ciclos numa espécie de opção gémea de apoio silencioso ao doméstico Girabola, os adeptos espantam-se sobretudo com a multidão que se acumulou na Luz, onde o Benfica, até se definir, parece ter voltado aos tempos do futebol de clara inspiração agrícola das décadas imediatas à II Guerra Mundial: reservas como viveiros férteis com as suas mudas aos magotes, equipas B e C para nunca se ficar à mercê das lesões e dos castigos federativos!

O próprio senhor de quem se fala, Fábio Coentrão, foi desta safra confusa uma das amostras, até se desfazer por completo a embrulhada que lhe impedia de ver o caminho para Madrid, ali tão perto. E ainda bem que houve saída para o rígido braço-de-ferro entre Luís Filipe Vieira e Florentino Pérez pois o explosivo lateral esquerdo de cabeleira loira já mal se aguentava de pé naquele clima rarefeito, onde tudo parecia travestido, tormentoso, infinitamente embrutecido na visão que provocam sempre as situações em que não se tem pela frente nem peixe nem carne.

Pelos vistos há uma motivação adicional para se ter a já de si super competitiva Liga Espanhola na lista indiscutível das prioridades do entretenimento semanal. O craque que desfalcou a defesa do Sport Lisboa e Benfica para reforçar o Real Madrid é mesmo para seguir jornada a jornada porque pode vir a confirmar o que os bons leitores do futuro já dizem: por trinta milhões de Euros, a maior transferência de sempre de um lateral esquerdo, o clube espanhol pode ter comprado não um jogador mas uma tranca da fortaleza do aço. Indobrável e maldita, para os atacantes adversários.

Luís Fernando
18:04
 
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