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Dedicou a vida 
à pintura e ao desenho

Uma vida a pintar

Amílcar Vaz de Carvalho nasceu em Luanda, no Bairro dos Coqueiros.

Foram muitos anos de cigarros e os gases nocivos libertados pelas tintas e diluentes que sacrificaram os pulmões do pintor Amílcar Vaz de Carvalho. Em nome do prazer e da arte sucumbiu ao infortúnio. Agora suspira pelo regresso a Angola, como se fosse um último desejo.

Nas paredes do seu apartamento no Cacém, nos arredores de Lisboa, só existem quadros seus, que prestam jus à obra de uma vida dedicada à pintura.

No dia em que o entrevistámos, recebeu-nos a sua infatigável mulher e um simpático cão. Nós procurávamos o artista angolano, de espátula irrequieta e paleta colorida, que esgrimia no encontro com a tela a paixão pelos musseques, embondeiros e cafezais, pelas gentes e pela natureza selvagem.

Infelizmente o que encontrámos foi um homem contrariado e amargurado com a vida, que sobrevive devido à sua teimosia, agarrado a uma máquina que lhe oxigena os pulmões.

“O que me aborrece mais é não fazer nada e não pintar há muito tempo, porque não posso com este cansaço, que dá cabo de mim. Se voltasse a viver a vida outra vez não pegava num cigarro ou no cachimbo”, confessou.

Nasceu nos coqueiros

Amílcar Vaz de Carvalho nasceu em Luanda em 1934, no Bairro dos Coqueiros. A sua paixão pela pintura vem dos tempos do liceu, que só terminou em Angola, quando regressou ao país após quinze anos vividos em Portugal.

Um regresso solitário e com o objectivo de conhecer melhor a terra que o vira nascer. Chegou, apaixonou-se pelo país e ficou. Trabalhava de dia num escritório e estudava à noite. Entretanto terminou a formação como topógrafo agrimensor.

A vida dedicou-a à pintura e ao desenho. Reside actualmente em Portugal e o seu estado de saúde, que inspira cuidados contínuos, impede-o de regressar a Angola. Também por isso, deixou de pintar há dois anos.

“Tenho muita pena de lá não estar. Não pude passar lá este Inverno por terem proibido os voos da TAAG. Fico à espera que a TAAG fique autorizada a voar para o espaço europeu”, afirmou Vaz de Carvalho, rematando num lampejo de felicidade: “Gostava imenso de lá voltar. Tenho saudades de tudo, do ar que se respira e até do pôr-do-sol”, confessa. À pergunta sobre o que estava por realizar na sua vida, respondeu irónico: “Falta realizar o meu funeral”.

DISCíPULO DE NEVES E SOUSA

“Uma vez descobrimos uma zona de embondeiros que baptizámos como Parque dos Gigantes”, lembra o pintor, que conviveu com o mestre Neves e Sousa, cujo atelier frequentou “até ser corrido”…

“Ele correu comigo! Um dia disse-me, você já aprendeu mais do que o suficiente, de maneira que vou pô-lo daqui a andar”, disse, reproduzindo as palavras daquele mestre da pintura angolana. Por isso continuaram bons amigos pois, além da pintura, também partilhavam a paixão pelas paisagens e pelas gentes do seu povo.

Angola não tem segredos para Vaz de Carvalho. De norte a sul conhece tudo, mas prefere a zona desértica do Namibe, o tema preferido das suas telas, que guardam a alma da paisagem.

visão sobre Angola hoje

Vaz de Carvalho considera que nem tudo é bom na evolução de Angola. “Hoje é um país diferente, muito mais dinâmico e movimentado. Às vez causa-me alguns arrepio pensar que, no futuro, pode haver falta de emprego”, declarou Vaz de Carvalho, que também sofreu na pele a acção da PIDE, no tempo do colonialismo.

Sobre os artistas angolanos, destaca Eleutério Sanches, do seu tempo, e Filomena Coquenão, actualmente a residir em Portugal que, na sua opinião, é a artista que representa a nova geração.

os vitrais do mausoléu

Para o autor dos vitrais do mausoléu de Agostinho Neto, na Praça da Revolução, as fontes de inspiração eram as paisagens, o barro amassado dos musseques, tão bem registado nas suas telas, os campos de algodão, os mágicos embondeiros e os cafezais, com o seu colorido.

“O cafezal em flor, o branco, e depois o fruto vermelho que acaba acastanhado e onde os humanos são parte da paisagem e não quaisquer seres superiores à Natureza”, realçou Vaz de Carvalho, saudoso de um dos temas favoritos da sua pintura.

O artista e o profissional

Ao nível profissional, o artista trabalhou como desenhador e preparador de obras de arquitectura e construção. Também leccionou a disciplina de Desenho e Pintura no Liceu de Luanda e na União dos Artistas. Em Portugal dedicou-se à actividade de desenhador.

Experimentou vários materiais, como o óleo, pintou aguarelas e ensaiou 
a rapidez do acrílico, mas 
“o que gostava mesmo era 
de sentir aquela massa ali com a espátula a agarrar. Mas só consegui isso quando vim para Portugal e me libertei do Mestre” (Neves e Sousa), recorda com nostalgia.

prémios de carreira

A sua primeira exposição individual aconteceu em 1958 no Palácio do Comércio, em Luanda, e a última foi realizada durante a Expo‘98, 
no Pavilhão de Angola, em Lisboa. Recebeu vários prémios e menções honrosas, participou em dezenas de exposições colectivas e individuais, está presente em muitas colecções privadas e públicas, da Europa, África, Ásia e América. Mesmo assim afirma: “Ainda não me realizei na pintura. Gostava de atingir a meta, o auge da pintura, ser conhecido em todo o mundo”.

Aos artistas angolanos aconselha que “trabalhem muito e sejam sinceros no que fazem”. “Dêem a conhecer o que se passa pela nossa terra”, desafia.

Saber mais

Dia Mundial sem Tabaco

No passado dia 31 de Maio foi o dia Mundial sem Tabaco. Recorde-se que o hábito de fumar (tabagismo) é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) a principal causa de morte em todo o mundo. A OMS estima que um terço da população mundial adulta, isto é, 1 bilhão e 200 milhões de pessoas (entre as quais 200 milhões de mulheres), sejam fumadores. O tabaco é um dos maiores inimigos da sua saúde. Se ainda é fumador, dê hoje o primeiro passo para uma vida saudável, sem fumo.

Graça Afonso
30 de Dezembro de 1899
16:42
 
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Comentários

  1. Fernando De Brito
    2010-05-16 10:20:18
    Ate sempre Tio , foi dificil ver que sofres-te tanto mas sempre com um sorriso Amigo . Tambem nao tem sido facil , lembrar o nosso ultimo encontro e ter partido na incerteza de te ver novamente ainda que com a restea de Vida que te vinha mantendo durante os ultimos anos . De ti guardo grandes recordacoes , longas conversas embora esporadicas , uma Amizade e Dignidade sem limites . Tenho a certeza que estejas onde estiveres , estas em Paz , talvez ate tenhas voltado a soltar o genio , e os dons que contigo nasceram , viveram e jamais morrerao . ....
  2. Luisa Vaz de Carvalho
    2010-04-15 22:12:15
    Até um dia primo. Tinhas idade de ser meu pai e sempre me trataste com muito carinho. Obrigada pelos momentos em que nos encontravamos na aldeia nas férias em que passeavamos todos à beira da ribeira, a conversar. Um dia vamos encontra-nos novamente à beira de uma ribeira, ouvindo as rãs e continuar as conversas interrompidas pelo destino. Fica em paz.Beijos de saudades de todos nós
  3. Guilherme de Almeida Lima
    2010-04-14 12:03:40
    É muito dificil ver partir um homem como Vaz de Carvalho.No dia do seu enterro, Luanda, que o viu nascer acordou triste,cinzenta e com chuva.É duro,mas entre ele estar vivo e a sofrer como sofreu,foi melhor o que Deus fez,levá-lo para junto de si.Paz à sua alma.Antes de terminar gostaria de salientar de que o Governo de Angola, deveria ter tratado este grande homem com mais carinho VAZ DE CARVALHO - PRESENTE Guilherme Lima
  4. Rui Paula
    2010-04-13 22:20:43
    Genro do grande artista plástico Aproveito para actualizar os dados referentes ao meu sogro e para que o Mundo saiba ...faleceu a 12 de Abril de 2010. Paz á sua alma...Que Deus o tenha em descanso merecido porque não foram nada fáceis estes últimos anos...
  5. maria João carinhas
    2009-08-05 16:52:20
    Ler o histórico deste grande pintor me deixou muito reconhecida por saber o quanto ele na sua alma de poeta de homem angolano conseguiu retratar muito bem a sua terra...Angola. Gostava muitoi de o conhecer pessoalmente. Que Deus continue a dar-lhe essa alma de gigante. Um abraço afetuoso. maria jo
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