“Bichila” chegou ao Centro Cultural de Belém, em Lisboa, no seu jeito próprio, tímido, sem vaidade e bem cuidado. Ele sabe o que quer mas não voa mais do que as suas asas lhe permitem.
A timidez, essa, não passa para o palco, já que “Bichila”, homem de muitos conhecidos e poucos amigos, determinado, teimoso e trabalhador, sonha ser um cantor bem sucedido.
Ilísio Manuel Paulo António, 35 anos, natural do Dondo, Kwanza Norte, tem cinco irmãos e foi baptizado pela mãe de “Bichila”, que em kimbundu significa “chegar”. Era esta a palavra que repetia cada vez que o músico e poeta acabava de chegar de Luanda. Assim ficou o nome “Bichila”.
No coração do artista mora a música. Canta e compõe nas horas livres, mas trabalha como técnico de remoção de amianto, profissão de alto risco para a saúde, se as devidas precauções de Higiene e Segurança no Trabalho não forem tomadas.
O amianto é uma substância constituída por cristais em forma de agulhas, de diminuta dimensão, que provocam diversas doenças quando inaladas ou até quando em contacto com a pele. Estudos científicos estabeleceram um nexo de causalidade entre a exposição ao amianto e o cancro do pulmão, concluindo que a sua frequência é dez vezes superior nos trabalhadores
que lidam com a substância.
Há 13 anos longe de Angola, morre de saudades da mãe, “Zinha”, a quem telefona e escreve regularmente e confessa: “o meu maior desejo é nascer de novo, para ver Angola crescer comigo”.
“Bichila” saiu do Dondo aos 15 anos e foi sozinho para Luanda. É da geração desses jovens sofridos que, por força da guerra, ficaram prisioneiros em Luanda. É da geração das crianças que não tinham brinquedos e que dos restos de latas exercitavam a inteligência e construíam os seus próprios carrinhos.
O cantor é filho dessa guerra que “destruiu a vontade de estar onde queria estar e de estudar…”, confessa “Bichila”, que aprendeu a profissão de mecânico no bairro do Maculusso, por volta dos 18 anos. Ainda assim, sente saudades desses locais onde em criança brincava às escondidas.
Também se desenvencilhou a conduzir sem nunca ter sido ensinado, mas a dança e a música falaram mais alto e apaixonou-se pelo trabalho do Ballet Tradicional “Kilandukilu”. E assim foi trabalhando na dança e como mecânico. Em 1999 entrou no mundo da composição musical. Ilídio também escreve poesia. É, em suma, um artista versátil.
“Os ‘Kilandukilu’ começaram do zero, com música em cassete, mas no primeiro aniversário já tínhamos 18 elementos. Carregávamos instrumentos às costas. Tudo por amor à arte”, disse. “Chegávamos a andar três horas a pé para arranjar contratos, eu o Petchú e o Justino, que foi para a Lunda. Se estiveres por aí dá sinal de vida”, desafia “Bichila”, num apelo a um grande amigo perdido no espaço e no tempo.
Com o grupo viajou pelo mundo — de festival em festival. Visitaram a Coreia do Norte, a Suécia, a África do Sul, o Brasil e, no regresso de uma viagem à Alemanha, acabaram por ficar em Portugal, por conta própria e à beira dos vinte anos. Os que regressaram continuaram a obra dos “Kilandukilu” que até já se exibiu no Japão.
Os elementos do grupo que ficaram em Portugal “assentaram na margem sul do rio Tejo, em Paio Pires. Entretanto dispersaram, semeando os “’Kilandukilu’, que cresceram em pleno terreno da lusofonia”.
“Bichila” ainda mora no Fogueteiro e o trabalho nocturno permite-lhe conciliar o sustento com a música. Confessa que está satisfeito com a vida, embora sinta muitas saudades dos amigos dos quais ignora o paradeiro.“É um local bom, calmo, sossegado e onde os transportes são de fácil acesso”, explicou “Bichila”, acrescentando que está a preparar o seu próximo disco, com o título “Kilandukilu”, ao som de semba e com letras exclusivamente cantadas em kimbundu. Produzido pela editora D. Lanterna, o trabalho estará disponível
no final deste mês, em Angola e em Portugal.
Perfil
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