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Lá fora

Ery Costa

Actor, guionista, poeta, desportista, escritor

Uma estrela, cinco princípios

Artista multifacetado, professor, desportista, Ery Costa é um homem de múltiplos talentos. Apesar de viver em Portugal há 28 anos, o público angolano conhece bem o rosto deste homem à frente de várias campanhas publicitárias no nosso país

Cortesia, perseverança,

auto-domínio, espírito indomável e integridade são as pontas de uma estrela de cinco princípios que norteiam a vida do actor, guionista, poeta e professor de artes marciais Ery Costa, natural de Benguela e há 28 anos a viver em Portugal.

A Torre de Belém, em Lisboa, de onde tantos barcos partiram em busca das riquezas africanas, foi o cenário escolhido para conhecer Ery Costa, um angolano já no trilho dos quarenta.

Hoje o ponto de partida e de regresso é o aeroporto da Portela, em Lisboa, de onde os portugueses partem em busca de trabalho e os angolanos para matar saudades e contribuir com saber e experiência para a reconstrução do país novo.

Ery Costa é optimista, generoso, amigo do seu amigo e sensível, como é próprio do ser poeta, perfeccionista, trabalhador e muito obcecado pelos seus projectos. Vive hoje muito saudoso do pai. Amanhã do filho.

ARRANCADO DA TERRA

Sozinho e apenas com 14 anos, Ery saiu de Angola com o coração partido. Estreou a sua primeira noite em Portugal na Amadora mas na seguinte já estava no Seixal, em casa de outros familiares.

Por lá ficou, do outro lado do rio Tejo, durante 28 anos, casou e tem um filho. E é lá ainda que muitos jovens angolanos se mantêm pela sua formação, sempre com Angola e a família no coração.

Ery Costa pertence a essa geração que veio na adolescência, que da noite para o dia deixou para trás o carinho da família, o calor e o cheiro da terra amada, em troca de paz e de formação.

Dos propósitos que tinha, apenas encontrou a paz nesses primeiros tempos. Recorda “a sensação de desamparo de quem deixa para trás 17 irmãos”, hoje são 36, e o primeiro emprego numa loja de decoração, com um ordenado de 7.500 escudos (53 dólares) mensais, em vez do liceu, que estava por terminar.

O “SALTO PARA A ESSÊNCIA”

Ery Costa deixou a competição desportiva há quatro anos. Durante 17 anos foi o campeão de taekwon-do, pesos pesados, por Portugal. Mas a semente do teatro já estava na sua vida desde a escolinha. A mãe, qual encenadora, já lhe atribuía pequenos papéis, que desempenhava com perfeição.

O “salto para a essência” deu-se naturalmente e hoje o teatro, o cinema e a televisão aconteceram na sua vida, embora aconselhe os pretendentes à carreira de actor a manterem formas alternativas de sobrevivência.

Que não se iludam os candidatos com as facilidades de concretizar a profissão de actor porque, como esclarece Ery Costa, “todos trabalhamos noutros empregos e acabamos por fazer sempre papéis estereotipados”.

“Porque não posso fazer de advogado ou de engenheiro? Felizmente não me posso queixar muito porque tenho trabalhado regularmente. Tenho tido sorte!”, diz o actor com modéstia. Se não fosse o seu talento, não seria só a sorte a ditar-lhe o destino.

Sobretudo o talento de quem considera que a falta de trabalho e o estereótipo de papéis são os principais obstáculos à sua evolução.

“Se tivéssemos mais trabalho, podíamos mostrar mais as nossas potencialidades. Há desperdício de talentos”, critica, acrescentando que

“o teatro é uma escola muito boa, onde temos a oportunidade de trabalhar de forma diferente todos os dias”.

Ery Costa é um actor agenciado da BOX e sobejamente conhecido no panorama artístico português.

Com os leitores da revista Vida partilhou a sua emoção relativamente à peça de teatro preferida, Lisboa Invisível, onde só participaram actores africanos e que está em exibição nos teatros São Luís e Meridional, na capital portuguesa.

“Foi um trabalho muito bom, porque foi como que exorcizarmos tudo o que nos aconteceu até à data em Portugal. Foi a expressão de sentimentos escondidos, a despedida dos familiares que não se chorava, as mães que ficavam a sorrir e a sofrer e também os laços que se partiam e faziam doer.

E esses sentimentos quando beliscados são muito difíceis de suportar”, sintetizou.

O texto da peça foi nascendo desses sentimentos escondidos e contidos e da relação que foi nascendo no dia-a-dia entre os actores de vários países africanos. Também uma forma diferente de fazer teatro.

Equipa e actores, como um único coração, choraram durante cerca de uma hora para deitar fora esses sentimentos das partidas e das expectativas não cumpridas, que só se cruzam nos olhares e no silêncio das preces das mães que ficaram para trás.

TERRA DE CONCRETIZAÇÃO

O regresso a casa está prestes a acontecer e com Ery Costa viajam dois livros de poesia, um romance por editar, alguns projectos para a televisão e formação de actores. Apesar do vasto palmarés, o actor não se fica pelo teatro já que a poesia e o guionismo são outras das suas actividades. E tem a curta-metragem de comédia (sitcom) “Os Primos”, já com o programa piloto gravado, a aguardar investidor.

Também uma longa-metragem, com o título Guerra em Tempo de Paz, já na fase final e com um argumento assaz interessante, mas ainda no “segredo dos deuses”, ilumina a esperança do autor de vir a ser visionada pelo público angolano, pelo que apela: “Somos actores, somos angolanos. Não se esqueçam de nós. Precisamos de trabalhar”.

Setembro é o mês da partida e desta vez quem vai são o pai e a mãe. O filho, de 18 anos, fica para trás. Outra saudade que já começa a doer a estes “pais galinha”, como Ery se define a si e a Mónica, com quem casou há 20 anos.

Antes de partir deixa “um abraço enorme” para o pai, por quem tem “o maior respeito e consideração”.

“Quero dizer que o amo muito. Todos os dias ligo para Angola… Hoje em dia muito poucos filhos dizem isso aos pais”, comentou Ery Costa, já em jeito de despedida.

PERFIL


  • Nome: Ery Costa
  • Profissão: Actor, guionista, poeta, escritor
  • Idade: 44 anos
  • Natural: Benguela
  • Signo: Sagitário
  • Filme: Era uma vez na América
  • Livro: O Perfume
  • Peça de teatro: “Lisboa Invisível”
  • Qualidade: Amizade
  • Defeito: Teimosia
  • Detesta: Hipocrisia e mentira
  • Aprecia: Sinceridade
  • Desporto: Taekwon-do
  • Viagem de sonho: Não tem, já viajou pelo mundo todo
Graça Afonso
30 de Julho de 2009
10:39
 
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