Há precisamente sete anos nascia, no bairro do Kikolo, município de Cacuaco, um projecto pioneiro que teve por objectivo acolher crianças desamparadas, privadas do amor, atenção e protecção das suas famílias, incluindo crianças que eram acusadas de feitiçaria e outras “órfãs” de pais vivos. A iniciativa, tomada a peito pelo reverendo Júnior João Caçule, foi inclusivamente rotulada por alguns moradores do Kikolo como “a casa das crianças bruxas”, facto que não chegou a impedir o nobre propósito de adoptar e reunir, em casa de sua mãe, duas dessas crianças acusadas. “Infelizmente, ao longo dos dias que se seguiram, mais crianças foram levadas à casa da minha mãe. A casa ficou conhecida como a casa onde os meninos bruxos eram acolhidos. De duas crianças o número subiu para dez”, contou-nos o reverendo.
Foram essas dez crianças que, em 2004, viriam a constar do projecto social “Pequena Semente”, agora no Kifangondo, desde Dezembro de 2010, o qual a reportagem VIDA vem acompanhando, reportando um conjunto de acções de solidariedade desenvolvidas por algumas instituições e entidades particulares, em benefício das crianças que estão directamente ligadas ao projecto e de outras da comunidade local que vêem a nova instalação do projecto como uma espécie de “creche comunitária”, onde muitas crianças são deixadas pelos pais para passarem o dia e são recolhidas de noite.
A nova instalação do projecto, construída pela Sonangol, situa-se num terreno de oito mil metros quadrados, e compreende três dormitórios (com as respectivas casas de banho), um escritório, uma sala de aula (ainda não apetrechada por falta de material), um refeitório, uma cozinha, duas casas de banho externas, e um vasto espaço (ainda não vedado), que serve de quintal. “Trabalhos filantrópicos como este, digo-te, sozinho não seria capaz. Conto com a ajuda de algumas pessoas anónimas e não só — como o bispo Emílio de Carvalho, grupo “Esperança”, formado por actores e actrizes angolanos, o senhor Brito Júnior, David Mauro, a senhora Eunice de Carvalho, membros de igrejas cristãs, “Coral Alegria” da Igreja do Carmo, Associação de Apoio à Mulher Polícia de Angola (AAMPA), Chevron e agora da OMA — que fizeram evoluir esse projecto”, salientou.
O projecto conta ainda com cinco funcionários, nomeadamente três professores, uma cozinheira e um segurança, que, segundo o responsável do projecto, são uma espécie de funcionários voluntários, que vivem daquilo que vai tendo como apoio. “Não há um salário cabimentado porque não temos. Eles ganham aquilo que consigo”, disse o reverendo, que acolhe nesse momento um total de 70 crianças, 46 rapazes e 24 meninas.
No âmbito do dia da Criança Africana, comemorado a 16 de Junho, algumas entidades e parceiros do projecto como a OMA, AAMPA, a Imprima, grupo “Esperança”, e o “Coral Alegria” da Igreja do Carmo, juntaram-se à causa solidária e passaram o dia com as crianças que pertencem ao orfanato e outras dos arredores do centro. A membro da OMA Vitória Francisco Correia da Conceição entendeu o gesto da sua organização como a tradução prática do que ficou aprovado como programa de acção, aquando da realização do seu quinto congresso, que prioriza o apoio e a protecção à mulher e à criança. “Significa que num dia como esse, todos nós possamos transmitir a solidariedade a estas crianças e fazer despertar a sociedade que o lugar da criança é na família, onde ela procura desenvolver valores e atitudes que lhe permitem valorizar um comportamento cívico e moral, proporcionando um crescimento harmonioso e socialmente útil no amanhã”, afirmou.
A porta-voz da “Associação de Apoio à Mulher Polícia de Angola”, Tânia de Carvalho, disse, na ocasião, que a participação da AAMPA responde sobretudo à preocupação com o futuro. “Como o reverendo aqui tem dito «Criança cuidada, nação segura». É inconcebível falar de uma criança sem falar da mulher, quanto mais uma mulher que tem a obrigação de manter a ordem e a tranquilidade pública, não só do lar mas da sociedade. Nós, as mulheres, nos preocupamos com o futuro, com as crianças desamparadas”, realçou Tânia de Carvalho, que aproveitou para chamar à responsabilidade todas as forças activas da sociedade para com a criança. “Sempre que possível, sempre que necessário, independentemente de nós não termos as condições todas para estarmos aqui a tempo a AAMPA dá sempre o seu apoio ao próximo. É uma responsabilidade que a ninguém mais podemos entregar. É nossa e temos de assumi-la. Faz parte da nossa lição de vida. Uma lição que cumprimos com muito amor”, concluiu.
O Reverendo Júnior João Caçule (na foto) dirige o projecto Pequena Semente. No início, por acolherem muitas crianças consideradas como “feiticeiras”, a casa foi apelidada de “Casa das Crianças Bruxas”. Mas com dedicação, carinho e muito trabalho, Júnior Caçule conseguiu mostrar que, acima de tudo, era um projecto que acolhia crianças marginalizadas pela sociedade, carentes de afecto e com muita vontade de serem felizes. Bem haja!
Outra mão solidária é a do “Coral Alegria” (na foto, com camisolas vermelhas) que tomou contacto com o projecto em Dezembro do ano passado, aquando da realização do “Natal da Criança” organizado em prol do orfanato. “A partir desse data decidimos manter uma parceria com o projecto “Pequena Semente”, razão pela qual vimos novamente para prestar a nossa solidariedade às crianças órfãs e elas precisam e estaremos sempre mais vezes”, garantiu o presidente do grupo Ely de Carvalho Pascoal.
O Grupo Esperança (na foto com camisolas brancas) é o mais activo dos parceiros. A ligação ao projecto já dura três anos, quando o projecto estava ainda no bairro do Kikolo. Kitengo Kunga, responsável do grupo de actores e actrizes angolanos, vem acompanhando, mesmo à distância, as diversas fases e períodos do projecto, funcionando como pombos-correios na permanente busca de outros parceiros que possam ajudá-lo a auto-sustentar-se. “Temos ajudado na promoção e divulgação do projecto, buscando patrocínios para as questões correntes, oferecendo a nossa imagem para melhorar o espaço. No mês da criança aproveitamos normalmente o dia 16 de Junho, uma vez que no dia um é difícil trazer a esse espaço o maior número de organizações possível, devido às várias actividades. Aproveitamos o dia 16 de Junho, que é o dia da Criança Africana, para termos aqui o maior número de organizações e mostrar as dificuldades para que as pessoas possam apoiar”, afirmou o actor.