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reportagem

A “geração andróide”

Num fim de tarde encontramos o empresário Guerra Loy, 37 anos. Em meio ao corre-corre de uma paragem de táxis ele parou o carro. Após terminar uma conversa através do telemóvel, confessou nos que é um dos muitos cidadãos que usa o aparelho constantemente. “Uso muito, de 15 em 15 minutos faço ou recebo uma chamada”, explicou-nos. Precavido, o homem de negócios explicou nos que anda sempre com uma bateria de telefone suplente, para evitar ficar “desconectado”. Apesar de hoje não largar o seu telemóvel, nem sempre a sua rotina foi assim.

Antes de começarem a ser comercializados os aparelhos móveis, a solução era deixar um bilhete à pessoa que quiséssemos contactar, combinar uma hora para falar ou procura-la em casa ou no local de serviço. “Era difícil trabalhar, perdíamos muitas oportunidades porque, para resolver uma questão simples demorávamos muito tempo”, frisou.  Guerra Loy lembrou que no final da década de 90 era muito difícil ter um aparelho de telefone móvel. Para tal, era preciso escrever uma carta ao departamento da “Angola Telecom” responsável pela comercialização, caso o pedido fosse aceite o candidato recebia uma declaração e podia então dirigir-se à loja para comprar o aparelho. “O primeiro que tive custou dois mil dólares”, lembrou.

Apesar dos ganhos, o empresário reconhece que o telemóvel tem o inconveniente de ter que receber ligações constantes. As consequências estendem-se ao plano amoroso, com o aparelho de telefone móvel a gerar conflitos no casal. “No meu caso, quase que levou a separação, porque eu via as chamadas recebidas no telefone da minha mulher e vice-versa, mas hoje controlamos melhor. Confio na minha companheira”, explicou o empresário. Carmem Braga, 36 anos, também falava ao telefone quando a encontrámos, pelo que tivemos que esperar alguns minutos para conversarmos.

Ela explicou que é “viciada” no telemóvel, a tal ponto que gasta, em média, cinco cartões de recarga por dia, gastando um total de 4.000 Kwanzas diariamente. “Para além de ligar para os meus familiares e amigos, as ligações são importantes para os meus negócios”, acrescentou. “O telemóvel veio para ajudar-nos, faz com que estejamos mais próximos da família e dos amigos”, defendeu Maria Alice, 36 anos.

Ela lembrou que comprou o primeiro aparelho de telefone móvel em 2.000 e nunca mais deixou de usar um. “Antes, para contactar os meus familiares que vivem em outra província tinha que deixar uma carta nos correios e esperar que chegasse ao destino, agora falas com quem quiseres, desde que tenhas saldo”, realçou, reclamando, entretanto, do custo dos cartões de recarga que, no seu entender, deveriam ser mais baratos.

Quem também está constantemente ao telefone é Jorge Portela, que comprou o seu primeiro aparelho de telefone móvel há 12 anos, numa altura em que, lembra, “não era qualquer um que tinha um telemóvel”. Para tal, teve que desembolsar 500 dólares, valor que pagou a um amigo que trouxe o telefone de Portugal. Volvidos vários anos continua “conectado”, mas não compra aparelhos caros até porque já foi assaltado cinco vezes e em todas as ocasiões os malfeitores levaram o telemóvel. “Perdi muito, já tive 923, 924, 925 e agora estou a usar um 914”, explicou.

Apesar de se regozijar pelas vantagens de poder ligar ou receber chamadas quando quer, Jorge Portela manifesta se preocupado com a dependência dos adolescentes e jovens em relação ao telefone. “Ao invés de estarem sempre com o telefone na mão deveriam pegar em livros e procurar aprender mais”, aconselhou, condenando os casos em que pais compram telemóveis para crianças com menos de 15 anos.

INTERNET: UM MUNDO A PARTE


Para além dos telefones móveis, outra das “febres” da nova geração é a internet, que abre a janela para as redes sociais como o Facebook (que tem mais de um milhão de usuários em todo mundo) e o Twiter.

Para estarem conectados os usuários recorrem, maioritariamente aos “cyber cafés”, onde acedem a computadores públicos ligados a rede, pagando até 200 Kwanzas por dia.

Gabriel Saidi, gerente de um espaço na zona do Congolenses informou-nos que atende diariamente uma média de 50 pessoas, sendo que a maioria acede as redes sociais. A grande preocupação para os proprietários de “cyber cafés” é o facto de muitas crianças pagarem para ficarem horas e horas jogando no mundo virtual. “Nem sei onde eles conseguem dinheiro, mas noto que estão viciados”, lamentou Gabriel Saidi.

Um dos jovens que estava no local contou-nos que usa frequentemente a internet para aceder as redes sociais, mas que também aproveita para fazer pesquisas escolares.

OS RISCOS DO VÍCIO

As novas tecnologias de informação são benéficas mas, ao mesmo tempo, quando as pessoas tornam-se viciadas acabam por ser um problema. “Em muitos casos, o usuário não consegue afastar-se do computador, fica a jogar horas e horas ou a ver filmes, o que pode criar transtornos e insónia”, alertou o psicólogo Félix Mizé. Nos casos mais graves, segundo a mesma fonte, o indivíduo acaba por isolar-se e cria um mundo a parte. “É um problema sério, que precisa ser seguido e é necessário que seja estudado cientificamente”, frisou .


Suzana Mendes
8 de Junho de 2012
09:37
 
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