Lá se foi mais uma edição da Feira Internacional de Luanda, grande kitanda de negócios de todos os anos que tem uma mística muito própria: balança entre a festa circense invadida por pais que levam pela mão filhotes ávidos de horas coloridas num mundo de fantasias e a expectativa de gente de dinheiro - muito, pouco ou assim-assim - que acredita poder abrir portas que lhes multiplicarão os ganhos.
Chegados a Julho de todos os calendários, cá estamos para repetir o ritual.
Luanda, cidade que muitos amaldiçoam com vigor reforçado em tempos da FILDA por se saber, antecipadamente, o que se sofre no trânsito para chegar àquela arena implantada em pleno Cazenga, vive por esses dias, ironicamente, um dos seus melhores momentos. Não sendo ainda ponto luminoso das rotas do turismo global, a nossa capital faz-se rodear de um interesse que a torna mais apetecível que dezenas de famosos centros da política, da cultura e da moda concentrados na Europa e na América, lembrando-nos em ambiente de distraído revivalismo que já na Idade Média as feiras tinham a força de transformar as localidades em ambulantes capitais do Mundo.
Fechar negócios no imediato ou, numa segunda hipótese, distribuir grande quantidade de cartões comerciais para que as firmas representadas sejam contactadas no pós-FILDA, são os sonhos que povoam as cabeças dos expositores, que chegam a Luanda de diferentes pontos do mundo, tal e qual na época activa dos fenícios, cartagineses, mouros e outras tribos de lendária vocação mercantilista.
Mudaram-se os tempos, as rotinas e os recursos da grande máquina logística, com confortáveis aeronaves fazendo a vez de embrutecidos camelos, cavalos, dromedários, búfalos, burros, obrigados a esgotantes caravanas, mas o essencial continua intacto, pronto para perpassar muitas mais gerações: a busca do lucro, na venda do que se tem.
Os tabus e as limitações da mente daqueles séculos distantes, entre outras diferenças que não custa muito imaginar agora, terão certamente afastado das feiras medievais um dos ícones actuais com garantido estatuto de inevitabilidade: as beldades. Hoje não há ganhos que se tentem nem sequer feira que se convoque se faltar a estampa da mulher bonita que, para cada stand, faz o bíblico papel da atracção fatal. Na Feira Internacional de Luanda, onde a excelência se premeia com leões de ouro, elas são as verdadeiras leoas com a intensidade e fulgor do seu desempenho vital nos seis ou 7 dias de corrupio.
Dizem os entendidos em políticas de emprego e saberes similares que elas ganham por altura da FILDA trabalho temporário. Numa linguagem mais recuada, dos sessenta e setenta do esgotado século XX, chamar-se-ia àquele cirúrgico desempenho de pouco menos de dez ou quinze dias, biscate, o equivalente linguístico a uma pernada volátil que aguça mais a fome de remuneração do que a aplaca.
Elas, as leoas, fazem parte do ritual da FILDA e ainda bem. Animam a paisagem com os seus acertos e desalinhos, distribuindo sorrisos enquanto mostram os caminhos em direcção aos negócios alheios convertidos em seus também, exibindo depois clamoroso deficit na defesa das bondades do produto ou serviço em promoção.
É óbvio que para o grande público essa escorregadela merece no geral uma generosa tolerância, conquanto o que se quer vender esteja convenientemente exposto e quase dispense a explicação sofrida e bem intencionada da linda jovem...
Será sempre um detalhe o não conseguirem amiúde explicar o que em escassas horas procuraram aprender e o certo é que a FILDA, com os seus empregos temporários, funciona para muitas dessas felizardas garotas como o trampolim que muda, definitivamente, os seus percursos. Portanto, vale a pena ser leoa em Julho.