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Ciência

Uma luz na evolução

Os últimos meses foram excepcionais para o estudo universal das origens do homem. Há alguns meses descobriu-se uma falange fossilizada na Sibéria, que revelou uma espécie inteiramente nova de hominídeo que existia há 50 mil anos. Mais recentemente, cientistas da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, anunciaram uma descoberta similar. São duas ossadas bastante completas — um menino de 12 anos e uma mulher de 30 — encontradas na caverna Malapa, a 40 quilómetros de Joanesburgo.

Devido à abundância de fósseis, a região é tida como um dos possíveis berços da Humanidade. Porém, nenhuma descoberta, até hoje, apresentou as características do menino e da mulher. As longas pernas, a pélvis bem desenvolvida, o rosto achatado e os dentes pequenos são similares aos das espécies mais antigas do género Homo, ao qual pertencemos. Já os braços longos e o formato das mãos sugerem que, apesar da marcha bípede, os nossos ancestrais ainda se sentiam à vontade nas árvores.

O formato do crânio assemelha-se ao do Homo Sapiens, a nossa espécie. Mas a sua baixa estatura (1,3 metros) e o cérebro reduzido (420 centímetros cúbicos, pouco maior que o do chimpanzé) remetem o parente para a espécie do australopitecos, os primatas mais antigos na evolução dos hominídeos.A nova espécie foi baptizada de Australopithecus Sediba.

“Sediba” significa “fonte” em sesoto, uma das onze línguas oficiais da África da Sul. As análises mostraram que o menino e a mulher viveram há 1,95 milhão de anos. Até agora, a tese mais aceite entre os estudiosos aponta o Australopithecus Africanus, que viveu na África do Sul entre 3 milhões e 2,4 milhões de anos atrás, como o ancestral imediato do género Homo. A intrigante mistura de características arcaicas e modernas levou os pesquisadores sul-africanos a apresentar a nova espécie como o melhor candidato a antecessor directo da nossa espécie. A prova dessa hipótese ainda depende de estudos posteriores – mas, seja como for, está claro que os fósseis sul-africanos oferecem pistas espectaculares sobre um período especialmente obscuro da evolução humana. “A transição para o Homo continua a ser muito confusa”, afirmou à revista Science o respeitado paleontólogo norte-americano Donald Johanson, da Universidade do Arizona. Johanson descobriu a famosa Lucy, na Etiópia, em 1974. Esse esqueleto quase completo de uma fêmea de australopiteco, de 3,2 milhões de anos, está hoje firmemente fixado na árvore genealógica do homem. Naledi Pandro, a Ministra da Ciência e da Tecnologia da África do Sul, não esconde o orgulho por mais esta descoberta em solo sul-africano.

O bom estado de preservação dos ossos descobertos na caverna ajudou bastante à publicação do estudo. “Os esqueletos encontrados em Malapa são muito mais completos que os da maioria dos fósseis conhecidos pela paleontologia. Contam-se pelos dedos das mãos os exemplares semelhantes a esses”, diz o paleontólogo americano Lee Berger, o principal autor do estudo. O par — que talvez seja mãe e filho — parece ter caído por uma fenda no tecto da caverna. Outros animais, entre eles um felino de dentes de sabre, cujos fósseis também foram achados na caverna, parecem ter sido vítimas da mesma armadilha natural. A aposta dos cientistas é que tanto os hominídeos quanto os animais estavam à procura de água. A verdade é que milhões de anos depois, os Australopithecus Sediba tornaram-se personagens--chave da paleontologia. Este ano a África do Sul está, decididamente, no centro 
do mundo.


O nosso “antigo parente” da Sibéria

A análise do DNA de um fóssil descoberto na Sibéria aponta para a existência de um hominídeo que conviveu com o homem há 40 mil anos. Em 2008, os investigadores russos encontraram um pedaço de falange do dedo mínimo enterrado na caverna Denisova, no sul da Sibéria.  A camada geológica em que o fragmento foi encontrado sugere que pertencia a um hominídeo do período paleolítico, há 50 mil anos atrás. Como o homem moderno e o neandertal habitavam a região, os cientistas do Instituto Max Planck, na Alemanha, que analisaram o DNA do fragmento de osso, esperavam que o fóssil pertencesse a um deles.

Na verdade ocorreu algo inesperado: o estudo, publicado na revista científica Nature, revela que o material genético não pertence a nenhum deles. “Tudo indica que estamos diante de um hominídeo totalmente novo para a ciência”, defende Johannes Krause (na foto, à direita), um dos autores deste estudo que coloca o dono da falange mais próximo do homem do que dos primatas.

Se os cientistas estiverem correctos, será a primeira vez que um hominídeo é identificado tendo como base de pesquisa apenas o seu DNA. Na realidade o estudo do genoma tem permitido aos paleontólogos reconstituir o passado do homem ao longo da história. O biólogo sueco Svante Pääbo descobriu, por exemplo, que o Homo Sapiens e o Neandertal não eram parentes tão próximos como se pensava. O cientista provou que o primeiro não é descendente do segundo, mas sim um primo distante. Durante os 6 milhões de anos da evolução humana, coexistiram várias linhagens de hominídeos. Todas acabaram extintas, excepto o Homo Sapiens.

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Alexandre Salvador
12 de Agosto de 2010
15:46
 
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