O País All articles
Cultura

Fora do Script: Os Lusófonos que Estão Reescrevendo as Regras em Silicon Valley, na Moda e na Ciência

O País
Fora do Script: Os Lusófonos que Estão Reescrevendo as Regras em Silicon Valley, na Moda e na Ciência

Photo: diverse professional Portuguese speaking innovator tech fashion science laboratory, via img.freepik.com

Existe um roteiro não escrito sobre o que um imigrante lusófono faz nos Estados Unidos. Ele trabalha na construção, na limpeza, no restaurante, na área de saúde — carreiras honestas, essenciais, que sustentaram gerações de famílias. Mas esse roteiro está sendo rasgado, página por página, por uma nova geração que chegou com outras bagagens e outras ambições.

Eles estão no Vale do Silício fundando startups que captam milhões. Estão nas semanas de moda de Nova York e Paris com coleções que misturam estética lusófona com vanguarda global. Estão em laboratórios de pesquisa climática e em centros espaciais. E estão, silenciosamente, mudando o que significa ser lusófono na América.

O Código que Veio do Brasil

Quando Thiago Drummond, 29 anos, natural de Belo Horizonte, chegou a San Francisco em 2019 para um programa de intercâmbio, ele não falava inglês fluente e tinha menos de dois mil dólares na conta. Cinco anos depois, sua startup de segurança cibernética tem escritórios em São Francisco e Austin, 23 funcionários e um aporte de série A de 8 milhões de dólares.

"As pessoas ficam surpresas quando descobrem que sou brasileiro," ele diz, com um sorriso que mistura orgulho e cansaço. "Como se inovação tivesse passaporte."

Thiago não é caso isolado. Nos últimos anos, empreendedores brasileiros tornaram-se uma presença crescente no ecossistema de tecnologia americano. Segundo dados da Endeavor, organização que apoia empreendedores de alto impacto, o número de fundadores brasileiros em startups americanas cresceu mais de 60% entre 2018 e 2023. Muitos passaram por aceleradoras como Y Combinator e 500 Startups, onde o sotaque virou irrelevante diante da qualidade das ideias.

O diferencial, segundo Thiago, é cultural. "Brasileiro aprende a resolver problema com recurso escasso desde cedo. Nos EUA, isso é chamado de 'frugal innovation'. Para a gente, é só sobrevivência."

A Moçambicana que Vestiu Nova York

Na indústria da moda, onde o glamour muitas vezes esconde estruturas profundamente excludentes, Aïda Cossa, 36 anos, nascida em Maputo e criada em Lisboa antes de se mudar para Nova York, está construindo algo diferente.

Sua marca, Ndzuti — palavra que significa "raiz" em changana, língua do sul de Moçambique — mistura tecidos africanos com cortes contemporâneos e um processo de produção que ela descreve como "radicalmente transparente". Cada peça traz uma etiqueta com a história do tecido, do artesão e da região de onde veio.

"A moda sempre usou a África como inspiração sem crédito e sem retorno," ela diz, enquanto ajusta um casaco num manequim no seu ateliê no Brooklyn. "Eu quero inverter isso. Quero que quando alguém compre uma peça minha, saiba exatamente de onde ela veio e quem foi pago por isso."

Aïda foi destaque na edição de setembro da Vogue América em 2023 e hoje tem peças em lojas conceito em Manhattan, Los Angeles e Miami. Mas o que ela considera sua maior vitória é diferente: uma oficina mensal que ela coordena no Bronx, ensinando técnicas de costura para mulheres imigrantes africanas e lusófonas.

A Física que Quer Salvar o Planeta

Em Boulder, Colorado, num laboratório do National Center for Atmospheric Research, a portuguesa Inês Magalhães, 38 anos, passa os dias analisando dados de satélites para entender como o aquecimento global está afetando os padrões de chuva na América do Sul e na África Subsaariana.

"Há uma ironia cruel nisso," ela diz. "Os países que menos contribuíram para as emissões de carbono são os que mais vão sofrer as consequências. E parte do meu trabalho é tornar isso visível em dados."

Inês veio de Coimbra com uma bolsa de doutorado e nunca mais voltou — não por falta de amor a Portugal, mas porque os recursos de pesquisa nos EUA são incomparáveis. Ela é coautora de 14 artigos científicos publicados em revistas como Nature Climate Change e Science, e foi recentemente convidada para integrar um painel consultivo da ONU sobre adaptação climática.

O que a move, ela diz, é algo que aprendeu na infância: "Em Portugal, a gente cresce sabendo que o oceano pode ser generoso e pode ser cruel. Isso te dá um respeito pela natureza que não é acadêmico. É visceral."

O Angolano que Mira as Estrelas

Mais surpreendente ainda é a trajetória de Dário Neto, 31 anos, de Luanda. Engenheiro aeroespacial formado pelo MIT, ele trabalha num projeto da NASA voltado para o desenvolvimento de propulsores para missões de longa distância — incluindo a missão planejada a Marte.

"Quando eu era criança em Angola, a gente não tinha livros sobre espaço. Eu aprendi sobre astronomia pelo rádio," ele conta. "Hoje eu trabalho para que seres humanos cheguem a outro planeta. Isso ainda parece irreal."

Dário faz questão de voltar a Luanda todo ano para falar em escolas. "Se um menino angolano que aprendeu sobre estrelas pelo rádio pode trabalhar na NASA, então qualquer criança daqui pode sonhar com qualquer coisa."

O Que Eles Têm em Comum

Thiago, Aïda, Inês e Dário vieram de países diferentes, trabalham em áreas completamente distintas e têm trajetórias únicas. Mas há um fio que os conecta: todos falam sobre a lusofonia não como um limite, mas como uma perspectiva.

A capacidade de circular entre culturas — entre o português e o inglês, entre o Sul Global e o Norte, entre a tradição e a inovação — parece gerar um tipo particular de visão de mundo que o mercado americano, quando presta atenção, reconhece como valioso.

"Nós somos, por definição, pessoas que aprenderam a traduzir," diz Aïda. "E tradução, no fundo, é o que toda inovação é."

O roteiro não escrito sobre o imigrante lusófono continua existindo. Mas está cada vez mais rasurado.

All Articles

Related Articles

Além do Carnaval e da Crise: Os Jornalistas Lusófonos que Estão Mudando Como a América Enxerga o Mundo de Língua Portuguesa

Além do Carnaval e da Crise: Os Jornalistas Lusófonos que Estão Mudando Como a América Enxerga o Mundo de Língua Portuguesa

Receitas que Quase se Perderam: Como Jovens Luso-Americanos Estão Salvando a Cozinha das Suas Avós

Receitas que Quase se Perderam: Como Jovens Luso-Americanos Estão Salvando a Cozinha das Suas Avós

Em Português e Sem Pedir Desculpa: Os Criadores Lusófonos que Estão Fazendo Barulho nas Redes Americanas

Em Português e Sem Pedir Desculpa: Os Criadores Lusófonos que Estão Fazendo Barulho nas Redes Americanas