“Ser sexy é estar bem, ter auto-estima, gostar daquilo que nós usamos e estar na moda também”, afi rmou Louvada do Nascimento, estudante do curso de Economia e Gestão da Universidade Católica de Angola (UCAN). Djalmira Pedro partilha a mesma opinião e frisa que “ser sexy é estar bem connosco mesmos”.
Contrariamente a tendência dos últimos tempos, Odete Maria, 22 anos de idade, defende que para se ser sexy o mais importante é “estar bem” e não necessariamente estar a usar decotes, mostrar a barriga e muito menos as pernas. Por outro lado, a jovem realça que não existe um padrão de sensualidade, porque é algo que “está em tudo”, “até na inteligência”.
“Ser sexy está ligado à aparência, não do ponto de vista fi sionómico mas da apresentação e auto-estima”, realçou o estudante Manuel Alberto.
Ivanilson Rodrigues, de 21 anos, morador do bairro Cazenga, considera-se um homem sexy por ter “swagger”, que defi niu como sendo uma combinação de estilo, maneira de se apresentar e beleza física. E acredita que as mulheres se sentem mais atraídas por ele por causa da sua forma de vestir.
“Sou sexy demais, por causa do meu estilo único, inspirado em mim mesmo”.
Disse-nos Angelino de Jesus, cabeleireiro do bairro Cazenga, que acrescentou que pode estar sexy até com uma roupa rasgada, só depende das circunstâncias.
O professor de língua Francesa da UCAN, Gonçalo Silva, frisou que há que se fazer a distinção dos lugares e também ambientes para se usar roupas apertadas e muito decotadas. Ele realça que a questão dos alunos é “um pouco mais delicada”, pelo que defende que, nos casos extremos, o aluno deve ser repreendido e até mesmo pedir que saia da sala de aulas.
Gonçalo Silva, que é casado, condena veementemente o uso de roupas muito curtas ou decotadas, a tal ponto que frisou que não permitiria que a sua esposa se vestisse de forma “indecente”, também porque não o faz.
Partindo do ponto de vista da boa apresentação, os factores externos são elementos que tornam um indivíduo mais sexy, opinou o professor Gonçalo Silva.
Um bom perfume, um bom relógio, o bem vestir são factores externos apontados pelos estudantes como elementos da sensualidade, mas existem factores externos que não mudariam a sensualidade.
“Se um homem não é sexy, não é um carro que o vai tornar mais sexy”, disse-nos a jovem Louvada.
Existe uma diferença notável entre “ser” e “estar sexy”.
Para esta, no primeiro caso é algo originário ou natural e no segundo “depende da circunstância”. “Estamos sexy quando assim nos sentimos ou quando, na forma de pensar das pessoas, usamos algo sexy como um vestido mais decotado, uma saia mais justa ou até um calção mais curto”, acrescentou.
Contrariamente a esta ideia, Delfina Mário, de 27 anos, moradora do bairro Chicala, disse que não existe diferença entre ser e estar sexy e realçou que ser sexy é sentir-se bem consigo mesma e que quando isso não acontece “surgem as pessoas que não são sexy”.
Para Manuel Alberto, que também acredita numa diferença entre ser e estar sexy, o conceito de estar sexy depende da apreciação do lado oposto. O nosso interlocutor disse-nos que isto pode acontecer em qualquer lugar, como uma festa ou outro tipo de convívio.
“Não vou negar que usar um “tchuna baby” (termo usado para distinguir um calção jeans ou de pano curto com a bainha dobrada, que se usa apertado) é um elemento do estar sexy, a partir do pressuposto de que as pessoas consideram também estar sexy” disse-nos a estudante Louvada do Nascimento, que, entretanto, faz questão de realçar que “jamais usaria um tchuna baby”.
Cirilo Kucussa, estudante do quarto ano do curso de Engenharia e Telecomunicações da UCAN, que também frisou que nunca usará um “tchuna baby”, disse que isso é um factor relacionado com a moda e realçou que nem todos aspectos relacionados com a moda devem ser seguidos, para que não se chegue a um caso, mesmo que leve, de atentado ao pudor. “As pessoas que se vestem assim o fazem para chamar a atenção dos outros”, realçou.
“Já vi aqui na Católica, num sábado, dois colegas vestidos com “tchuna baby” e eles disseram que se vestiram daquele jeito para estarem mais descontraídos”, contou-nos Odete Maria.
O “tchuna Baby” é uma roupa completamente informal e deve ser usada num ambiente similar, o indivíduo que o decide usar nunca deve extrapolar, não nos podemos apresentar com uma blusa decotada exageradamente ou com um “tchuna baby” em ambientes mais formais como uma sala de aulas, frisou o professor Gonçalo Silva, da UCAN.
“Temos que ter em conta que a psicologia dos jovens é esta, querem mostrar-se, mas para tal não precisam de provocar”, disse-nos a madre Maria do Céu Costa, de 59 anos, professora da disciplina de Ética e Cristianismo da UCAN.
O modernismo é um dos factores que faz com que a censura a esta forma de vestir diminua. A irmã Maria do Céu realçou que a nossa sociedade tem estado muito tolerante neste aspecto porque as pessoas acreditam que podem fazer tudo sem dar satisfação a quem as rodeia.
As famílias já não têm o poder que tinham antigamente porque estão desestruturadas devido a vários factores como a falta de responsabilidade dos pais, defende a irmã Maria do Céu Costa. “A amizade entre pais e filhos deve aumentar, para que estes consigam cumprir melhor o seu papel na educação dos filhos”, acrescentou a religiosa.
“A origem do tchuna baby” Estar na moda e ser sexy é uma combinação procurada cada vez mais pelo povo luandense.
Como é comum na moda, fala-se de muitas origens para o “tchuna baby”, Domingas Ferreira, de 23 anos, moradora do bairro Cazenga, disse ter começado a usar este tipo de calção quando viu a personagem representada pelo actor brasileiro da Rede Globo Marcelo Serrado, o “Crô” usar.
Eunice Fernandes, de 34 anos, moradora do Cazenga e colaboradora na realização de eventos naquele bairro, afirmou ter visto este tipo de calções pela primeira vez numa das festas que realizava e a partir daí começou a usar.
Feliciana Xavier, também moradora do bairro Cazenga, disse-nos que o “tchuna baby” já é uma roupa usada há muito tempo, só a terminologia é que é recente, devido ao cantor Action Nigga que, segundo ela, a criou.
João Simão de 23 anos, morador da mesma área, assíduo em festas do bairro onde foi encontrado pela Vida, disse que usava o “tchuna baby” antes de virar uma “febre” e que agora usa com mais frequência porque viu o cantor Action Nigga usar.
Os cantores Tchoboly e Sarissari, que também usam o calção, afirmam não o usar exageradamente curto, como se pode verificar no vídeo da música “É Male”.
Sarissari reprova os outros artistas que usam o “tchuna baby” extremamente curto porque enquanto cantores a “Tchobari” (termo que designa a dupla Tchoboly e Sarissari) se afirma como influência para as outras pessoas.
Por outro lado, a dupla realçou que de um modo geral existe um pouco mais de liberdade para os artistas, para o uso de algumas indumentárias e acrescentou que quando um artista está no palco trajando roupas “fixes”, o público cria mais empatia com ele.
Tchoboly realçou que há um padrão na forma de vestir para cada lugar e realçou que não se vestem como artistas a tempo inteiro, mas sim “estabelecem diferenças”.
Sobre o nome do calção, a dupla reconheceu não saber a origem, Tchoboly afirmou que a primeira pessoa que viu usar “tchuna baby”, sem saber que o calção tinha a denominação pela qual é conhecida hoje foi Sarissari. Segundo explicou, o Sarissari só descobriu o nome quando um rapaz do Catambor, na Maianga, o começou a chamar de “rei do tchuna baby”. Tchoboly admitiu ainda que as pessoas do Catambor começaram a usar tal roupa quando viram o Sarissari usar.
O abuso do “tchuna baby”, quando excessivamente curto, deve-se a promoção de festas com o mesmo tema, onde são estabelecidos concursos em que os prémios são em quantias monetárias, o que incentiva as pessoas a se “despirem” cada vez mais.
“Hoje em dia as pessoas por dinheiro fazem tudo”, disse-nos a dupla Tchobari.
A dupla realçou que outros problemas da sociedade como poligamia e agressão a mulheres não serão resolvidos se estas não se valorizarem cada vez mais. “As pessoas têm que diferenciar o sensual do sexual”, disse Sarissari.
Jorge Manuel, de 23 anos, promotor de eventos e também motorista realiza festas no Cazenga há já algum tempo e cada festa tem um tema “especial”, como festa do “decote mexido”, “domingão explosivo” e “tarde do galo” que custam geralmente 500 Akz à entrada, para todo mundo poder entrar, disse-nos.
O promotor de eventos confessou que na festa do “decote mexido” a mulher mais decotada recebeu como prémio uma quantia monetária de 150 dólares e realçou que nas festas que promove existem sempre prémios em dinheiro, mas disse que, por outro lado, não há exageros.
JM realçou que a sua “staff ”, composta por 12 homens, controla a apresentação das pessoas à entrada dos eventos, “já barramos muitas meninas por estarem quase nuas”, disse-nos.
“Os tchunáveis” Para melhor entender a influência que o “tchuna” tem na nossa juventude, fomos recentemente a uma festa, no Cazenga, denominada “Festa do Galo”, onde muitos dos presentes trajavam calções curtos.
Num ambiente dominado pelo cheiro de fumo de liamba e mulheres com roupa curta e decotada, consumindo bebidas alcoólicas enquanto dançavam de forma sensual.
Ivanilson Rodrigues, que encontramos na festa, dissenos que só não usa
“o tchuna baby” por ter as pernas muito magras, mas que se pudesse
usaria o calção sem hesitar.
Contudo, o mesmo confessou que não condena quem usa o calção, mesmo que
muito curto, por gostar de apreciar, principalmente nas mulheres.
E disse que respeita a forma de vestir de cada um.
Já João Simão, que também estava na “Festa do Galo” disse que quando usa
o calção chama mais a atenção das mulheres e que já conseguiu arranjar
namoradas por isso, mas realçou que na escola, trabalho e noutros
lugares mais formais não usa, por questões de boa apresentação,
acrescentando que nunca foi “destratado” ou insultado quando anda pelas
ruas de Luanda a usar o “tchuna baby”.
Domingas Ferreira usa o tchuna baby e acha completamente normal usar o
calção, mesmo que muito curto, tanto que disse usa-lo não só em festas
mas também quando está na rua e nunca foi desrespeitada pelos homens por
assim se vestir.
Sobre o assunto ouvimos também Eunice Fernandes, conhecida como a Tia
Eunice”, de 34 anos, que disse-nos que usa o “ tchuna” desde o princípio
do ano e que da parte do seu esposo não há objecção alguma consoante ao
uso de trajos minúsculos. “Ele gosta”, acrescentou enquanto dançava na
festa.
Os seus três filhos também não se importam e o mais velho, de 14 anos,
acha tão comum que até vai a festas com a sua mãe vestida com o
“tchuna”, como testemunhado pela VIDA durante a reportagem.