
Maria Aurora Marques Dantier é filha de mãe angolana e de pai português. Lutadora, corajosa, simpática e decidida esta mulher franzina, natural da Caconda, distrito do Lubango, passou dificuldades que não esconde.
Aos 44 anos de idade, recorda-se desses momentos sem vergonha e com o orgulho próprio de quem sabe o que sofreu, para chegar onde chegou.
A conselho de uma tia portuguesa, ingressou na PSP. Casou, descasou e é mãe. Hoje, fardada a rigor e com as divisas de subcomissário da PSP, ganhou o respeito de todos os colegas.
Aurora Dantier recebeu--nos no seu gabinete do Comando-Geral, em Lisboa.Um espaço acolhedor, onde não falta o toque feminino de algumas plantas bem tratadas, enquadradas pelos tradicionais azulejos azuis de um antigo palácio lisboeta, que já acusa a falta de manutenção.
“Sou uma mulher independente, amante da natureza, que abomina a rotina e a mediocridade”, afirma com vivacidade.
A sub-comissária não esquece o trauma da “emigração forçada” para Portugal, um episódio que quase levava à separação da família Dantier. “Eu, a minha mãe e as minhas irmãs gémeas chegámos a ser retiradas da fila de embarque”, disse, referindo--se ao momento em que aguardavam para embarcar no avião da última ponte aérea para Portugal. Porém, o pai enfrentou os militares: “ Se elas ficam, eu também não embarco!” E por obra dos deuses ou sabe-se lá do quê, lá acabaram por partir.
mudança para portugalA família chegou a Portugal sem nada. A bagagem ficara para trás. E o improviso pela sobrevivência surgiu quando tiveram de ficar no Aeroporto da Portela… “Dormimos no chão do aeroporto durante vinte dias. Era Outubro, chovia a potes e estava muito frio. A minha mãe chegou mesmo a cortar a nanga que trazia enrolada à cintura para fazer fraldas para as gémeas, que na altura tinham apenas onze meses”, recordou Aurora com amargura.
Chegar à terra natal do pai “foi um castigo”. De comboio até Aveiro e ainda até à Paradela. Quando já faltava tudo, “ainda tivemos de andar a pé… sempre a subir até Pessegueiro do Vouga, numa estrada de terra batida, cheia de curvas e contra- -curvas, só com a roupa que trazíamos no corpinho”.
Entretanto, “a minha mãe agarrou-se à terra. Era preciso sustentar os sete filhos”. Aurora, qual “filha coragem” deu a sua preciosa ajuda e começou a trabalhar aos 13 anos. Passaram por Vale de Cambra, Mealhada, Ovar e finalmente Lisboa.
Em 1980 Aurora chegou a Lisboa. Tinha 16 anos. Para pagar os estudos fez diversos serviços domésticos. O tempo que lhe sobrava dedicava-o ao estudo.
Aos 18 anos foi trabalhar para um gabinete de contabilidade e aí ficou até aos 21, idade com que concorreu à PSP, em 1985.
Em Março de 1986 foi chamada para prestar provas. “Quando recebi a carta a confirmar que tinha sido aceite, eu e a minha família pulámos de contentes”, confidenciou.
Já em pleno curso, Aurora Dantier engravidou e interrompeu os estudos. Regressou e terminou o curso em Junho de 1988. Depois ficou em Lisboa como agente da autoridade, com um ordenado de 56 contos, o equivalente hoje a 390 dólares. No início não foi fácil os subalternos aceitarem as ordens de um mulher. O mesmo se passava com os cidadãos no dia-a-dia. Já passou pela Divisão de Segurança, pelo Comando- -Geral. Mas foi no Trânsito que mais gostou de trabalhar.
Uma missão a Moçambique em 1994 acicatou-lhe as saudades e a vontade de regressar a Angola. Os filhos também sentem curiosidade e vontade de conhecer a terra-natal da mãe.
Amante de sol e mar, Aurora faz longos passeios pela praia, enganando assim as saudades de Angola.
Boa cozinheira e apreciadora de boa comida, não dispensa um calulu de peixe, uma cachupa, caldo de peixe, caril de amendoim, mataba ou canjica. Algumas destas receitas aprendeu-as para agradar ao ex-marido moçambicano.
A todas as mulheres angolanas deixa a seguinte mensagem. “Força. Lutem, principalmente se tiverem filhos. Desistir é morrer!”, aconselha a única oficial de origem africana da Polícia de Segurança Pública em Portugal.
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