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Dança

O Banderas angolano

António Bandeira não é um actor de cinema. É dançarino, coreógrafo, professor de kizomba 
e de outros ritmos africanos

À primeira vista o que distingue António Bandeira é um corpo musculado e as suas originais trancinhas, das cores do arco-íris, a contrastar com a timidez alimentada há 43 anos por um desportista nato.

Para lá dessa aparência está o dançarino, o coreógrafo, o professor de dança, que cultiva o gosto pelo original, o amante da natureza e das coisas simples da vida. Entre amigos, é conhecido por o “Banderas angolano”.

professor de dança

Ensinar a dançar e estar bem longe da confusão dos “ricos” são os motes do estilo de vida que este professor de dança, a viver em Portugal, adoptou num “corre-corre”, entre Lisboa, Cacém e Sintra. Neste cenário cai o pano da timidez. De quando em vez dá uma escapadela ao mar. É lá que encontra a paz, que acalma os pensamentos.

Desapegado do dinheiro, organizado, discreto e trabalhador, Bandeira sabe o que quer e, sem fazer muitas ondas, as aulas de dança garantem-lhe um nível de vida confortável e, sobretudo, a sua realização profissional.

Foi no intervalo desse “corre-corre”, enquanto esperava pelos alunos de um pequeno clube das Mercês — onde não faltavam, nem os espelhos de alto a baixo, nem a velha barra da dança clássica — que Bandeira nos concedeu algum tempo da sua natureza reservada para levantar um pouquinho do véu da sua vida na diáspora.

Bandeira ensina kizomba e ritmos africanos, salsa e ritmos latinos e ainda danças de salão. Criativo e original também faz coreografia e amiúde é convidado para jurar em concursos de dança. Homem livre e sem compromissos, Bandeira, afirma-se bom cozinheiro e com a cabeça no lugar.

Nascido em Luanda

“Tudo começou por uma questão de irreverência minha” revelou António Bandeira, para quem a dança é tudo e ensinar a sua paixão.

Bandeira nasceu no antigo Bairro Popular, hoje Comandante Neves Bendinha, em Luanda, no seio de uma família com dez irmãos. “A mãe era uma mulher de fibra, que contribuiu para a união” recorda Bandeira, que aos Domingos tinha de trocar a jogatina da bola, pelos deveres religiosos. Obrigação que dispensaria em adulto.

Cresceu como tantos outros jovens da sua geração entre a guerra, o medo e a luta pela sobrevivência diária. E foi nesse limbo que viajámos até às sensações que as memórias desse tempo tatuam no espírito de uma criança. Revivendo a custo o que sentiu em plena guerra, Bandeira revelou: “É algo devastador! Transforma as pessoas. Não recomendo a ninguém… É um sentimento de impotência. Não se podia sair à rua e a comida e a água eram escassas”.


recordações de infância

Falámos desses tempos e da imaginação da criança angolana para fazer os seus próprios brinquedos. Bandeira foi um desses meninos sofridos, que faziam carrinhos de lata para vender a outros meninos. O “vil metal”, esse, investia-o nuns chinelos ou numa tesoura nova, que lhe aumentava o manancial de ferramentas.

Ainda em Luanda a dança começou por uma irreverência sua.”Eu tinha amigos que não dançavam e tinham tendências auto--destrutivas e então achei bem reuni-los para que se interessassem em aprender. Na altura formou-se um grupo e as aulas aconteciam no terraço de um amigo, pequenas “matinés” para conviver. As coisas eram difundidas do bairro para a escola e as pessoas aderiam. Eu dei formação, passei os meus conhecimentos. Nunca houve fins lucrativos e cada um trazia o que podia para comer. Hoje esses amigos, alguns vivem em Angola, outros no Brasil ou em Portugal, não trabalham na dança, mas estão bem. De outros perdi-lhes o rasto”.

vida de aventura

A vida de António Bandeiras é uma aventura, para quem “a riqueza só atrapalha e só se está bem longe da confusão dos ricos”, afirma.

Chegou a Portugal em 1991 e, contrariamente ao que seria normal, ninguém o esperava, nem família, nem amigos. Bandeiras aterrou no aeroporto da Portela com uma primeira sensação de estranheza. “Esperava algo mais moderno e os portugueses falavam tão depressa que eu não entendia nada. Tive de pedir às pessoas para falarem mais devagar” relembra o professor.

O périplo do ensino da dança em Portugal teve o seu início na Casa da Juventude das Mercês, a partir de uma proposta que apresentou à direcção da organização há cerca de cinco anos atrás.

A ideia baseava-se na experiência que trazia de Angola e na vontade de divulgar as origens da dança africana: “Há que primar pela divulgação da dança com verdade e orientar os mais novos — independentemente de serem de origem portuguesa — já que pouco ou nada sabem da sua cultura, pois já é notório a confusão da origem da kizomba, que é, sem dúvida, angolana” sublinha António Bandeira.


Angola no coração

“As saudades são muitas da família, dos amigos, da chuva, dos cheiros e da forma de ser das pessoas”, mesmo constatando, durante umas férias de há cerca de três anos, que a sociedade angolana se está a modificar.

António Bandeira apercebeu--se, durante essa estadia, da “onda de consumismo” que invadiu Angola, da corrida ao enriquecimento e de que todos os acontecimentos obedecem a um ciclo. E Angola está, como é visível, no ciclo da mudança.


corrida à riqueza

Quanto à data do regresso a casa, afirma peremptório: “não sei quando acontecerá, mas há um sentimento de regresso, que nunca perdi”.

Em relação à Angola de hoje afirma:” Espero o melhor. É inquestionável que o caminho que Angola está a levar só nos proporcionará o melhor. Acredito no futuro do meu país” afirma Bandeira.

Para os “putos” que ainda continuam a tradição dos carrinhos de lata deixa a seguinte mensagem: “A corrida à riqueza faz com que nos esqueçamos dos valores humanos, por isso a minha mensagem vai mais neste sentido, de não se esquecerem de valores como a solidariedade, a amizade, o carinho, o amor e a entreajuda. Tudo isto é muito importante, porque as pessoas ricas têm tendência a fazer novas amizades — os amigos do dinheiro — e a esquecer as antigas”, afirma.

amigos verdadeiros Tal como diz o ditado kimbundo: “Quando se tem dinheiro, temos amigos, quando se acaba o dinheiro, acabam os amigos”, concluiu o professor António Bandeira.

Já no limite do nosso tempo e com os alunos mesmo a chegar para a próxima aula António Bandeira ainda aproveitou para rematar directo à baliza: “Há quem prime mais pela imagem, do que propriamente pelo que tem no estômago, já que da essência nem vale a pena falar”, afirma o professor.

Graça Afonso
26 de Junho de 2009
14:05
 
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Comentários

  1. evilma bandeira
    2010-07-17 09:31:25
    ola ,antonio bandeira é um exemplo de pessoa e de vida pra mim porque lutou pelos seus ideais e alcançou os seus objectivos como garra e determinação...
  2. Gaynor Gregson
    2009-07-21 15:38:06
    Ola,just thought i would send mail to say hi from Manchester.Hope you are well.x From the Eglish lady who had a lesson with her friend Judy
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