
Há vários anos que promove África através das palavras dos poetas. Elsa Noronha, a “dizedora” de poemas, prepara um msaho — uma forma elevada de expressão cultural, típica do povo Chope e da África Meridional para celebrar o centenário do nascimento do seu pai, o poeta Rui de Noronha.
Quando começou a “exortar África” num bar do Bairro Alto, zona típica de Lisboa, Elsa deparou com a surpresa dos responsáveis do bar: ”mas poesia africana?”, indagavam. Depois, acediam e, se de início, “o público estava todo a falar, começava a ficar silencioso e, no fim, pedia bis”, conta.
Elsa de Noronha pensava ser a primeira mulher a desbravar este terreno em Portugal e a fertilizá-lo de tal maneira que hoje a chamam-a de “poeta do dizer”, “advogada da poesia”, ou “guerreira pela palavra”.
Mas não era. Quando começou, em 1982, descobriu que a poetisa angolana Alda Lara já o fizera antes do “25 de Abril de 1974”, em pleno regime fascista. Na sua casa em Lisboa, entre pilhas de livros no chão, sobrantes de estantes já cheias, com paredes decoradas de pinturas e desenhos de autores consagrados, a “dizedora de poesia” prepara o msaho.
Num só espectáculo, a propósito de um assunto que pode ser uma crítica ao governo, ao quotidiano ou uma história alegre ou triste, Elsa junta poesia, canto, orquestra e dança ao som das marimbas.
Elsa de Noronha, uma mulher madura, com a garra de uma adolescente inconformada, levou África a empresas de operários como a Lisnave, a associações recreativas, bares, escolas, universidades, prisões, a congressos e lançamentos de livros, a salas de espectáculos e ao Centro Cultural de Belém.
A partir de 1984, passou a fazer da arte de dizer poesia a sua profissão, reformando-se do professorado em contabilidade. Hoje possui um roteiro das actuações, com várias opções de poesia e de duração. Como adereços, pede uma cadeira — uma perna doente obriga-a a sentar-se nos intervalos — e duas flores.
Muitas vezes não cobra nada, tal como aconteceu recentemente num lar de idosos, outras apenas lhe pagam o transporte. “É difícil viver da arte!”, confessa a artista das palavras.
Através da sua forte voz, um dom que a leva, aos 75 anos, a aprender rituais negros numa escola da Amadora, Elsa de Noronha divulga poetas dos oito países que falam português assim como os poetas de Goa, Macau e de outros lugares onde se fez poesia e ainda existem resquícios da língua comum
Elsa de Noronha recorda que a habilidade para “dizer” começou nas festinhas de escola em Moçambique, quando tinha dez anos. Fazia-o já no liceu e entre os amigos do bairro. Comove-se quando a memória lhe traz um episódio de menina, em período colonial, e quando nos livros escolares só havia poetas portugueses. “Estava no Colégio Munhuana. Dei 32 erros de escrita em Português e a professora, uma freira, mandou chamar a aluna que deu menos erros para me dar 32 reguadas. Ana Chadraca, deu-me apenas a primeira e pousou a régua. Recusou-se a continuar”. Recorda que na ocasião a amiga disse: “Eu não sou a professora. Ela deu erros, mas lê muito bem”, referindo- -se ao poema “Balada da Neve”, de Augusto Gil.
Esta declamadora africana tem a peculiaridade de enquadrar os sons dos tambores, o “ronronar” do comboio, o ritmo dos mineiros ou o som dos batuques nos poemas. “Estudo os poemas e recrio--os”, disse, exemplificando com a “Canção de Salabu”, de Mário Pinto de Andrade, “Holanda Companheiros”, do cabo-verdiano Osvaldo Osório, “Quenguêlêquê”, de Rui de Noronha, o “Batuque das Mulheres Negras”, de Maria Manuela Montenegro, “Rosa Afra”, do angolano Firmino Pascoal, e “Tambor”, de José Craveirinha (Moçambique).
Elsa nasceu em Agosto de 1934, filha de goês com “sangue real” e de uma africana e foi estudar para Portugal em 1955. Depois regressou a Moçambique, para de novo se fixar em Portugal em 1977. Aí começou a aperfeiçoar a dicção, a colocação, projecção e domínio de voz com professores especializados.
Na Sociedade de Língua Portuguesa cursou “Arte de Dizer” e “Dicção e Expressão Oral” e, no Conservatório de Lisboa, fez o curso de Canto Clássico, Gregoriano e de Introdução ao Jazz.
A partir de 1986 começou a cantar em coros e em 1996 gravou o primeiro CD, “Quenguêlêquê”, uma colectânea de 36 poemas de poetas de Língua Portuguesa. Passados dois anos gravou ”Natal — Pedir a Paz, Exigir a Paz”, com 32 poemas, e em 2000 lançou “Brasil e África”, 31 temas ditos com o declamador Fernando Afonso. Em 2002 fez o CD “De mãos dadas/Encontro de culturas”, que reúne 41 momentos de poesia acompanhados de violão e piano. O mais recente trabalho de 2004, “África Surge et Ambula”, surge a partir do poema de Rui de Noronha, dito com as declamadoras Carla Filomena (angolana) e Teresa Roza d’Oliveira (moçambicana).
A sua arte já foi mostrada na Alemanha, Brasil, Cabo Verde, França, Holanda e Moçambique. Gostaria de a trazer a Angola.
Elsa de Noronha afirma que esta “luta de dizer poetas africanos” começou por José Craveirinha. Foi só mais tarde que iniciou o estudo dos poemas de António Rui de Noronha, o pai que recorda com ternura. “Quando ele tocava piano, eu não podia fazer um único barulho. Era o silêncio absoluto porque ‘a música é para ouvir’”.
Elsa publicou o livro “África Surge et Ambula”, uma compilação dos poemas de Rui de Noronha, em colaboração com a investigadora Paula Ferraz, em 2007.
Sobre o trabalho do pai publicara antes “Poetas moçambicanos”, de Fátima Mendonça, “Mata-Bicho” de António Sopa, Calane da Silva e Olga Iglésias.
Elsa de Noronha vai fazer o “msaho” “Nascer, Crescer/Emigrar, Regressar”, a 31 de Maio, no auditório Natália Correia, em Carnide, um bairro da capital portuguesa junto a Benfica. A propósito daquela poetisa e deputada, falecida em 1993, em cujo bar há muitas décadas se “disse Mãe África”, Elsa explicou porque exige sempre duas flores nos seus espectáculos. “É que no final do meu trabalho atiro as flores ao público com o poema ‘Amizade’: ‘Eu queria dar-te um beijo, queria dar-te uma flor, dar é meu desejo, e eu só quero dar-te amizade’”.
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