Ana Silva continua a olhar para a pintura como uma aliada com a qual pretende manter vivo um estreito laço de cumplicidade. A pintora deixou Angola em direcção a Portugal sob pretexto de superar-se a si mesma enquanto artista.
Levou na bagagem todo o optimismo que precisava para vencer os novos desafios. Experimentou primeiro a cidade de Paris durante um ano. Mas foi em Lisboa, junto de familiares e amigos que desempenharam um papel essencial nesta sua vida como emigrante, que Ana Silva prosseguiu o seu sonho. Diz ter começado a pintar muito tarde, ainda em Angola, com alguns pintores de que gostava. Ao longo do seu caminho nenhuma contrariedade a dissuadiu de somar conquistas. A primeira das quais foi a licenciatura em Belas Artes, na especialidade de Desenho e Pintura, pela Faculdade do A.R.C.O, em Lisboa.
Após ter conseguido a ferramenta basilar de que precisava para continuar a sustentar o seu sonho, transformou-a num desafio maior: o de viver da pintura profissionalmente, embora já o tivesse decidido anos atrás, quando sentiu a necessidade de se exprimir através da pintura. “Quando decidi torná-la uma profissão, achei que tinha que sair daqui para evoluir e assim foi. Ao chegar a Portugal não tive dificuldades. Fui sempre uma privilegiada”. Assim descreve Ana Silva a sua chegada ao velho continente europeu. “Encontrei logo uma faculdade muito rica e pessoas interessantes também. Com os amigos à volta, adaptei-me completamente a Portugal”. O único problema, recorda a artista, talvez tenha sido a mentalidade. “Os angolanos e os portugueses têm uma maneira de estar muito diferente. Claro que nos primeiros anos é difícil de adaptar, há pequenas coisas com as quais não estamos habituados. Mas hoje Lisboa é a cidade que eu não trocaria por uma outra para viver”, diz peremptória.
Apesar da sua primeira exposição, realizada ainda em Luanda, através da Embaixada de Itália, ter sido dedicada à disciplina de escultura, Ana Silva considera-se uma pintora a tempo inteiro. Encara a sua actividade paralela como designer de moda simplesmente como um hobbie, mas sem o sentido perjorativo que essa afirmação possa acarretar.
“Normalmente após uma grande exposição, apetece- -me sempre dar uma atenção maior ao design de moda, como desenhar chapéus ou sapatos. Para mim, é a pintura que me fornece ferramentas para transformar o que acho importante para mim, e sobretudo para transmitir o que eu quero”.
Se, contrariamente ao que diz, o design de moda se vai impondo em face do último Moda Luanda, do qual fez parte, a artista descarta a possibilidade de se dedicar às duas disciplinas artísticas ao mesmo tempo.
Ana Silva acha que ainda não chegou ao seu máximo potencial como pintora. “Eu nunca me sinto satisfeita com que eu faço. Estou sempre à procura não de mais, mas da perfeição. Quero chegar a esse ponto e pode ser que mesmo antes de o encontrar desista. Acredito que a moda vai estar sempre ao meu lado, como uma amiga querida. Quando chamo hobbie, é mesmo porque me relaxa e me faz bem. A pintura é algo que me puxa mais intelectualmente”, diz.
A pintura é para a artista uma parte de si, um pedaço que se vai soltando do seu íntimo, algo que vem dos sentidos, que tem a ver muito com o seu estado de espírito, ou seja,com a sua felicidade ou infelicidade.
“São elementos que eu transporto muito para a minha pintura. Na última exposição que apresentei cá, os quadros estavam bem mais coloridos. A quem chame isso de surrealismo, eu não consigo perceber bem a vertente filosófica do meu trabalho, se calhar não existe um nome, mas é extremamente sentimental”.
Talvez por esse e outros motivos estritamente pessoais, Ana Silva assume que vive das exposições que faz em Angola. “Porque vendo quase sempre tudo e vivo durante o ano assim. Agora, com o Moda Luanda, também vendi algumas peças. Mesmo em Lisboa, faço sempre pequenas exposições. Tenho uma outra fonte de rendimento que me dá alguma coisa, que me ajuda a orientar e controlar os meus gastos, porque também não posso esticar muito”, refere.
Lisboa não é apenas para Ana Silva a cidade eleita para viver, é também uma plataforma para uma carreira internacional que espera vir a alcançar. “Se for para aparecer internacionalmente é em Lisboa que vou ficar, porque já estive em Paris e vou agora para Nova Iorque, mas Lisboa parece uma aldeia grande. Eu vivo lá e todos os dias estou a ser influenciada por movimentos, luzes, pessoas”.
A capital portuguesa exerce uma forte influência no sentido estético da sua obra. “Nós somos influenciadas por onde estamos, com quem estamos, no momento em que estamos. Nunca rejeitei tal influência, porque acho que só me enriquece. Posso é misturar, mas nunca recuso. Eu pinto as coisas de dentro. Há uma influência permanente do sítio de onde eu vim e sempre que venho para aqui carrego um bocadinho mais as baterias e depois misturo. Até agora penso que é tudo positivo. Ganhei o prémio do jornal Público sobre a peça do dia, na feira de arte contemporânea de Lisboa, em 2004”, recorda.
“A minha intenção é viver no campo e ter um atelier maior para fazer escultura e continuar a pintar”. Dito por outras palavras a artista deseja regressar, um dia, à sua terra natal, Calulu. “Não sei quando mas sim”, diz Ana Silva sem definir datas.
Pensa inclusivamente em criar lá uma galeria de arte.
“Lá mais para frente, quero fazer uma pequena casa com uma boa galeria e fazer da fazenda da minha família um sítio mais artístico e cultural. Nasci para pintar e acho que tenho um dom. Não posso imaginar-me a passar a minha vida sem pintar. Não me vejo a não fazer isso. Antes de o fazer andava meio deprimida e não percebia muito bem porquê. Acho que todo o mundo está destinado a fazer alguma coisa. E o meu é criar, é pintar”, expressa.
O ano de 2009 ficou marcado na vida da artista como um ponto de viragem da sua carreira. “Cheguei ao ponto que queria. Vai começar uma época nova.
A última foi um momento de quase depressão e ao mesmo fim de depressão. Virei a página, e foi para mostrar que estava bem sentimentalmente, e agora começa uma outra fase, de voltar às minhas raízes”, confessa. Entretanto, a próxima exposição de Ana Silva deve acontecer em Cabo Verde, na cidade da Praia. “Caminhos” assim se vai chamar e o Calulu, sua terra natal, será, segundo a autora, o ponto de inspiração.