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Do App ao CNPJ Americano: A Geração Lusófona que Transformou 'Bicos' em Empresas de Verdade nos EUA

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Do App ao CNPJ Americano: A Geração Lusófona que Transformou 'Bicos' em Empresas de Verdade nos EUA

Do App ao CNPJ Americano: A Geração Lusófona que Transformou 'Bicos' em Empresas de Verdade nos EUA

Quando Fábio Mendonça desembarcou em Newark, Nova Jersey, em 2018, ele tinha na mochila um diploma de administração de empresas de Belo Horizonte e no bolso pouco mais de 400 dólares. A primeira coisa que fez foi baixar o aplicativo da Uber. Dois anos depois, era dono de uma empresa de limpeza comercial com oito funcionários e contratos com três prédios de escritórios no centro da cidade. A história de Fábio não é exceção — é quase um roteiro que se repete em comunidades lusófonas de Massachusetts a Miami, de Newark a San Jose.

A economia gig — esse universo de trabalhos por aplicativo, bicos freelance e serviços temporários — costuma ser retratada como armadilha: sem benefícios, sem estabilidade, sem futuro. Para uma fatia crescente de imigrantes lusófonos nos EUA, ela foi outra coisa: escola, capital de giro e agenda de contatos, tudo ao mesmo tempo.

O Volante Como Sala de Aula

Dirigir para Uber ou Lyft pode parecer uma escolha de sobrevivência, mas muitos imigrantes lusófonos enxergaram nessa função algo que as universidades raramente ensinam: acesso direto ao comportamento do consumidor americano.

"Eu passava oito horas por dia conversando com americanos de todos os tipos — executivos, turistas, universitários," conta Carla Rodrigues, nascida em Braga, Portugal, e hoje dona de uma empresa de translado corporativo em Boston. "Aprendi o que eles valorizavam, como se comunicavam, o que os incomodava nos serviços. Quando decidi montar meu próprio negócio, eu já sabia exatamente o que o cliente queria."

Carla começou como motorista de app em 2019, economizou durante 14 meses e usou o dinheiro para comprar uma van. Hoje opera uma frota de quatro veículos com contratos fixos de transporte executivo. O primeiro cliente? Um CEO que ela havia levado ao aeroporto três vezes quando ainda trabalhava para a plataforma.

Entregas que Abrem Portas

O setor de delivery foi outro trampolim. Domingos Tavares, cabo-verdiano radicado em Brockton, Massachusetts — cidade com uma das maiores comunidades cabo-verdianas fora do arquipélago — começou entregando para DoorDash e Amazon Flex em 2020, durante a pandemia, quando a demanda por entregas explodiu.

"Todo mundo precisava de entrega. Eu trabalhava 12 horas por dia e guardava tudo que podia," explica Domingos. Em 18 meses, ele havia juntado dinheiro suficiente para alugar um pequeno galpão e lançar um serviço de logística local voltado para pequenos comércios do bairro — muitos deles de outros imigrantes lusófonos que precisavam de entregas rápidas sem pagar as taxas absurdas das grandes plataformas. Hoje, seu negócio fatura cerca de 20 mil dólares por mês.

A Diarista que Virou Empresária

No universo dos serviços domésticos, a trajetória de Simone Ferreira, brasileira do interior de São Paulo, é emblemática. Ela chegou a Framingham, Massachusetts, em 2016 e durante quatro anos trabalhou como diarista para famílias americanas de classe média alta. Não apenas limpou casas — observou, perguntou, aprendeu.

"Eu via como as famílias organizavam o tempo, o que terceirizavam, o que valorizavam. E percebi que havia uma demanda enorme por serviços de organização residencial — não só limpeza, mas organizar armários, mudanças, esse tipo de coisa," conta Simone. Ela fez um curso online de personal organizer, criou um perfil no Instagram em inglês e português, e começou a oferecer pacotes diferenciados. Em 2021, fundou a Clean & Organize Framingham. Hoje tem uma equipe de seis pessoas e lista de espera de três semanas.

Os Números Por Trás das Histórias

Essas trajetórias individuais refletem uma tendência mais ampla. Segundo dados do New American Economy, imigrantes são responsáveis por quase 25% de todos os novos negócios abertos nos Estados Unidos — uma proporção que supera em muito sua participação na população total. Entre os hispânicos e lusófonos especificamente, o empreendedorismo cresceu mais de 40% na última década.

Um relatório do Kauffman Foundation aponta que imigrantes têm maior probabilidade de abrir um negócio do que americanos natos — e parte dessa propensão vem justamente da experiência na economia gig, que funciona como um "MBA informal": ensina gestão de tempo, atendimento ao cliente, controle financeiro básico e, acima de tudo, tolerância ao risco.

Da Informalidade ao Negócio Registrado: O Passo Mais Difícil

A transição do bico para o negócio formal é onde muitos tropeçam — e onde a comunidade lusófona tem criado redes de apoio cada vez mais sólidas.

Organizações como a Brazilian Business Group em Massachusetts e a Portuguese-American Chamber of Commerce oferecem workshops gratuitos sobre como abrir uma LLC, entender impostos para autônomos e acessar microcrédito. Plataformas como o SCORE — programa federal de mentoria empresarial — têm expandido o atendimento em espanhol e português em cidades com grande concentração lusófona.

"O maior medo era a parte burocrática," admite Fábio Mendonça. "Mas quando descobri que abrir uma LLC em New Jersey pode custar menos de 200 dólares e ser feito online em poucas horas, percebi que o obstáculo era mais psicológico do que real."

Dicas de Quem Já Fez o Caminho

Para quem está na economia gig e pensa em dar o próximo passo, os empreendedores lusófonos ouvidos pela reportagem compartilharam algumas lições práticas:

Guarde uma porcentagem fixa todo mês. Mesmo que seja 10% do que entra, crie uma conta separada só para o futuro negócio. A disciplina financeira na fase do bico é o que separa quem sai de quem fica.

Use o trabalho atual como pesquisa de mercado. Cada cliente é uma fonte de informação. O que eles precisam que ninguém oferece bem? Onde estão as lacunas?

Construa relacionamentos, não só entregas. O cartão de visita trocado com um cliente satisfeito pode valer mais do que mil seguidores no Instagram.

Aprenda o básico de finanças para autônomos. Impostos de self-employment, deduções permitidas, separação entre conta pessoal e empresarial — esses conceitos podem parecer chatos, mas ignorá-los custa caro.

Busque a rede lusófona. Grupos no WhatsApp, associações de bairro, igrejas — a comunidade é um ativo real. Muito negócio começa com um conterrâneo indicando para outro.

Um Trampolim, Não uma Armadilha

A economia gig tem falhas sérias — falta de proteção trabalhista, instabilidade de renda, ausência de benefícios. Ninguém que a conhece de perto romantiza isso. Mas para uma geração de imigrantes lusófonos que chegou aos EUA sem rede de contatos, sem inglês fluente e sem capital, ela ofereceu algo raro: uma porta de entrada que não exigia credenciais, mas recompensava quem soubesse olhar além do próximo pagamento.

Fábio, Carla, Domingos e Simone não chegaram aos EUA para ficar dirigindo ou limpando para sempre. Chegaram para construir. E usaram o que tinham — um carro, um par de luvas, uma vassoura — para fazer exatamente isso.

O país dos sonhos não entregou nada de graça. Mas, pelo menos para eles, entregou uma chance.

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