É o país com a maior classe média do mundo. É também o maior importador de armas do planeta. O papel da Índia nos assuntos mundiais e as suas pretensões à liderança regional e, em perspectiva, mundial, puseram-na entre os países que hoje em dia determinam as tendências fundamentais da política global.
Mas, como é que estes êxitos inegáveis se reflectem na vida da maioria da população indiana? Porque, infelizmente, a Índia figura entre os líderes mundiais também pelo alto nível de estratificação social. Ao lado de pessoas muito ricas, que se gabam do seu luxo, centenas de milhões de pessoas continuam a viver na pobreza, ganhando menos de um dólar por dia, e privadas de acesso às comodidades mais elementares.
A jovem camponesa Anita Bai Narre, do Estado de Madhya Pradesh, transformou-se, nas últimas semanas, em quase heroína nacional. Ela mereceu uma audiência do Presidente da Índia, Pratibhi Patil, ganhou um prémio de 500000 rupias ($10 000), e a sua fotografia foi publicada em todos os principais jornais indianos. Porque? Simplesmente porque, depois de casar, se negou a viver na casa dos sogros, que não tinha casa de banho. O que teria sucedido se este passo não tivesse sido dado apenas por Anita mas sim por todas as jovens indianas recém-casadas? Pois, de acordo com os dados do último recenseamento, 53% das casas na Índia não têm casa de banho, chegando este índice a 70% nas zonas rurais.
A carência de elementares comodidades nas casas indianas é agravada ainda mais pela carência de casas de banho públicas, sobretudo femininas. Segundo escreve o The New York Times, Nova Delhi tem mais de 1500 banheiros públicos masculinos e somente 132 femininos (muitos dos quais praticamente não funcionam).
Boris Volkhonski, perito do Instituto de Pesquisas Estratégicas da Rússia, assinala:
“Os estrangeiros que visitam a Índia ficam literalmente chocados ao ver que os indianos, sem vergonha alguma, fazem as necessidades directamente à beira da via pública. Eu próprio, ao visitar a Índia pela primeira vez, nos anos 80, sofri um choque fortíssimo quando visitei a mesquita de Jama-Masjid, de Nova Deli, em fins de Setembro. Fazia cerca de 30 graus, era uma sexta-feira e a mesquita estava cheia de gente. A meio caminho entre a cerca e o edifício principal da mesquita compreendi que não conseguiria dar um passo nem para diante nem para trás e que ia desmaiar devido a um intenso mau cheiro. A única coisa que me manteve em pé foi o facto de ver onde poderia cair, a perspectiva de ficar deitado no meio daquela sujeira obrigou-me a controlar os sentidos”.
Desde então, a situação não mudou muito. Há dias, Jairam Ramesh, ministro da Água Potável (que acumula também o cargo de ministro do Desenvolvimento Agrícola), formulou a imensa tarefa de resolver este problema nos próximos 10 anos. “Precisamos de uma revolução social para eliminar esta mancha da nossa sociedade”, disse.
Os organismos internacionais não são, porém, tão optimistas.
O recente relatório da UNICEF e OMS afirma que a Índia só poderá assegurar condições sanitárias dignas à população em 2054 e, aos habitantes dos Estados de Madhya Pradesh e Orissa, só no próximo século. Mas esta situação repercute-se directamente no desenvolvimento económico das regiões. Por exemplo, a falta de casas de banho em Orissa polui as águas costeiras do Golfo de Bengala, o que, por sua vez, impede o desenvolvimento do colossal potencial turístico desse belíssimo Estado.
Por incrível que pareça, o número de telefones por pessoa, na Índia, é maior que o número de casas de banho. Segundo os dados do já mencionado recenseamento, em 63,2% das casas indianas há telefones, seja de linha fixa, seja celulares. Este facto reflecte uma das contradições da etapa contemporânea de desenvolvimento da Índia: É mais fácil garantir à população tecnologias de ponta do que comodidades elementares.